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Sistema alimentar brasileiro durante a ditadura

Sistema alimentar brasileiro durante a ditadura

Por Kellen Vieira

No dia 31 de março de 1964 foi o início de um dos piores momentos históricos do Brasil. A ditadura militar brasileira foi uma das ditaduras que durou mais tempo na América Latina, e foi um período de terror, marcado por censura e violência. A ditadura também foi o período do suposto “milagre econômico” que levou o Brasil à falência a partir da década de 70. E tudo teve início com a questão da reforma agrária.

Ao assumir o poder após a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart colocou a reforma agrária no centro do embate político brasileiro. A reforma era mais do que esperada, segundo dados do IBGE da época dos 79,8 milhões de brasileiros, 33 milhões viviam em área rural, em situações de extrema pobreza. Mesmo com uma grande população rural, a produção agrícola era escassa e os latifúndios inúmeros. Importante salientar que esses latifúndios em sua maioria eram improdutivos.

O movimento a favor da reforma agrária era orquestrado pelas Ligas Camponesas e pelo Partido Comunista Brasileira (PCB). Em contrapartida os grandes proprietários de terras, que se opunham à reforma, eram parlamentares.

Mesmo com a tomada de poder pelos militares, a pressão camponesa pela reforma agrária induziu o presidente da época, General Castelo branco a assinar o Estatuto da Terra (Lei Nº 4.504/64) em 30 de novembro de 1964, vigente até hoje. De modo geral, a ditadura foi a principal responsável por estancar o movimento da reforma agrária nos anos 60 e 70, com uma reforma que está apenas no papel.

Em teoria o Estatuto da Terra pensa a estrutura agrária brasileira de acordo com as necessidades econômicas e sociais. É importante enfatizar que a reforma agrária está diretamente ligada ao acesso e produção da alimentação, sendo assim um dos pontos estratégicos para a garantia da Segurança e Soberania Alimentar e Nutricional para toda a população.

Mesmo passados 57 anos o estatuto ainda não cumpriu seu papel em totalidade apesar de alguns avanços pontuais como: a indenização por desapropriação de terras, a legalização das relações trabalhistas no campo, a apropriação sustentável dos recursos naturais para produção, entre outros. O Estatuto também criou dois órgãos para sua execução: o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária e o Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário.

As limitações em torno dessa lei são expressivas, pois os dispositivos de desenvolvimento agrícola que são dominados por uma política conservadora que não possibilita uma reforma agrária abrangente. Com a constante reeleição de famílias que são latifundiárias, que integram a bancada ruralista, também chamada de Bancada BBB ( bala, boi e bíblia) que usam a máquina pública em favor de seus interesses, a reforma agrária vai se estendendo como um sonho cada vez mais distante.

E, apesar da volta da força do movimento agrícola como o MST na década de 80 esse impasse da reforma agrária persiste até hoje, assim como os conflitos sangrentos e perversos no campo que são motivados essencialmente pelos problemas sociais e abuso de poder dos latifundiários, e coronelistas brasileiros.

O período também foi marcado por um grande, e falso crescimento econômico, que deu início ao aumento da desigualdade no país, ao mesmo tempo que fazia o Brasil atingir níveis de inflação acima de 60% ao ano. Com a estratégia econômica do dito “arrocho salarial” para conter a crise, os salários tinham reajustes abaixo dos níveis de inflação, o que deu certo por um tempo. Porém em 1980, nós tivemos a chamada “década perdida”, e essa situação se estendeu até a implementação do plano real, em 1994.

Com a variação diária da inflação, os preços dos alimentos, e outros itens, eram alterados diariamente, e até mais de uma vez por dia. Como estratégia para lidar com essa instabilidade, os brasileiros passaram a fazer todas as suas compras uma vez por mês. Dessa forma, era possível fugir do aumento de preço do dia seguinte e garantir o acesso à alimentação. Esta época foi tão marcante que incorporamos esta medida em hábitos culturais e ela perdura até hoje.

Porém o resultado disso após a estabilização da economia é um consumo exagerado que resulta em um desperdício, por brasileiro, de aproximadamente meio quilo de alimentos por dia, o que equivale a 10% de todo desperdício de alimentos no Brasil, segundo a organização banco de alimentos. Nesse estudo foi constatado que “na colheita, o desperdício é de 10%. Durante o transporte e armazenamento, a cifra é de 30%. No comércio e no varejo, a perda é de 50%”. O resultado disso é que o Brasil é um dos 10 países que mais desperdiçam alimentos no mundo. Esse desperdício está combinado com um alto nível de pobreza e insegurança alimentar.

A ditadura foi um marco da história brasileira que retrata um passado sangrento e que deixou marcas irreparáveis na sociedade. Ver isso sendo comemorado em plenário, ou por pessoas com o pretexto do crescimento econômico e combate a corrupção é infundado e mentiroso, pois como vimos, os políticos continuaram governando esse país com ainda mais liberdades e interferências na vida das pessoas. E mesmo que esse discurso fosse verdadeiro, as atrocidades cometidas e a privação da liberdade não devem ser colocadas à prova em favorecimento ao capital.

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FONTES:

– https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45960213
– https://www.brasildefato.com.br/2019/11/30/lei-da-ditadura-que-estabeleceu-funcao-social-da-propriedade-completa-55-anos
– http://lemad.fflch.usp.br/node/5280
– https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2014/03/24/1964-pouco-antes-do-golpe-reforma-agraria-esteve-no-centro-dos-debates-no-senado
– https://www.ocomuniqueiro.com.br/2018/09/09/por-que-fazemos-a-compra-do-mes-no-supermercado/
– https://www.ecycle.com.br/3007-desperdicio-de-alimentos.html

Em panelão de existência | Entrevista com Maria Conceição | Matriarcas #8M

Em panelão de existência | Entrevista com Maria Conceição | Matriarcas #8M

Entrevista realizada por BRUNA DE OLIVEIRa

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, queremos evidenciar histórias de mulheres negras que, ao longo da sua trajetória, lutam pela mitigação das iniquidades adensadas sob o cotidiano da população negra no país. Conversamos com Maria Conceição, mulher uma baiana de nascimento e uma paulista de coração.

Aos 60 anos ingressou numa graduação de Gastronomia e reinventou sua trajetória profissional graças a sua proximidade com as receitas antigas de sua mãe. Maria é bacharel em Gastronomia, atua como cozinheira e pesquisadora da cozinha negra e afro-brasileira. Ministra oficinas em quilombos como mediadora e busca recuperar receitas que atuam na reafirmação da memória de seus antepassados, recuperação da autoestima e fortalecimento do protagonismo às diásporas negras na cozinha.

Conte-me um pouco sobre você. Quantos anos você tem? Onde você nasceu? Onde você mora atualmente? Quais seus projetos atuais? Como você chegou até o tema da alimentação?

Eu tenho 66 anos. Eu nasci em Itabuna, na Bahia. Vim para São Paulo com 8 anos e desde então eu moro aqui [em São Paulo]. Eu carrego a marca do dendê no coração, mas hoje eu me considero paulista. Eu gosto dessa cidade. Eu gosto dos estranhamentos dessa cidade. Quando você faz e tem sua própria “tribo” fica tudo tão mais fácil aqui. Tenho amigos tão dedicados. Eu não penso em morar em outro lugar do mundo que não seja São Paulo, por causa dessa afetividade que a cidade me permitiu.

Há dez, quinze anos atrás, minhas amigas traziam um monte de roupas da África… Aqueles chapéus, aquelas roupas… Hoje, eu não vejo ninguém mais fazer isso. Mas, assim, eu ficava decepcionada, porque eu saía pela cidade vestida com aquelas roupas e ninguém nem olhava para mim, eu só mais uma pessoa da cidade, com estilo próprio, meu jeito…

Eu sempre fui militante de esquerda. Fiz parte daquela galera que iniciou as discussões sobre questões étnico-raciais do movimento negro de São Paulo. Fiz parte da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo. O meu núcleo era o de Pinheiros. Fiz parte do nascimento da CUT.

Eu estudava muito, lia muito, tanto que uma amiga minha brincava que eu era a primeira pessoa que antes de entrar na faculdade já tinha um artigo publicado.

Em um momento da minha vida, minha mãe tinha ficado doente, em uma condição não muito legal. Um amigo, o poeta Hamílton Faria de Curitiba, me aconselhou a anotar todas as receitas de minha mãe. Aí eu iniciei o processo de recolher todas as receitas de minha mãe, mas também todas as histórias de mulheres na cozinha. A partir disso, publiquei um artigo sobre mulheres negras na cozinha.

Aos 60 anos, eu decidi deixar de ser autodidata e, logo, entrei na faculdade. Me formei em Gastronomia, continuei trabalhando e nunca deixei de realizar pesquisas. Diante disso, resolvi fazer uma pós-graduação nas áreas que eu mais tinha afinidade: História, Cultura e Gastronomia. Sempre gostei muito de fontes, de pesquisar. Eu não entendo “a receita pela receita”. Gosto de “ir fundo” quando eu faço uma receita. Gosto de pesquisar a origem dessa receita, de onde ela veio, como é a sua história cultural…

Enquanto eu escrevia o livro de receitas de minha mãe e as histórias de mulheres negras na cozinha, eu conheci o movimento negro. Eu me identificava com as discussões que estavam sendo apresentadas pelo movimento. Tudo isso deu um ganho maior de qualidade para as minhas pesquisas posteriores.

Em outro momento da minha vida, eu me deparei com uma “postagem” (sic) sobre Slow Food, da Neide Rigo, e entrei para esse movimento também. Mergulhei e não saí mais.

Assim, a sua própria história com a comida não deve ser única, é preciso mergulhar em várias coisas. Por exemplo, é apaixonante o Movimento Sem Terra (sic)… Tem que olhar para eles e ter esse entendimento que a comida, a cozinha, ela não é só memória, não é só história, cultura… Ela é política também. Tudo isso está no meu panelão.

Existem marcas africanas na culinária brasileira? Se sim, quais são elas?

Sim. Não há como questionar. A culinária africana permeia a cozinha brasileira. Ela é uma forte marca na cozinha brasileira. Na cozinha de santa está impregnada a culinária africana. Vejo-a também impregnada na cozinha dos quilombos, que é de uma pureza incrível. Quando a  gente fala em cozinha brasileira, há muita coisa que por uma questão de modismo a gente não vê mais… E as coisas mudam conforme a chegada de novas modas. A cozinha brasileira é feita de pratos exuberantes. A gente não vê mais rabada, bucho… Um dia fui procurar a rabada para comprar e estava 40 reais o quilo. Ela se valorizou à medida que passou a ser rotulada de gastronomia.

Eu vejo também na cozinha vegana o DNA africano, ainda que o movimento vegano tenha ficado muito marcado pela cozinha da elite branca. Mas tem elementos da cultura negra nela também. Ensopadinho de Ora Pro Nobis, comida de quintal, comida de brejo são preparos que sempre fizeram parte da vida das mulheres negras. Então, eu antevejo um renascimento da cozinha africana no movimento vegano.

Como foi para você entrar na faculdade com 60 anos?

Eu percebi uma certa discriminação etária. Quando se é mais velho, você é meio que deixado de lado. E eu perguntava muito. Sou muito perguntadeira. Criei várias situações com os professores. Muitos deles me odiavam por isso. Mas eu perguntava, porque via coisas que os jovens não viam. Quando eu não entendia, eu perguntava também. e os professores que me deixavam mais à vontade eu entendia os conteúdos mais facilmente. Eu me saí muito bem em matérias que eu não sabia nada. Quando se aprende e se entende, é uma coisa maravilhosa. 

Por um lado, foi bem puxado frequentar a faculdade. Eu saía de casa às 5 e meia. Pegava lotação com uma mala pesadíssima, como todo tipo de facas, utensílios… Eu ficava muito cansada. Houve um dia em que eu estava tão cansada que resolvi ir embora. Quando eu estava saindo, a professora me fez voltar e ficar. E outra vez, outra professora não permitiu que eu sentasse em um banquinho para descansar. Para elas, a cozinha é assim: militarizada. Mas não para mim. Elas viam a cozinha como um lugar rígido, militarizado… Acho isso uma ideia horrorosa. Eu não gosto disso. É como é nos mostrado nesses “reality show”, os chefes acabando com os alunos, humilhando-os. Eu acho isso uma falta de respeito. Enxergo nisso o autoritarismo, o fascimo.

Por outro lado, a pós-graduação foi bem gostosa. Fui apresentada a muitos autores. Conheci e li muitos textos. Foi bem legal.

Que mensagem você deixa para as mulheres mais jovens que desejam trilhar caminhos semelhantes aos teus?

O que eu tenho a dizer às mulheres negras mais jovens é para que esqueçam “o lugar de negro na cozinha”. O nosso lugar é outro, é no alto da cozinha. Eu acho muito legal ver mulheres negras cozinhando, se tornando e se intitulando chefs… Eu acho que as mulheres têm de ir para a cozinha; mas que isso seja feito tornando a cozinha outro lugar. E não esse lugar que nos escravizou, nos deteve, servindo ao patrão… As mulheres devem ir para a cozinha para criação, para se empoderar.

Se inspirem em mim. eu tenho só 10 anos na carreira de cozinheira. Eu tenho material de divulgação, tenho reportagem em jornal da Itália… Eu vou bem, obrigada. Nunca desistam. Olhem para mim, eu estou “aqui”.

Em panelão de existência | Entrevista com Maria Conceição | Matriarcas #8M

De que mulheres estamos falando? | Entrevista com Maria Noelci | Matriarcas #8M

Entrevista realizada por BRUNA DE OLIVEIRA

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, queremos evidenciar histórias de mulheres negras que, ao longo da sua trajetória, lutam pela mitigação das iniquidades adensadas sob o cotidiano da população negra no país. Conversamos com Maria Noelci Homero. Ativista pelo direito humano à alimentação adequada e o enfrentamento ao racismo em rede feminista. 

Noho, como é conhecida, é bibliotecária, funcionária pública aposentada com militância marcada pelo movimento de mulheres negras desde a década de 80.

Fale um pouco de você, quantos anos tem, sua formação, onde trabalhou/trabalha?

Meu nome é Maria Noelci Teixeira Homero, eu tenho 73 anos, nasci em 10 de outubro de 1947 em Porto Alegre. Eu fiz cursos de formação de Magistério no ensino médio e graduação em Biblioteconomia e Documentação. Sou aposentada enquanto funcionária pública da administração do governo do estado [do Rio Grande do Sul]. Exerci cargo de técnico científico no governo do estado. Me aposentei em 1998, trabalhei na biblioteca do Palácio Piratini e também em outra fundação filiada ao Estado também enquanto bibliotecária. Em ambos os cargos sou aposentada. 

Qual a relação entre gênero, raça e Segurança Alimentar e Nutricional?

A relação entre gênero, raça e SAN é muito forte, pelo menos para nós enquanto mulheres negras, porque quem trabalha e quem vive e quem tem esse legado de segurança alimentar de ancestralidade, isso é muito presente com as mulheres negras. É importante nós trabalharmos esta relação com o alimento, com segurança alimentar porque esta relação é muito presente dos nossos fazeres, dos nossos saberes a gente traz esse legado enquanto fazer, produzir esta relação com a terra, esta relação com o plantar isso é um legado que vem da nossa ancestralidade. Trabalhar com gênero e raça é extremamente importantíssimo porque são as mulheres, na grande maioria são as mulheres que têm esta preocupação da alimentação saudável, são as mulheres que produzem mesmo sendo as mulheres que estão mais em insegurança alimentar mas são elas que produzem o alimento. É importante para mim e a instituição que faço parte trazer esta dimensão de gênero e de raça. Todo o nosso trabalho é pautado na dimensão de gênero e de raça, nós não trabalhamos com essa generalidade “as mulheres”, não, nós trabalhamos com as indicações definidas, as mulheres negras. Sempre perguntamos: “de que mulheres estamos falando?” Entendendo a importância que a gente traga as especificidades. 

Quais os desafios de atuar com Políticas Públicas no âmbito da Alimentação para a população negra?

Os desafios para a população negra são imensos na atual situação em que vive nosso país onde as políticas públicas estão sendo devastadas, principalmente no que se refere soberania e segurança alimentar onde o primeiro ato deste governo foi destituir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o CONSEA Nacional e o que que significa isso: uma população com fome, ela é extremamente vulnerável e esta população que mais sofre, a gente sabe que é a população negra. Em relação a isso nós temos muitos desafios que um deles é este de sobreviver e é preciso então que a gente faça alianças com outros segmentos que estão vinculados a SAN, por exemplo, é preciso trabalhar soberania e segurança alimentar com a saúde, isso é um desafio. Fazer aliança com a educação também, porque antes nós tínhamos como entrar em contato com a população mais carente. 

Atualmente nesse momento de pandemia não temos e online é extremamente difícil, logo, perdemos essa possibilidade de estar junto com as pessoas para poder mobilizar. Então a gente precisa estar em algum observatório de direitos e de justiça que falem e que discutam as dimensões de raça dos movimentos sociais, mulheres negras principalmente, para que a gente possa sempre ter em mente que nós precisamos estar nos mantendo seguras e ter essa dimensão de sempre conversar com as demais mulheres não só negras para que possamos construir estas alianças e trazer a tona as formas, mostrando as diversas formas que tem de desigualdades para que a gente consiga juntar forças com outros segmentos para poder seguir a luta. Nesse momento, nesse quadro político que estamos é impossível se trabalhar de forma isolada, precisamos estar aliadas a outros segmentos pra fazer esta discussão sobre desigualdades, racismo e que tenham pessoas também sensíveis às nossas lutas, então é importantíssimo trabalharmos com justiça, com educação e com saúde pra fazer estas alianças em torno da importância da soberania e segurança alimentar. É importante fazermos diálogos e convergências nas nossas lutas. É prioritário que trabalhemos com saúde, educação, SAN e assistência social. 

Conte-nos sobre a Rede de mulheres negras para Segurança Alimentar e Nutricional – RedeSSAN. Qual o objetivo da organização? Em que regiões ela está presente?

Bem, enquanto RedeSSAN, a Rede de mulheres negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional surge da necessidade de constituição de um espaço para as mulheres negras discutirem ações voltadas para soberania e segurança alimentar e nutricional da população negra em geral e em especial para as mulheres negras. Resgatando e preservando os padrões alimentares e culturais da tradição afro-brasileira a RedeSSAN foi fundada em 21 de março de 2005 e desde então vem atuando para o aprofundamento da reflexão e debate, vem formulando propostas, trocas de experiências e articulação em ações que resultem em políticas públicas. A Rede tem uma atuação bem presente de ações de advocacy em vários locais do país, tendo em vista que é composta por mulheres negras que representam várias regiões brasileiras. A Rede realiza ações de advocacy fortalecendo assim seu crescimento em nível local, estadual, nacional e até mesmo internacional, atuamos no enfrentamento ao racismo, ao sexismo, todas as formas de discriminações realizando estudos, pesquisas, assessorias que contribuem para a modificação das iniquidades de gênero e raça. Fazemos análises, avaliamos e monitoramos políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, principalmente anterior a este governo, tínhamos uma atuação muito forte nas legislações e/ou políticas públicas compensatórias para as mulheres negras.      

A RedeSSAN se propõe a articulação com organizações da sociedade civil para influenciar, interferir na proposição de políticas públicas que garantam o direito humano à alimentação adequada e a soberania e segurança alimentar e nutricional da população negra em geral e em particular as mulheres negras, bem como a realização de encontros para o aprofundamento de reflexões, debates e formulações de propostas, trocas de experiências e a articulação de ações eficazes em garantir o direito à alimentação adequada para população negra fortalecendo assim seu crescimento em nível local, nacional e internacional. A Rede visa a intervenção em espaços de poder e decisão, como também na análise, avaliação e monitoramento dos efeitos das políticas públicas de SAN para a população negra e que as intervenções garantam vinculação à terra e ao território e nessa compreensão busca-se visibilizar as experiências das diversas regiões brasileiras e experiências internacionais  e, principalmente, atuando no enfrentamento ao racismo institucional que impede a garantia de direitos da população negra.

As estratégias da RedeSSAN, a gente vem observando que para viabilizar ações da RedeSSAN é necessário que tenhamos muito presente e muito ativo algumas estratégias. Uma delas é a importância de incentivar intercâmbios e a interajuda entre as entidades da sociedade civil, isso é, a gente vem atuando contundentemente a importância de que a gente ter essas relações com organizações da sociedade civil comprometidas com SAN. Outra coisa também é a análise, o incentivo e promoção de campanhas de prevenção e de apoio e educação no que se refere a SAN das populações vulneráveis, principalmente das populações negras. Outra estratégia é a orientação, acompanhamento e denúncia de qualquer tipo de violação das leis vigentes que prejudiquem o direito humano à alimentação adequada. É importante também as intervenções na legislação pertinente no sentido de conquistar e assegurar novos direitos e/ou alterar dispositivos contrários ou prejudiciais aos direitos humanos à alimentação. A participação e intervenção nos processos de formulação de políticas públicas de SAN para que sejam definidas políticas de enfrentamento às ações de monitoramento da insegurança alimentar. 

Também vemos como importante, o incentivo à participação das integrantes da RedeSSAN em instâncias municipais, estaduais, nacionais e internacionais, é importante essas representações a fim de fortalecer o papel político social da RedeSSAN no desenvolvimento de ações de controle social. Ter atuação forte no controle social e também é nossa preocupação quanto a relacionar dados e indicadores de SAN, estabelecendo assim nexo entre as discriminações de gênero, então essa relação de dados, não só para produzir indicadores mas também observar e contestar aquilo que é publicado. E dar publicidade às informações não só produzidas pela RedeSSAN mas também, as que são publicadas e que não contemplem a população negra, especialmente as mulheres negras. É importante também a gente fazer um relacionamento entre estudos, pesquisas e assessorias para que resultem na contribuição de elaboração de políticas públicas que modificam a iniquidade de gênero e raça. Isso atualmente a gente vem fazendo principalmente com as prefeituras e também análise e avaliação e monitoramento das políticas públicas compensatórias feitas ainda, não em nível nacional, mas em alguns estados e prefeituras, principalmente no que diz respeito às mulheres negras.                          

Em 2019 o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA foi extinto pelo atual governo federal. Quais as consequências de falta desta instância para o cenário de SAN na população negra? 

Com a extinção do CONSEA Nacional e com isso ficamos sem políticas públicas em nível nacional fica evidente que os impactos estão sendo imensos. E mais contundentes para as mulheres negras. O nível de fome, de falta de perspectiva, não ter a garantia do direito humano à alimentação adequada se reflete muito no quadro das mulheres negras, da população negra no geral. Voltamos para o mapa da fome e isso atinge de uma forma contundente as mulheres negras, atualmente, existe um projeto a nível nacional que define quem vai viver e quem vai morrer e nessa pauta de quem vai morrer estamos nós, as mulheres negras. Neste momento nós temos um grande desafio que é estar fazendo o possível para estar em observatórios de direito e justiça, fazer as denúncias, isso cabe às organizações da sociedade civil. De que forma podemos viabilizar isso? Estando relacionados, estando em parceria com outras organizações que trabalhem também, não só organizações negras, mas organizações não negras, organizações de mulheres, organizações que trabalham com direitos humanos para que a gente fortaleça as dimensões raciais e os movimentos sociais para que as mulheres negras principalmente estejam mais seguras para poder garantir a defesa porque neste momento a partir, não só da pandemia, mas no momento que nós entramos na atual gestão [federal] foi deflagrado uma grande insegurança, especialmente insegurança alimentar. Devemos estar fortalecendo os nossos laços para que possamos minimizar, provavelmente não atingiremos a todas, mas tentar minimizar o máximo possível, que esta catástrofe que é a fome, falta de emprego, a insegurança alimentar atinja de forma mais pesada a população negra.             

O que você diria para mulheres mais novas que desejam trilhar um caminho semelhante ao seu?

Para as mulheres mais jovens, na verdade, cada um trilha seu próprio caminho. Cada uma de nós fazemos nosso próprio caminho, evidente que a gente tem referências, assim como nós temos Lélia Gonzalez disse “nossos passos vêm de longe”, então são várias que nós lemos e utilizamos as suas experiências para construir os nossos próprios caminhos. Isso é evidente que acontece com as jovens em função daquilo que elas já ouviram muito em relação às mais velhas vem dizendo então as mais jovens estão empoderadas e construindo o seu protagonismo. É importante, é muito importante dar continuidade a essa luta e eu acredito e vivencio que as jovens estão cada vez mais fazendo este papel de dar continuidade a luta naquele formato que é de jovens com as suas experiências de forma firme e principalmente as jovens vem humanizando essa luta, são as jovens também que elas recebem essas experiências nossas, das mais velhas, mas elas também nos ensinam muito e principalmente elas estão aí para nos mostrar a continuidade da luta e muito seguras do bem viver, estão exercitando muito essa máxima que é o bem viver. Então as jovens, principalmente as jovens negras estão nesse caminho, no caminho de luta pela forma de trabalhar em conjunto e principalmente pelo bem viver.

Em panelão de existência | Entrevista com Maria Conceição | Matriarcas #8M

Não trabalhe para os outros | Entrevista com Maria Nelys Veloso | Matriarcas #8M

Entrevista realizada por Kellen Vieira

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, queremos evidenciar histórias de mulheres negras que, ao longo da sua trajetória, lutam pela mitigação das iniquidades adensadas sob o cotidiano da população negra no país. Conversamos com Maria Nely Velozo, mulher negra que veio para Brasília na década de 70 construir sua própria história.

Maria Nelys Carvalho Veloso é uma mulher negra, mãe de três filhos: Cassandra, Leandro e Beatriz. Cozinheira de profissão, já cozinhou para diversos políticos, incluindo o presidente Lula. Atualmente é artesã  e empresária da Abayomi Artefatos.

Conte-me um pouco sobre você. Quantos anos você tem? Onde você nasceu? Onde você mora atualmente? Quais seus projetos atuais?

Eu me chamo Maria Nelys Carvalho Veloso, eu nasci no Maranhão e eu tenho 62 anos e vim para Brasília com 14 anos. Cheguei aqui e vim pra trabalhar na casa de uma pessoa. Daí eu trabalhei, mas eu nunca gostei de trabalhar pros outros, mas mesmo assim eu continuei. Quando eu saí desse lugar, eu fui trabalhar num hotel como camareira e nesse meio tempo eu falei assim: “não eu não nasci para lavar banheiro” porque hoje em dia é muito difícil uma família negra ser de boa situação, sempre foi, mas eu nasci em uma família muito bem situada, meus pais tinham muito recurso. 

Infelizmente não deu certo porque minha mãe separou do meu pai e eu tive que vir pra cá. Tá, e aí eu cheguei aqui [Brasília], mas eu nunca me conformei assim, porque tem pessoa que se conforma com qualquer coisa, eu não! Fui trabalhar nesse hotel como camareira, mas ai eu falei: “não, eu não vou ficar lavando banheiro a vida toda.” Ai, no meio tempo, eu era camareira à noite, e no dia eu fazia faxina nas casas para poder complementar o salário.

Eu já tinha meus filhos e eu tinha que manter. E eu fui e fiz um curso de telefonista nesse meio tempo. Eu trabalhava de manhã na casa das pessoas, quando dava meio dia eu entrava no curso, e saía às três e meia. Fiz o curso de telefonista. Quando terminei, fui estagiária num hotel. Apart hotel. 

E aí eu consegui meu primeiro emprego como telefonista, e depois eu consegui passar num outro hotel, e mais um intermediário. E eu tinha três empregos de telefonista. Eu trabalhava de seis da tarde à meia noite em um, e de meia noite às seis da manhã em outro. E de duas horas fazia um intermediário até às seis da tarde. E trabalhei nesse lugar por 15 anos. E, sem ter ninguém para ficar em casa com as crianças e tal, eu falei assim: “não, eu vou começar a pedir conta”. Pedi conta de dois hotéis e fiquei onde eu tava mais tempo e fui trabalhar com comida. 

Sem fazer curso – nunca fiz curso nenhum em culinária – mas só em ver assim, na televisão, eu fui fazer congelados. Mas eu tinha tanta encomenda que eu não dava nem conta. E de lá pra cá foi assim. Daí comecei a fazer comida. Comecei a fazer jantares.

Meu meio era mais o meio político, né? Trabalhei sempre para político. Tanto trabalhava aqui, quanto em São Paulo. E ia daqui para São Paulo fazer ceia de Natal, fazer aniversário, sabe? Daí eu vinha, até que aconteceu de eu ter o AVC, né?

E quando eu tive o AVC, eu tava em São Paulo, trabalhando. Daí voltei de cadeira de rodas e aí fiquei nessa. Mas aí, sempre assim, porque eu fiquei paralisada. Né? Eu fiquei de cadeira de rodas, mas eu me incomodava tanto com isso, que aí eu comecei.

Eu sempre gostei de artesanato também. Eu comecei a costurar com alicate. Enfiava a agulha e puxava com alicate e fazia as coisinhas assim: devagarzinho.

E fazendo terapia. E lutando pra mim não me entregar, né? Porque, quando a gente tem AVC, se você não tiver uma cabeça bem boa, você se entrega e você morre.

É tanto, que o médico falou que ia passar um calmante pra mim tomar, e eu falei que não, que não queria, que meu calmante era o artesanato. E comecei a fazer sabão, e daí veio… Comecei a costurar e, foi indo, foi indo, e eu me tornei uma artesã. Mesmo costurando, o meu lado que funciona é o esquerdo, e essa mão aqui (mostra a mão direita) só complementa, né? Mas minha vida é essa e eu não me entrego!

Tudo bem, a gente fica triste, né? Como agora. Eu, esse tempo todinho, 40 anos, a gente sempre tem morado com todo mundo. Meus filhos, dia de domingo, era maior coisa pra mim fazer almoço, jantar, essas coisas. E agora me sinto sozinha, e é difícil. Mas é isso. Bola para frente! A gente tem que pensar que amanhã é outro dia.

E atualmente meu projeto é a Abayomi. No entanto, pra mim está sendo muito difícil, por que pra mim, se tivesse uma pessoa para manusear a Abayomi… Eu não sei entrar na internet, fazer venda e postar. Então, fica difícil pra mim.

Mas pra mim, meu projeto é a Abayomi. Minha costura, né? Que eu gosto muito. É uma coisa que não me deixa ficar pensando. Sento aqui pra fazer minhas coisas, meu pensamento vai longe, né? E eu não fico pensando na tristeza. E eu não gosto de tristeza.

Como você chegou até o ramo da alimentação?

Eu sempre gostei de cozinhar. É gosto meu mesmo. Quando eu cheguei aqui, eu fui trabalhar numa casa, e eu não sabia. Que eu cheguei em Brasília, mas eu era de uma família bem sucedida, né? Então, minha mãe nunca chegou em mim e falou: “vem cá aprender a fazer um arroz”. Eu aprendi de curiosidade. Mas aí, quando eu cheguei aqui, eu vi que eu tinha que fazer.

A primeira receita que eu fiz foi um bife à milanesa, que minha colega escreveu a receita num papel de pão, porque eu perguntei a ela como fazia. E eu sempre gostei, assim, eu não sabia como fazer, mas eu sabia o que era bom. Ai eu fiz, e essa moça gostou muito. E, às vezes, eu queria fazer um lanche, e eu não sabia muita coisa. E aí eu ia na padaria e comprava a massa de pão lá na 309 sul. Na 109 eu ia na comercial. E a padaria vendia para a gente a porção de massa pronta. 

Ai ele me vendia aquela massa pronta. Daí, na parte da tarde, eu fazia pizza, um pão recheado e o pessoal falava: “nossa”! Mas ninguém nunca me ensinou. Eu que ia. Eu nunca fiz curso de culinária. Nunca, nunca, nunca. No entanto, eu me tornei uma banqueteira. Saía daqui pra fazer almoço em São Paulo.

Fazia aniversário, ceia de natal. Eu saía daqui no dia 23, e chegava lá no dia 24, só para fazer a ceia de natal, e dia 25 eu vinha embora. Minha vida era essa. Uma correria. Eu fazia congelados também. No meio político, eu já cozinhei até pra presidente!

Eu nunca fiz curso. Eu sempre fui autodidata em tudo que eu ia fazer. E assim, como o artesanato, ninguém me ensinou. Eu sempre fiz tudo sozinha. Eu vejo uma coisa, eu vou lá e faço!

Quando eu era pequena, a minha professora de inglês morava em frente de mim. Tinha dia que eu sentava com meu livro de inglês e traduzia um monte de coisa, e ela falava: “nossa, mas quem te ensinou?” e eu falava: “ninguém”. Eu sempre fui assim, eu pegava uma coisa e eu aprendo sozinha. 

Conte-nos um pouco sobre seu trabalho, o que é esse desenvolvimento de alimentar outras pessoas e o que isso proporcionou a sua vida.

Muita coisa. Porque, eu trabalhando com culinária, a gente conseguiu comprar muitas coisas. Hoje eu não tenho. Mas eu já tive casa, apartamento, terreno, aí fui assim. O último terreno que nós compramos, que veio da culinária, foi o terreno do Lago Sul que a gente tinha. Mas assim, às vezes a gente faz as coisas sem pensar. Quando você não tem uma orientação de ninguém, você pensa que tá fazendo o certo, e quando a Cassandra tava na faculdade, e a gente ficou sem. O trabalho tava fraco, atrasou as parcelas, daí a gente vendeu lá para pagar as dívidas e ficamos sem o terreno. Até hoje ela fala disso.

Mas a culinária já me proporcionou muita coisa. E eu sempre gostei e gosto muito. Só que agora eu não posso fazer, porque estou nesse estado. Trabalhar, como eu trabalhava antes, que eu tinha que fazer, mexer com garçom, ajudante, e agora não dá mais. E era tudo na minha conta. A pessoa contratava o jantar, eu fazia orçamento tudo na minha conta. Desde o garçom, louça, tudo! 

Como você enxerga a importância do acesso à alimentação e se há relação disso com o racismo?

Eu sempre fui assim: desde que meus filhos são pequenos, a alimentação é muito importante. Desde a primeira, eu sempre fui exigente com isso. Pode perguntar a eles. Eu saia pra trabalhar, eu deixava ali toda a comida pronta: o feijão, a verdura, o suco. Sempre fui assim. E eu nunca gostei de coisa química. Eu sempre gostei de fazer o suco, entendeu? Eu sempre fui assim.

A alimentação da manhã e da noite, pra mim, são as mais importantes que existem e, a pessoa é o que come. Seu corpo responde a esse alimento, né? E eu sempre fui assim. E até mesmo pra fazer compras, seja aqui pra casa, ou para trabalho, eu sempre gostei do melhor. Eu não gosto de tapear e pensar assim: “ já que é pra você trabalhar”, não. Eu prefiro fazer o pior pra mim e o melhor pra trabalhar. 

Eu sempre gostei de coisa orgânica, sabe? Nunca gostei de muita química. Nunca gostei de remédio. E eu só tomo remédio agora, porque é o jeito. Mas eu nunca gostei.

Tem quatro anos que eu tive AVC. Antes disso, eu nunca tive em médico assim. Fui no médico só por causa de uma dor nos rins que eu tive da época que fui telefonista Mas assim, adoecer, viver no médico internada, nunca! Nem eu nem minhas crianças. Aqui de casa, nunca foi assim doentinho. Por que? Alimentação mais saudável. E eu sempre fui assim. E você sabe que o produto que tem agrotóxico ele não é saudável? Por isso é melhor o orgânico que é mais saudável.

Que mensagem você deixa para as mulheres mais novas que desejam trilhar caminhos semelhantes aos teus? 

Eu sempre pensei assim: quando eu comecei a trabalhar, eu, até porque a gente que é negro é mais difícil… Mais difícil não. É difícil. Então, eu, quando eu tava trabalhando num hotel, e eu sempre fui assim, quando eu to numa coisa, eu sou muito dedicada. E quando eu trabalhava como camareira, então veio um pessoal de São Paulo fazer aquelas coisas. Eles pegam o hotel pra mudar ele. Já viu, né? Tem até aqueles programas de TV que a gente vê que eles mudam o hotel todo pro hotel ter o orçamento melhor. Então, esses dois rapazes, depois que eles fizeram esse negócio lá, eles me indicaram como governanta, por que eu era muito eficiente. E, assim, tudo que eles precisavam, na hora eu já alcançava pra eles. E assim e dei tudo que eles precisavam. Eu tava ali pra servir em todo hotel. 

Como até hoje eu sei. Pra montar um hotel, eu sei de tudo. E aí eles me indicaram pra governanta e eu não fiquei sabendo. Eu soube disso depois. Mas disseram que não, porque, acho que isso foi nos anos 90, porque eu era negra. E eu não sabia e, tá, e aí passou, e outra vez eu fui fazer entrevista em um lugar, e eu não passei por que era negra. Porque a governanta vai no hotel e cuida desde cima até embaixo, da recepção até o último andar. E então, a governanta tem que tá na recepção. Então eu não podia, eles não deixavam por isso. Então, quando eu soube disso, eu comecei: “um dia eu vou trabalhar pra mim”.

Então eu acho assim; que a mulher, e acho que todas as pessoas que querem ganhar dinheiro, trabalha pra si. Porque, você trabalha pros outros, você enrica os outros e não você, e seu trabalho não é reconhecido. Principalmente, quando você é negro, não é reconhecido, né? Então, eu, o que eu deixo é isso: se você puder aprender, aprenda, pra poder trabalhar pra você. Aí, sim, você vai ganhar dinheiro e ser uma pessoa bem sucedida. Agora? Trabalhar pros outros? Não. Eu não sou de acordo com trabalhar pros outros. 

Em panelão de existência | Entrevista com Maria Conceição | Matriarcas #8M

Diáspora Quilombola e vivências circulares | Entrevista com Maria Malcher | Matriarcas #8M

Entrevista realizada por Kellen Vieira

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, queremos evidenciar histórias de mulheres negras que, ao longo da sua trajetória, lutam pela mitigação das iniquidades adensadas sob o cotidiano da população negra no país. Conversamos com Maria Malcher, mulher nortista que contribui no fortalecimento dos processos de transição agroecológica em territórios quilombolas no estado do Pará. 

Maria é professora de Geografia no IFPA, coordenadora do Grupo de Pesquisas Dinâmicas e Relações espaciais e raciais, militante do Centro de Estudos e Defesa do Negro de Pará – CEDENPA. 

Você pode se se apresentar e contar sobre seu trabalho para gente?

Eu sou Maria Malcher, sou ativista do Centro de Estudos e Defesa do Negro de Pará CEDENPA e professora do Instituto Federal do Pará IFPA. Eu sou geógrafa e coordeno um Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas – NEABI – mas antes disso eu atuei na organização de associações de comunidades quilombolas, a Malunga, e daí eu comecei a trabalhar com os quilombolas nessa perspectiva da terra, territórios e territorialidade. Depois veio o processo mobilizatório da marcha das mulheres negras e, como eu estava nesse trabalho com os quilombolas, começamos a atuar com as mulheres quilombolas.

Eu sou do município de São Miguel do Guamá, onde existem muitas comunidades negras rurais como a minha família. Eu mesma já nasci na cidade, mas sempre com aquele cotidiano de ir fazer a farinha no interior. A gente tinha esse hábito de fazer a roça no interior. Essa comunidade foi mapeada como uma comunidade quilombola que é a comunidade de Santa Rita das Barreiras e atualmente essa é uma das comunidades titulada pelo Instituto de Terras do Pará ITERPA como comunidade quilombola. 

Então, eu sou da diáspora quilombola. A gente ainda não está refletindo essa diáspora quilombola. A gente tá mais preocupada com a legalização dos territórios e as pessoas que ainda estão lá, nesse sentido, porque a gente avalia que os desafios são maiores, tanto na questão da produção, quanto de acessos a vários direitos.

Então, a minha trajetória é essa de uma pessoa da diáspora quilombola. Talvez, quando a gente superar algumas questões, vai ter um grupo mais fortalecido que reflita essa questão da diáspora. É bom refletir sobre isso porque algumas pessoas vão voltar, mas outras não, e vão ter essa relação diaspórica elencando com a questão africana e com os valores da circularidade. É aquela coisa, eu saio do quilombo, mas o quilombo não sai de mim!

Como é a Luta por acesso a alimentação num território tão biodiverso como a Amazônia? 

Eu acredito que a luta pelo acesso à alimentação perpassa pela luta pela segurança alimentar e nutricional. Porque, muitas das nossas comunidades têm o território, mas a técnica de manejo do solo ela sempre foi e cada vez mais, devido às mudanças climáticas e aos impactos ambientais, ela tem se acirrado nas comunidades e a gente tem que se reconstruir, ainda mais nesse contexto de pandemia e trabalhar em redes.

Algumas vezes, para nós, a terra não é o problema; mas sim, como trabalhar com ela nessa perspectiva da segurança de uma produção que tenha diversidade no sentido da diversificação. Uma produção que fortaleça economicamente a comunidade e os grupos locais dessa comunidade nesse sentido. Então, o desafio é esse: porque o trabalho não é individual, é coletivo, e o coletivo exige um esforço maior.

Eu acredito que passar por um processo de fortalecimento das organizações e redes que trabalham com a alimentação orgânica e a acessibilidade e o subsídio das sementes. Outra questão, é o processo de transição agroecológica na comunidade. As comunidades passarem por esse processo de transição agroecológica, tentando perceber essa questão dos impactos. O que impacta diretamente.

Ano passado, a produção era mais intensa nesse sentido e, agora, você tem outros fatores externos que fazem com que a produção seja escassa. Aí vem desde mudanças climáticas, o cotidiano de quem produz nas comunidades.

Quais os principais desafios e conquistas em relação à alimentação nos últimos anos?

Aqui a gente vem de uma trajetória do povo que vem para a cidade para estudar e, no geral, a gente não volta. Estuda, arruma emprego e consegue se verticalizar na educação, porque muitas de nós não consegue e pára no meio do caminho. E eu acho que o meu papel nesse processo é como uma mediadora política, contribuindo com esses grupos, seja na forma de orientação, formação, para que a gente crie conjuntamente estratégias para quem tá morando aqui na cidade e quem continua no espaço agrário. Não só essa empatia, mas essa articulação, mesmo que tímida, diante do agronegócio aqui na Amazônia, é muito importante.

Então, a mediação política, ela vai desde lutar pela escola, ou lutar pela permanência da escola na comunidade, até criar um mecanismo de promoção da igualdade racial e fortalecimento de grupos e mulheres locais.

E são milhares de questões que a gente abarca, a partir dessa pauta da segurança alimentar e nutricional, que a gente acaba trazendo algo que a gente avalia como mais importante nas comunidades, até para amenizar conflitos. É a mesma efetivação da regularização fundiária nos territórios quilombolas.

Como sua trajetória impactou o desenvolvimento de conquistas sociais na sua região? O que você diria para a Maria de 20 anos?

Tem muitos impactos. Eu sou próxima de uma comunidade quilombola. Então, essa questão da diáspora de morar numa cidade pequena e depois morar na região metropolitana e, conhecendo a comunidade desde criança, a gente percebe o impacto que a política territorial quilombola causou naquela comunidade. Então, algumas questões que eles conseguiram: era uma comunidade que estava fadada a trabalhar somente com o foco da exploração mineral da argila para fazer tijolo, e aí, como uma política direcionada com um plano de uso, você tem famílias que trabalham a diversificação, trabalham a trituração da terra e também a preservação ambiental e da diversificação da sua produção. Não aderindo apenas à monocultura da mandioca, comum na região. Daí tem uma diversidade de frutas e verduras. É verdade que no campo, com o aliciamento do agronegócio, as famílias tendem a produzir o que tá se vendendo no mercado, o que o mercado está demandando. Mas daí, você tem famílias tradicionais que fogem à regra e fazem opção pela diversificação e melhoramento dos produtos. Como o melhoramento da macaxeira, transformando em macaxeira chip. 

Aqui temos uma rede, que é a rede bragantina de economia solidária, que está associada ao CEDENPA, que visa estimular essa questão da produção diversificada e do produto. Do tucupi que vira farinha. e isso só foi possível por conta da mobilização de sujeitos para essa questão. 

É evidente que as comunidades sempre resistiram nesse sentido. Mas aí, você tem aquilo que a gente busca, que é a auto estima coletiva da comunidade e a afirmação, enquanto o território da negritude. E tem essa questão das comunidades de roça e comunidades que fazem o manejo da floresta, a exemplo de comunidades do baixo tocantis.

Então, são muitas experiências exitosas que fazem a gente insistir nesse caminho, como o olhar para a cultura alimentar, que muita coisa a gente perdeu, e a gente tem que voltar e conversar com nossas avós, nossas tias e perguntar: “olha, como vocês comiam essa araruta?” Então, é a reeducação mesmo, alimentar, e de todos os aspectos, nesse sentido.

Eu não fazia ideia de que teria esse retorno. Quando eu comecei esse trabalho, eu não sabia que teria esse retorno para a população, de entrar no movimento, de tentar ser uma mediadora política. E a gente vai adquirindo essa certeza ao longo do tempo. Então, não sei se eu faria diferente.

Eu me gosto mais agora, do que com 20 anos. Do trabalho que eu faço. Quando eu tinha 20 anos, eu queria aquele corre de estudar teatro e ter uma vida urbana. Daí, quando eu faço a opção por estudar geografia, minha vida muda e eu quero passar os finais de semana na comunidade e agora não pode mais por conta do corona, né? Então, quando eu tinha 20 anos, eu não tinha a dimensão de que teria esse retorno. Até porque, o movimento quilombola era muito recente na minha vida.

Qual a principal característica da luta de mulheres na região amazônica?

Eu acredito que é muito forte para gente. É pertencimento ao território. A nossa luta, tanto de mulheres negras, quanto indígenas, ou negras-indígenas, ainda é o pertencimento ao território, muito ligado ao modo de vida. O modo de vida, para a gente, é uma especificidade, porque para alguns, mesmo os que moram na Amazônia urbana, o modo de vida é o modo de viver, é um estilo. No urbano, é o estilo.

Mas no nosso caso, a nossa luta perpassa o pertencimento ao território e ao modo de vida que convive com a floresta e que não tem inquietude com as relações das florestas e rios. Por exemplo, quando eu reflito: “o que seria o autocuidado e o cuidado coletivo?” No modo de vida urbano, talvez uma terapia, fazer um pilates. Mas o que nos linkaria de um modo geral, seria o retorno às ervas, ter um giral, conversar com os mais velhos.

Evidente que isso se torna cada dia mais um desafio. E essa questão também é essa relação com as sociedades indígenas. Porque, para a gente, é muito tranquilo se perceber negra e indigena. Tem sido uma proposta da rede bragantina, e eu tenho me aproximado da metodologia da rede, e tenho feito esse exercício. A Nazaré Reis e também a Tatiana, que estão no núcleo puxirum, e é a metodologia de aproximação, de conhecer o território e saber os desafios ali presentes, e todas as mulheres da rede ou que estão próximas à rede.

Por exemplo, recentemente nós fizemos a ajuda humanitária, e elas fizeram uma oficina de sabonete nessa pegada: sabonete de aroeira. Evidente que isso já tá no mercado e a indústria farmacêutica já até patenteou vários produtos, mas essa troca de você fazer o seu produto e tentar comercializar a um preço justo, e tentar que nessa comercialização tenha um subsídio para que você alimente sua família, é um exercício muito massa. E agora, vendendo esses produtos que traz a troca, e também trazer as práticas de que elas já faziam antes.

Ainda é preciso novas mulheres na luta pelo direito humano à alimentação adequada? O que você diria para as mulheres que estão por vir?

Eu acho que os coletivos das mulheres mais novas estão mais sensíveis. Vocês buscam as redes, vocês compram produtos, vocês acham massa e colocam nas redes sociais e divulgam. Vocês têm trabalhos muito massa que contribuem para que a sociedade se sensibilize. Não só isso, mas crie empatia e crie novos hábitos, incluindo a periferia.

Por que, o nosso objetivo é que nossos produtos cheguem na periferia. Que, na periferia, você também aumente a imunidade da periferia para que não coma só um (esquiro?) ou, se vc vai comer uma farofa, mas você coloca uma mistura na farofa para aumentar a imunidade, tomar um chá.

As mais novas já trazem essa pegada e, muitas mulheres que trabalham e têm filhos, se distanciaram dessa prática do cuidado a partir da cultura alimentar. Às vezes o corre-corre do dia-a-dia faz você fazer um arroz com mortadela ao invés da sopa. E as mais novas vêm com uma cultura alimentar mais saudável. Agora, eu acharia legal, se houvesse uma intensificação do intercâmbio entre quem produz e quem consome.

Como ajudar pessoas em situação de rua em tempos de covid-19? | Vamos nos cuidar sem pânico?

Como ajudar pessoas em situação de rua em tempos de covid-19? | Vamos nos cuidar sem pânico?

Por: Bruna de Oliveira*

Na foto, viaduto Otávio Rocha | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Quem não tem casa se isola onde? Você já parou para pensar nas pessoas em situação de rua no meio da pandemia que está acontecendo?

Em Porto Alegre, cerca de 4.000 pessoas vivem em situação de rua. Eles e elas precisam ser cuidados pelo Estado, via políticas públicas de assistência e saúde, mas também pela solidariedade e os princípios cooperativos que nos movem enquanto sociedade civil. Em tempos de pandemia, essas pessoas estão em um dos grupos de risco em relação ao novo Coronavírus (Covid-19).

Preocupado com a saúde física e mental dessa população o Grupo Suprapartidário para Combate da Pandemia do Covid-19 junto a População de Rua de Porto Alegre reuniu-se na última quinta-feira (19) e organizou uma série de orientações para quem quiser ajudar. A nutricionista social Ana Mattos, que colabora com o grupo, explica que essa iniciativa “envolve tanto o Poder Público quanto a sociedade civil num esforço solidário e responsável.”

Entre as ações encaminhadas, foram estabelecidos três pontos de coleta de doações que podem ser realizadas por tele-entrega. As doações são recebidas, higienizadas e distribuídas por equipes de saúde qualificadas para estas atividades. “A população de rua é um grupo de risco, então não levem o vírus até eles. Tem uma corrente de pessoas querendo ir ajudar, mas a ajuda deve ser dada a distância. Não procurem o pessoal, pois eles também estão sendo encaminhados para isolamento”, recomenda Ana que também é pesquisadora e defensora dos direitos para pessoas em situação de rua.

O que e como doar:

Água potável, sabão ou sabonetes, bombonas de água vazias, álcool gel, máscaras faciais, luvas, lenços umedecidos, toalhas de papel, atilhos, sucos ou bebidas em embalagens individuais e alimentos não perecíveis estão sendo recebidos nos pontos de coleta que funciona de segunda a sexta, das 9h às 15h.

Confira os endereços dos lugares de coleta:

Escola de Porto Alegre – EPA
Rua Washington Luiz, 203 – Centro Histórico

OSC Misturaí
Rua Luiz Manoel, 229 – Vila Planetário

AMURT-AMURTEL
Juca Batista, 6841 – Ponta Grossa

Albergues e Restaurantes Comunitários são outras estratégias de acolhimento e cuidado. Além dos pontos de coleta, Porto Alegre possui um abrigo temporário a partir desde a última segunda-feira, dia 23, para acolher pessoas em situação de rua durante a pandemia do Coronavírus. O prédio será o da Organização Irmandade Nossa Senhora dos Navegantes, na zona norte da capital. O acolhimento oferecerá cuidados de higiene, alimentação e estadia, sempre a partir das 19h.

O espaço, localizado na Rua Praça Navegantes, 41, possui três andares, quartos coletivos arejados e refeitório. “O objetivo é garantir o isolamento da população em situação de rua. Nossas equipes estão preparando o espaço para receber as pessoas a partir do início da semana”, explicou a presidente da Fasc, Vera Ponzio em matéria publicada no site da prefeitura.

Rede de Serviços (atendimento das 19h às 7h):

Albergue Acolher 1
Endereço: Rua João Simplício nº 38, Vila Jardim
Telefone: 3737.2279

Albergue Acolher 2
Endereço: Rua 7 de Abril, n º 315, bairro Floresta
Telefone: 3737.2118

Albergue Dias da Cruz
Endereço: Avenida Azenha, 366 – Bairro Azenha
Telefone: 3223.1938

Prato Alegre | Restaurante Comunitários:

Atualmente existem dois restaurantes comunitários na cidade que compõem o programa Prato Alegre. Estes equipamentos sociais atendem pessoas em situação de rua, idosos vulneráveis e famílias em pobreza e extrema pobreza. As refeições são subsidiadas integralmente pela prefeitura de Porto Alegre e o requisito para acessar os restaurantes é o Cadastro Único do Sistema Único de Assistência Social – SUAS. Em conversa telefônica com a nutricionista da Unidade de Segurança Alimentar e Nutrição Sustentável – USANS, Vanusa, em função da pandemia, os restaurantes estão abertos para toda a população em situação de vulnerabilidade socioeconômica e/ou em situação de rua.

“Servimos 300 refeições no restaurante do Centro e 150 refeições no restaurante da Cruzeiro. Houve um aumento significativo da procura por alimentação pela pandemia.” declara a nutricionista que também informa sobre as ações de prevenção que estão sendo tomadas: filas com distanciamento entre os comensais para entrada no refeitório com, no máximo, 4 pessoas sentadas por mesa. Pessoas que possuem domicílio estão recebendo marmitas para serem consumidas em casa e não gerar aglomeração nos espaços.

Os restaurantes dos bairros Centro e Cruzeiro começam suas operações a partir das 11h30min até atingir o número máximo de refeições preparadas.

Endereços dos restaurantes:

CENTRO – Rua Garibaldi, 461.
CRUZEIRO – Rua Dona Otília, 210.

Você pode entrar em contato com esses espaços para receber mais informações sobre como contribuir com doações. Lembrando que Porto Alegre está há oito dias publicando diferentes decretos que regulamentam a ampliação do distanciamento social para frear o contágio da doença e salvar vidas.

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*A sistematização dessas informações foi realizada por Bruna de Oliveira, nutricionista, comunicadora popular e sócia-fundadora da Crioula | Curadoria Alimentar. “Vamos nos cuidar sem pânico!” é uma série de reportagens com informações que nos nutram a criar dinâmicas sociais de solidariedade e cooperação durante (e após) a pandemia do Covid-19.

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