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Café: uma volta ao mundo

Café: uma volta ao mundo

Existem hábitos, tão incorporados ao nosso dia, à nossa vida, que raramente questionamos como começaram ou por quê os fazemos. Visto tanto como alimento quanto hábito, o café é um dos itens mais presentes no cotidiano da maioria das pessoas.

Com exceção da água, o café é a bebida mais consumida no mundo inteiro (1). Logo, o hábito de tomar café todos os dias extrapola as fronteiras brasileiras e se torna, praticamente, um hábito mundial.

Para entender o papel que essa bebida tem na nossa vida e no mundo, fizemos uma linha do tempo para entender o contexto histórico desta que é bebida, planta, ritual e símbolo social carregado de história, cultura, problemas, dinheiro e popularidade.

Da África ao Brasil

Não existe um registro que confirme quando ou quem descobriu o café. No entanto, a maioria dos pesquisadores concordam que o café é originário da região que hoje chamamos de Etiópia, na África (2). Existem diferentes histórias e versões sobre como o café foi descoberto, uma das mais conhecidas é a do pastor que, ao levar seu rebanho para pastar, notou que as ovelhas que comiam um fruto vermelho ficavam mais agitadas e não demonstravam cansaço. Ele, por sua vez, ao provar o fruto se sentiu revigorado e cheio de energia (3). Então ele levou os grãos para um monge, que ficou curioso e resolveu preparar uma infusão com as folhas e frutos.

Caso você queira saber mais sobre as histórias de origem do café e suas versões, de forma resumida, confira o vídeo produzido pela revista Exame:

Há registros de que o consumo do café, como fruto, começou por volta de 575 d.C., coincidindo com o período das lendas. Inclusive, a Etiópia ainda é hoje uma região produtora de café, conhecida por realizar uma elaborada cerimônia do café, que envolve café torrado e moído na hora manualmente, e braseiros de carvão para aquecer os utensílios especiais de cerâmica, onde o café será fervido e servido (2). O tempo pode variar, mas há cerimônias que duram até uma hora.

No entanto, seria apenas uma questão de tempo até os frutos do café começarem a ser comercializados e ganharem popularidade em outras regiões. A península arábica, que é separada da Etiópia por um braço do Mar Vermelho, foi o local onde o café, enquanto bebida como conhecemos hoje, começou a ser consumido, mais especificamente no Iêmen (2).

Os árabes da região usavam a palavra qahwa para se referir ao café, sendo a mesma palavra se referiam ao vinho – essa é uma das possíveis origens da palavra café. Em um primeiro momento, a bebida era considerada sagrada e também usada como medicamento; depois, famílias mais abastadas começaram a ter a sua própria sala de café, destinadas a cerimônias; e para aqueles que não dispunham de recursos, começaram a surgir as casas de cafés, chamadas de kaveh kanes. (2)

Os árabes da região usavam a palavra qahwa para se referir ao café, sendo a mesma palavra se referiam ao vinho – essa é uma das possíveis origens da palavra café. Em um primeiro momento, a bebida era considerada sagrada e também usada como medicamento; depois, famílias mais abastadas começaram a ter a sua própria sala de café, destinadas a cerimônias; e para aqueles que não dispunham de recursos, começaram a surgir as casas de cafés, chamadas de kaveh kanes. (2)

No final do século 15, peregrinos mulçumanos já haviam introduzido o café no mundo Islâmico pela Pérsia, Egito, Tuquia e norte da África. Em 1475, foi criada a primeira cafeteria na Turquia, dando ao café um aspecto social3. Em 1570, já haviam mais de 600 só na cidade de Constantinopla – hoje, Istambul – e a popularidade do café só continuava a crescer. (4)

Demoraria alguns anos e longos caminhos até o café chegar na europa e, posteriormente, às Américas. 

Entretanto, foi por volta de 1600 que algumas amostras de grãos/sementes de café foram surrupiadas por um peregrino indiano e levadas ao sul da Índia, nas montanhas de Mysore. Após, em 1616, os holandeses, que dominavam o comércio mundial por navios na época, transportaram uma árvore de café do Iêmen para a Holanda. A partir disso, começaram a plantar café em suas colônias por Timor, Sumatra e Java, sendo os abastecedores de toda a Europa. (5)

Em 1629 começaram a surgir as primeiras cafeterias europeias em Veneza, no entanto seguindo os modelos turcos e árabes (4). Visto que o café tinha origem em países mulçumanos, a igreja católica considerava a bebida pecaminosa, e foi um dos grandes entraves que a Europa teve para popularizar o café.

 Por mais que a disponibilidade do café estivesse em crescimento na Europa, vale lembrar que, nessa época, o café ainda se tratava de um artigo de luxo.

Afinal, as casas de café eram frequentadas, em sua maioria, por intelectuais e membros da alta sociedade (4). E apesar de elitistas, as cafeterias europeias estão diretamente ligadas ao movimento iluminista, que revolucionou as áreas da ciência, artes e filosofia da época, que se tornaram um marco histórico do pensamento humano.(6)

E em 1714, os holandeses tiveram a iniciativa de presentear o rei da França, Luís XIV, com sementes de café – o que acabou se tornando um infortúnio para os holandeses, uma vez que foi assim a planta chegou nas colônias francesas e a França se tornou o principal concorrente comercial da Holanda nas vendas de café. (5)

Mas é em 1727 que o caminho do café chega em um destino, até então, inesperado. Foi por meio de mais plantas de café roubadas, desta vez por um militar luso-brasileiro – Francisco Melo Palheta – com plantas vindas da Guiana Francesa, que o café chegou em solo brasileiro, no Pará. (6, 2)

Do Brasil para o mundo

Ao estudarmos a história do Brasil durante a colonização, aprendemos que os acontecimentos políticos e sociais são fortemente vinculados aos ciclos econômicos. Do século XVI ao XVIII, a grande força econômica do Brasil colônia, assim como diversas outras colônias pelas Américas, foi a produção de açúcar. (7)

Visto que o solo e clima eram propícios para o cultivo de cana-de-açúcar, criou-se uma demanda enorme de mão de obra para as plantações. Na tentativa falha de escravizar os nativos, os europeus deram início ao sequestro em massa de africanos para terras brasileiras. (2) 

Mas o que teria de relação com o café? Quase tudo.

Com as plantações de cana-de-açúcar nas diversas colônias europeias pelas Américas, o açúcar, que antes era uma iguaria destinada à realeza e aristocratas, se tornou popular. E foi este mesmo açúcar que adaptou a bebida amarga do oriente para o paladar europeu. (2)

Apesar do café ter chegado em terras brasileiras em 1727, demoraram alguns anos até o cultivo ser estabelecido como a principal atividade econômica do país. Somente em 1800, dentro do contexto europeu da Revolução Industrial, que a demanda por café aumentou consideravelmente, sendo uma das bebidas mais utilizadas pelos operários das fábricas nas exaustivas jornadas de trabalho.(4, 6)

A produção de café fez a economia brasileira disparar de forma inédita. As plantações ficavam concentradas na região sudeste, principalmente no Vale do Paraíba, entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. (2, 6, 7)

A produção de café fez a economia brasileira disparar de forma inédita. As plantações ficavam concentradas na região sudeste, principalmente no Vale do Paraíba, entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. (2, 6, 7)

Além de estar diretamente ligado a uma imensa devastação ambiental, uma vez que a mata atlântica da região foi destruída para dar lugar às plantações, o café também traz como seu principal legado histórico a intensificação do tráfico de africano e a escravização destes. (6)

O Brasil é o café, e o café é o negro.
Uma frase proferida por um parlamentar brasileiro, em 1880, que dá um bom contexto da mentalidade, economia e sociedade da época. (2, 6)

Além de ser o país que mais recebeu pessoas sequestradas do continente africano, também foi o último país a abolir a escravatura institucionalmente. E a economia cafeicultora foi um dos principais fatores da resistência – chegando a gerar demandas de ressarcimento pelos proprietários de terras, caso a abolição acontecesse. (6)

 

Diferente do que os grandes produtores achavam, a abolição não acabou com a produção de café do Brasil. Os Barões do Café receberam subsídios para trazerem famílias europeias, em sua maioria italianas, para trabalharem nas lavouras de café (6). O ciclo do café só teve seu fim, em 1930, com a Grande Depressão de 29 nos Estados Unidos, que era o principal comprador do Brasil (3). No entanto, até hoje o Brasil é o maior exportador de café do mundo, sendo um dos principais produtores do grão (9).

O café não acabou

Ainda existem muitas perspectivas que eu gostaria de abordar sobre o café. Começar o assunto trazendo essa linha do tempo, nos ajuda a contextualizar, pelo menos um pouco, como esse alimento, tão presente no nosso cotidiano, ajudou a moldar a nossa sociedade-mundo e a nossa sociedade-Brasil.

Uma planta oriunda do continente africano se tornou uma das principais justificativas para a manutenção de um sistema escravocrata que desumanizou pessoas sequestradas deste mesmo continente. O café e o racismo são os frutos da escravização que colhemos até hoje. Ambos com sabor amargo, ambos incorporados ao nosso cotidiano, ambos fomentados pelo sistema capitalista.

O café é a bebida mais consumida do mundo, depois da água. Com essa linha do tempo, temos o “como?”. Em breve, traremos algumas possibilidades do “por quê?”.

As inquietações ao redor do café, no entanto, assim como para diversos outros alimentos tão cotidianos e marcantes em nossos hábitos sociais, não se acabam.

Texto por Betina Aleixo

Caso deseje ler sobre mais alimentos inquietantes e cotidianos, recomendamos o nosso conteúdo especial sobre o chocolate. Leia aqui.

Dinheiro dá em Árvore: Serigueira

Dinheiro dá em Árvore: Serigueira

Por Kellen Vieira

Ao seguir mais ao norte do país existe uma árvore que dá tanto dinheiro que chegou a ser sequestrada para outros locais do mundo para um consumo predatório. Apesar disso, sabemos muito bem onde ficam suas raízes. Através de indígenas e extrativistas , a Hevea brasiliensis, sempre teve importância para a cultura local e é popularmente conhecida como “árvore de borracha”, e não é porque ela é maleável não, mas porque através dela se faz a borracha: Hoje, vamos falar da seringueira.

A seringueira é uma árvore tropical pertencente à floresta Amazônica e possui mais de 11 espécies. De sua seiva se extrai o látex, matéria prima da borracha. Este, por sua vez, já era extraído a muitos anos pelas populações indígenas antes mesmo da invasão da América.

Desde meados do século XIX, a região amazônica foi explorada pelo cultivo de seringueira e extração do látex, sendo esse um grande colaborador do desenvolvimento econômico da região, contribuindo para o desenvolvimento das populações locais. 

O ciclo da borracha no Brasil se encerrou através do roubo das sementes de seringueira, que foram levadas para Londres, dando início às pesquisas com a modificação e adaptação da árvore fora do Brasil. Configurando assim, um dos primeiros e maiores casos de biopirataria do mundo.

Atualmente, existem plantações de seringueira nas regiões dos trópicos e subtrópicos, especialmente no sudeste da Ásia e na África ocidental. No Brasil, a maior parte da produção de látex passou a ser realizada no estado de São Paulo, principalmente no noroeste paulista, na região de São José do Rio Preto. Contudo, isso não diminui nem a produção e nem o impacto econômico e social dos seringueiros nativos da Amazônia.

O Látex

Matéria-prima da borracha e outros materiais, o látex natural nada mais é do que a seiva da seringueira. Tradicionalmente retirada de vincos talhados na casca da árvore. Com o avanço nos estudos sobre este material conseguimos aprimorar diversos processos de beneficiamento para tornar o látex mais resistente.

A vulcanização é um dos exemplos mais conhecidos para aumentar a resistência e durabilidade do látex, uma vez que a borracha de látex natural não suporta altas intempéries sem se degradar. O processo de vulcanização, que implica em adicionar enxofre ao látex, foi descoberto incidentalmente em 1839 por Charles Goodyear, e é o método que permite, por exemplo, a fabricação de borrachas utilizadas nas câmaras de pneus. Este processo ampliou a utilização do Látex na indústria, sendo utilizado desde a produção de calçados até apagadores.

Sustentabilidade

Diferente da borracha sintética, que é produzida a partir do petróleo, a borracha natural é mais resistente, mais elástica e tem alta qualidade. Atualmente, o Brasil conta com mais de 40 mil produtos que utilizam o látex como matéria prima, como: pneus, acessórios, calçados, luvas, seringas, preservativos… enfim a lista é grande.

Outro ponto positivo da utilização da borracha natural é a “pegada ecológica”, uma vez que a produção de CO² na produção de borracha sintética chega a ser equivalente a 17 vezes o volume da produção de CO² da borracha natural.

E quando consideramos o impacto dos seringais na absorção do CO², a poluição na produção da borracha natural chega ser nula. Além disso, a energia utilizada para a produção da borracha natural também é bem menor.

No entanto, apesar da produção, aparentemente, ser amiga da natureza, não podemos deixar de falar sobre a monocultura no cultivo de seringueiras, que utilizam agrotóxicos e demais aditivos químicos poluindo a água e o solo, causando diversos danos ao meio ambiente. Nesse sentido, para considerar uma produção de borracha sustentável, ela precisa estar relacionada ao extrativismo.

Extrativismo, ativismo e História

O processo de exploração do látex e do extrativismo seringueiro está muito além de uma simples produção comercial. Em virtude do contato e vivência na floresta, os seringueiros também assumem o papel de fiscalizar e prevenir desmatamentos: sem floresta não há seringueira.

Um dos precursores e mais falados nomes nessa luta dos seringueiros pela manutenção da floresta é o Chico Mendes – nascido e criado na cultura extrativista, Chico foi uma liderança na organização dos seringueiros na década de 80.

Nesse período, uma prática muito comum era a troca de látex por produtos industrializados, em vez de uma remuneração adequada pelo trabalho, o que causava diversos conflitos e miséria na região. Contra esse abuso, começou a surgir o movimento dos seringueiros, os quais Chico Mendes sempre esteve atuante, até assumir a liderança e ser assassinado de forma brutal, em 1988, a mando de Darly Alves – grileiro de terras com história de violência em vários lugares do Brasil.

A luta de Chico Mendes e dos seringueiros, não era limitada apenas a condições melhores de trabalho ou salário digno, eles também entravam em conflito com aqueles que queriam destruir a floresta, quebrando motosserras e o que mais fosse preciso.

Essa luta não acabou e nem morreu com Chico, o movimento dos seringueiros ainda é vivo e inspira muitas pessoas, como por exemplo a carioca Bia Saldanha, uma das precursoras do “couro vegetal”, um material de origem no látex e que compõe uma alternativa à exploração animal.

Inspirada pelo legado de Chico, a estilista e ambientalista Bia Saldanha decidiu se mudar do Rio de Janeiro para o Acre após o assassinato do ativista, em 1988, e continuar o trabalho iniciado por ele. Bia se uniu aos seringueiros na busca de novas aplicações e alternativas de mercado para a borracha nativa. Começava então o trabalho do “couro vegetal” (como ficou conhecido popularmente na região), um material emborrachado, inspirado no artesanato tradicional que já era desenvolvido por lá, transformado por ela em matéria-prima para a indústria da moda, usado na fabricação de bolsas e acessórios, como uma alternativa ecológica ao couro animal. “É essencial provar que o manejo sustentável através do extrativismo é possível”, diz ela.

Com todo esse contexto histórico, econômico e social, é possível perceber que, a partir de uma única árvore podemos ver riqueza, dinheiro, histórias e lutas. As árvores se conectam diretamente com a terra e de lá tiramos o nosso alimento, sustento, insumos e casas. Elas são essenciais para a sobrevivência enquanto raça humana e de todos os outros seres com os quais dividimos o planeta. Uma árvore não é só uma árvore. 

A seringueira é o dinheiro que dá em árvore mas, para além da simples moeda, ela também é cultura, é tradição, é segurança e soberania alimentar e nutricional de diversas comunidades.

Seringueira é a riqueza que “dá em árvore”, e ela encerra a nossa jornada pelo Brasil em torno das árvores nativas que ajudaram a moldar a nossa economia, história e cultura, e seguem gerando renda com potencial ecológico.

Fontes:

Borracha Brasileira | Seringueira causa danos ao meio ambiente?
http://borrachanatural.agr.br/cms/index.php?option=com_content&task=view&id=573&Itemid=9

Vogue | Látex de seringueiras da Amazônia geram renda para quem vive na floresta
https://vogue.globo.com/moda/noticia/2021/03/dia-da-floresta-latex-de-seringueiras-da-amazonia-geram-renda-para-quem-vive-na-floresta.html

SciELO | Direitos à floresta e ambientalismo: seringueiros e suas lutas
https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/9hyLqvGyMWs9xBy5b8QMvVh/?lang=pt

Memorial Chico Mendes
http://www.memorialchicomendes.org/chico-mendes

IAC | Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais
https://www.iac.sp.gov.br/areasdepesquisa/seringueira/importancia.php

Deutsche Welle (DW) | Borracha natural causa menos impacto ao meio ambiente
https://www.dw.com/pt-br/borracha-natural-causa-menos-impacto-ao-meio-ambiente/a-16279621#:~:text=Mat%C3%A9ria%2Dprima%20extra%C3%ADda%20da%20seringueira,vers%C3%A3o%20sint%C3%A9tica%20derivada%20do%20petr%C3%B3leo.&text=Na%20floresta%20peruana%2C%20como%20mostrou,forma%20de%20aumentar%20sua%20renda

Embrapa | Biotecnologia
https://www.embrapa.br/contando-ciencia/biotecnologia/-/asset_publisher/wNet9XcMlLFn/content/seringueira/1355746?inheritRedirect=false

IstoÉ | O homem que roubou a borracha do Brasil
https://istoe.com.br/154500_O+HOMEM+QUE+ROUBOU+A+BORRACHA+DO+BRASIL/

Ministério da Ciência | Seringueira, a planta que sustentou uma região
https://www.museu-goeldi.br/noticias/seringueira-a-planta-que-sustentou-uma-regiao-1

Prepara Enem | A vulcanização da borracha
https://www.preparaenem.com/quimica/vulcanizacao-borracha.htm

Roda da Moda | Bia Saldanha (parte 1 e 2)
https://www.youtube.com/watch?v=FMsa2kWlfnM
https://www.youtube.com/watch?v=SU8rBrb9zww

Rio Ethical Fashion | Bia Saldanha
https://www.rioethicalfashion.com/biasaldanha

Universo Solo

Universo Solo

Milena Ventre  

Por dezenas de milhares de anos a água e o clima operaram para que rochas fossem decompostas e é deste movimento que surge o solo. Inicialmente o solo era uma estrutura simples, não tendo a capacidade de acumular água e os nutrientes necessários para manter formas de vida. Os primeiros seres vivos a habitar o solo foram os líquens, capazes de recolher água do ambiente e capturar nitrogênio.

Numa dança de milhões de anos, essa interação de líquens + solo permitiu que novas espécies pudessem existir, tal como o surgimento das plantas terrestres e suas micorrizas* (fungos+raízes)*, as quais aumentaram a absorção de nitrogênio e outros nutrientes do solo e rochas.

O solo é 50% sólido, o restante é composto de “vazio” (ar, vapor d’água e pequena quantidade dela em estado líquido). É neste “espaço vazio” que a vida dos microrganismos existe, criando conexões com as plantas e permitindo o movimento de nutrientes.

As plantas e sua capacidade fotossintética, capturando gás carbônico (CO²) disponível na atmosfera por meio de suas folhas e transformando-o em carboidrato, levando diretamente ao solo através de suas raízes, permitindo, assim, que outras formas de vida possam se constituir. Por isso, fungos e bactérias se conectam as plantas e, em contrapartida, fornecem fósforo, magnésio, enxofre, zinco, cobre e tudo mais que as plantas precisam para se desenvolver. No instante em que as plantas vivem, toda uma infinidade de animais também podem existir, e esses permitem a existência de outros, formando assim, não uma pirâmide, mas uma rede viva e mágica.

 

A vida no solo se expandiu muito! Só de plantas conhecemos umas 350 mil espécies, inclusive árvores com até 83 metros de altura ((quê lokura né!?)) imagina todas as conexões subterrâneas que ela tem, e a capacidade de organizar e estruturar carbono.

A maior árvore do mundo

 

Nessas conexões subterrâneas, entre o solo e as plantas, foram cocriados caminhos de água pelo planeta, que permeiam desde as folhas pela sua transpiração às raízes pela troca com o solo, passando pelas rochas, pelos rios e mares, abastecendo os lençóis freáticos e formando as nuvens, compondo, assim, os ciclos hidrológicos.

E o solo, cenário onde ocorrem muitas dessas conexões da vida, abriga um ser que tem uma relação muito especial conosco seres humanos: estamos falando da Mycobacterium vaccae, uma bactéria que, em contato com nosso corpo, estimula nosso cérebro a desenvolver proteínas anti-inflamatórias, auxiliando na redução do estresse e da ansiedade. Que querida ela, não?!

Porém, num dado momento, a humanidade decidiu destruir toda essa criação, toda essa engenharia da vida, desde as sementes, os cursos d’água, as árvores milenares, bactérias e fungos, os elementais, ecossistemas, a biodiversidade… Um plano voraz com foco no PIB que conta as toneladas de alguns 2 ou 3 grãos, controla toda as plantações com adubos químicos e venenos, rezando para que a chuva caia sobre as lavouras.

No ano de 2022 estamos tendo perdas imensas devido a seca. No Paraná, a quebra na safra em função da estiagem chega a 40%, com um prejuízo estimado em R$ 22,5 bilhões, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura.

É evidente que não há como seguir este caminho. Se faz urgente a criação de novos olhares sobre a vida, compreendendo a terra e reinventando a alimentação. Por isso é tão importante que conheçamos os mistérios do planeta e seus fluxos e processos ecológicas para manutenção da vida na Terra. Conhecer o universo do solo é a chave para compreendermos que somos interdependentes de todos os espaços, estruturas naturais e seres vivos que dançam nessa teia da vida.

Ainda há muito o que desbravar no entendimento de como o solo é importante para a vida no planeta. Precisamos captar seus ensinamentos e ressignificar nossas conexões e a alimentação é um portal possível para essas transformações.

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MWAMBA | O tradicional molho de amendoim e dendê do oeste africano

MWAMBA | O tradicional molho de amendoim e dendê do oeste africano

Por Natália Escouto

 

Vamos conhecer uma receita ancestral?

Quando vi essa receita pela primeira vez fiquei muito encantada, sempre fui apaixonada por amendoim e desde criança aprendemos a consumir o “cri cri” ou “carapinha” das festas juninas, ou a famosa paçoquinha. Lembro também do “amendocrem”, uma pasta de amendoim comercializada no supermercado, ainda bem distante da loucura que temos por pasta de amendoim hoje em dia (muito mais pela influência dos Estados Unidos do que qualquer outra coisa). O amendoim é o grande astro dessa receita que tem inúmeras variações e aqui vamos compartilhar uma versão vegetal feita com couve.

Na verdade, queria preparar essa receita com alguma PANC, mas vamos primeiro falar um pouco mais sobre o amendoim e os pratos tradicionais com mwamba para depois fazermos nossa coleta de PANC para essa receita.

O Amendoim nas Culinárias Africanas

É possível que o amendoim que tem sua origem na América Latina tenha chegado no continente Africano através das viagens de portugueses e espanhóis no comércio de pessoas escravizadas e bens de consumo. Outras literaturas dizem que o caminho foi ao contrário. Sabemos que este trajeto trouxe para o Brasil a banana, o coco, a palmeira com o dendê, o inhame, o quiabo, entre outros ingredientes, além de tecnologias para agricultura e técnicas culinárias que são utilizadas até hoje nas cozinhas afro-brasileira e africanas.

Lá o amendoim é usado de diversas maneiras como em molhos e cozidos, sopas, é feito o leite de amendoim também consumido em molhos, cremes e sopas além de sobremesas e bebidas. Das variações de mwamba, muamba, nkok, que encontrei a maioria leve o azeite de dendê (óleo de palma) e pasta de amendoim.

Outras receitas semelhantes usam pasta de tomates e pimentões, e normalmente é servido com mandioca cozida ou o fufu, um purê de mandioca ou de milho ou de inhame bem firme já que é tradição em muitas culturas africanas comer com as mãos e o fufu serve como uma base para comer molhos e caldos.

O Mwamba que vamos usar de referência nessa receita é feito a partir de uma pasta de pimentões vermelhos, alho e cebola, azeite ou pasta de dendê, pasta de amendoim e água. Além de sal, pimenta e especiarias locais. Este molho ou variações dele encontrei em diversas preparações como Caril de Amendoim com origens Moçambicanas, além do Mwamba Nsusu que é Congolês. Um dos pratos mais tradicionais de Angola é o Muamba de galinha, que também é referência na culinária brasileira, é muito similar ao nosso frango com quiabo. O frango é cozido com cebola, alho, pimentas, e azeite de dendê e um bom molho de tomate e por fim a pasta de amendoim é adicionada na mistura.

O Vatapá baiano, por acaso, é outra receita que faz parte desta influência do amendoim na nossa cultura alimentar. Feito com amendoim torrado, castanhas de caju, dendê, farinha de mandioca ou fubá (e ainda pão dormido), gengibre, pimenta malagueta, cebola, tomate e leite de coco e camarão seco.

Chef Pitchou Luambo – Chefe de Cozinha do restaurante Congolinária, no centro de São Paulo/SP. Pitchou que além de cozinheiro é advogado, veio ao Brasil buscar abrigo uma vez que seu país natal – a República Democrática do Congo, está em guerra civil à anos.  O restaurante familiar serve um rodízio de culinária afrikana com inspiração congolesa adaptando alguns pratos aos ingredientes brasileiros. Couve na mwamba é um dos mais pedidos, e ainda vemos muitas semelhanças entre os nossos ingredientes como a banana, o dendê, arroz e feijão, quiabo, amendoim, além de milho e mandioca. Pitchou ressalta a importância das comunidades de refugiados que vivem no Brasil e como a culinária fortalece as conexões com a terra natal. 

As versões vegetais do Mwamba foram as que mais me deixaram intrigada e curiosa. Na receita do Chef Pitchou (Chef de Cozinha do Restaurante Congolinária em São Paulo), disponível no youtube, ele usa couve como o vegetal da receita, talvez por ser um vegetal folhoso bem acessível aos brasileiros. Já no vídeo (em inglês) da Fabiola (no instagram @shinewithplants) ela chama a receita de Nkok, e usa uma outra planta chamada de Okazi. Tentei achar mais sobre essa planta, mas só achei conteúdos em inglês e em idiomas locais e não quis arriscar na tradução. O engraçado que as folhas de Okazi lembram muito as folhas de Bertalha e da Batata Doce, sendo as duas panc, acho interessante termos essa possibilidade. (ainda não testei, mas compartilho quando fizer). Além disso, o preparo da receita de Nkok me pareceu semelhante ao da maniçoba (prato amazônico da cultura paraense) que é feita a partir da folha da mandioca.

As folhas de Okazi são bem comuns na África e são vendidas em porções congeladas da folha finamente picada. Fabiola lavou as folhas e bateu no liquidificador e levou numa panela com água em fogo alto e deixou ferver por quase uma hora. Significa que essas folhas precisam de mais tempo de cozimento do que a couve por exemplo. Depois adicionou uma pasta de dendê e por último a pasta de amendoim, além de sal e açúcar. De acompanhamento mandioca cozida no vapor. E também falou sobre uma mandioca fermentada. Vale conferir.

E vamos a receita no nosso Mwamba!

Ingredientes:

  • 1/3 de xícara de azeite de dendê
  • 1 cebola pequena cortada em cubos pequenos
  • 1 dente de alho cortado em cubos pequenos
  • 2 tomates cortados em cubos pequenos
  • 1 pimentão vermelho pequeno cortado em cubos pequenos
  • ½ xícara de extrato de tomate ou molho de tomate
  • 1 Molho de couve verde ou manteiga cortado finamente
  • ¾ xícara de pasta de amendoim
  • +/- 500ml de água
  • Sal e pimenta do reino a gosto

Pode usar pimenta dedo de moça, pimenta malagueta, páprica picante e outros temperos que preferir. Gosto de fazer com um pouco de gengibre.

Modo de preparo:

  • Primeiro comece deixando todos os ingredientes prontos e picados para poder preparar a receita com calma e atenção. 
  • Numa panela média, aqueça o azeite de dendê e acrescente nessa ordem a cebola e deixe murchar um pouco e depois acrescente o alho. 
  • Em seguida acrescente os tomates e os pimentões e deixe dourar bem até desmanchar, se precisar acrescente um pouco de água para facilitar o cozimento.
  • Pode tampar e deixar cozinhar por uns 10 minutos. Quando o molho estiver com os legumes desmanchados acrescente o molho de tomate e misture bem, apertando um pouco com a colher para amassar o que ainda estiver com pedaços.
  • Por fim, acrescente a couve, misture e acrescente água até cobrir e a pasta de amendoim. Misture muito bem e veja se necessita de água novamente, a receita deve ficar bem cremosa. 
  • Deixe cozinhar por mais 5 minutos e misture de vez em quando para não grudar no fundo.
  • Tempere com sal e pimenta e sirva com mandioca cozida, ou ainda inhame.

Esta é uma receita para voltarmos pra casa, sentimos o gosto do que nossos ancestrais cultivaram. Conhecer as nossas origens culinárias também é um processo de cura e de resgate. Principalmente para valorização da nossa cultura. Desfrute!

Fontes de pesquisa: 

Chef Pitchou Lumabo e Restaurante Congolinária – https://congolinaria.com.br/

CRUZ. M. S. R.; MACEDO. J.R. A transmissão do saber em elementos da culinária baiana como depositário da tradição cultural: uma análise à luz da contemporaneidade. V Unecult – UFBA 2009

Fabiola – Shine with Plants (Canal no Youtube) – https://www.youtube.com/channel/UCVPAZQXFNi6yYW6_MKajyvQ/featured 

Muamba Nsusu: Congolese Peanut and Palm Oil Stew (Muamba Nsusu: Ensopado com amendoim e óleo de palma congoles) – https://blog.arousingappetites.com/muamba-nsusu-congolese-peanut-palm-oil-stew/

Órfãos da Terra: Julia Dalavia aprende receita com Chef Congolês – https://youtu.be/DRkN1udSe2c 

PAIVA. M. C. A presença Africana na Culinária Brasileira: sabores africanos no Brasil. 2017 UFJF Pós Graduação Lato Sensu em História da África

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Sobre a autora:

Natália Escouto:

Natália Escouto (@preta.nati) é gastróloga, cozinheira e professora de culinária vegetal. Ministra aulas e oficinas de culinária, consultorias e cria conteúdo nas redes sociais pensando o comer como política, cultura e afeto. Vegetariana há quase 10 anos, é apaixonada pela culinária brasileira e praticidade na cozinha. Pesquisa sobre referências africanas na nossa alimentação e referências ancestrais de se relacionar com o alimento e com o cozinhar.

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   Foto: Ricardo Stuckert

Bruna Crioula

O restaurante Camélia Ododó, estabelecimento da nutricionista, ativista alimentar e apresentadora Bela Gil, foi palco na última quinta-feira (24) de um jantar entre militantes pela Comida de Verdade e o presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores). O principal objetivo deste evento foi declarar apoio nas ações de campanha para o ex-presidente, como também promover o diálogo e reforçar a importância de considerar as pautas de soberania e segurança alimentar e nutricional, combate à fome e fortalecimento da agricultura familiar agroecológica e/ou orgânica no seu plano de governo.

Agricultores, referências sociais, políticas, acadêmicas e culturais nas áreas de alimentação, nutrição e ecogastronomia participaram do coquetel, tendo como anfitriãs a própria Bela Gil, a chef de cozinha Bel Coelho e a comunidade Levante Slow Food Brasil. Nomes como Regina Tchelly do projeto Favela Orgânica; Denise Cardoso, presidente da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc); Lina Luz da Escola de Gastronomia Social do Ceará; e Marcos José de Abreu (Marquito), ambientalista e vereador pelo PSOL em Florianópolis; demonstram a diversidade de experiências locais brasileiras comprometidas com as lutas pela garantia do direito humano à alimentação adequada para a população brasileira.

Alimentação é um fenômeno bio-sociocultural que se manifesta nas diferentes dimensões da organização humana, perpassando questões políticas e econômicas. Por isso, esta é uma pauta atemporal e estruturante que precisa fazer parte de maneira transversal nas políticas públicas no Brasil. Considerando o contexto de pandemia global e todos os desdobramentos oriundos das crises sociais, políticas e econômicas que o Brasil enfrenta hoje, especialmente pela necropolítica promovida pelo atual governo federal, é necessário restabelecer estratégias e estruturas públicas que combatam o expressivo contexto de fome e miserabilidade da população brasileira.

A defesa da Comida de Verdade, noção forjada tanto no âmbito da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, Agroecologia e Alimentação Saudável e Adequada é uma bandeira comum na mobilização social para promover mudanças radicais nos sistemas alimentares, assim como no enfrentamento à fome e à crise climática global. Nesse sentido, a rede Slow Food Brasil tem uma trajetória de mais de vinte anos de atuação no território nacional, comprometida com estas pautas, tendo a gastronomia sustentável e a conexão campo-cidade como foco de trabalho em todas as regiões do país.

Considerando que este tema necessita ter grande ênfase na campanha presidencial de 2022 e que os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), seminalmente, nos mandatos de Lula, tiveram o compromisso de concretizar políticas públicas de combate à fome, fortalecimento da agricultura familiar e tradicional e da estruturação de um Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil; há o reconhecimento de que a atual candidatura presidenciável de Lula é um fôlego de esperança, tendo em vista as ações do atual governo federal nos desmontes institucionais, de políticas públicas e da agenda política pautada pelo agronegócio que contribuíram para o cenário de insegurança alimentar e nutricional de mais da metade da população, especialmente famílias chefiadas por mulheres negras nas favelas brasileiras. Os ativistas que compuseram este jantar acreditam que este panorama histórico descreve e justifica a manifestação de apoio deste grupo à candidatura do ex-presidente Lula, com a entrega de uma carta que apresenta as contrapartidas de incidência política durante a campanha e após a esperada e desejada posse, colocando-se à disposição no suporte, enquanto sociedade civil, na efetivação das demandas propostas que foram registradas neste documento.

Entre as falas proferidas no coquetel, Lula compartilhou histórias vividas em sua caminhada relacionadas aos sistemas alimentares brasileiros apresentando sua dedicação às lutas de combate à fome e garantia de acesso a alimentos para populações em situação de extrema vulnerabilidade social. Reforçou a necessidade de criar mecanismos de proteção para as políticas públicas ligadas à Segurança Alimentar e Nutricional e que esses temas sejam amplamente divulgados entre a população.

“O Brasil precisa entrar num novo tempo. É preciso popularizar. É preciso tirar o conceito de alimentação saudável/orgânica da boca dos especialistas para a boca do povo”, afirmou o ex-presidente. Para Lula, a alimentação saudável tem que entrar na pauta tanto quanto assuntos como emprego e educação, demonstrando o compromisso com as demandas compartilhadas durante a roda de conversa no Camélia.

Para a anfitriã Bela Gil, este encontro foi um passo em direção à democratização dos significados da alimentação saudável, lembrou que a fome é um projeto político que retira das pessoas a possibilidade de autonomia para fazer escolhas alimentares adequadas. Também reformou a necessidade de incluirmos a reforma agrária de maneira transversal nas políticas públicas agrárias, ambientais e de promoção à saúde.

“Democratizar a alimentação significa democratizar a terra. O Brasil é um dos países com maiores índices de concentração de terra, resgatar a reforma agrária é fundamental”, afirma Bela.

Sem dúvida, o evento foi um espaço fraterno de partilha de experiências múltiplas de pessoas que trazem nas suas trajetórias o empenho nas lutas por soberania e segurança alimentar e nutricional. No decorrer do encontro, a comunidade Levante Slow Food Brasil presenteou o presidente com um estandarte confeccionado pelo coletivo de mulheres Linhas de Sampa para o evento internacional da rede Slow Food Terra Madre, ocorrido em 2018 na Itália. Com a mensagem “Lula Livre” em inglês e italiano, o emblema era um ato de denúncia à prisão do presidente em Curitiba no mesmo ano. Um momento que marca toda a emoção e entusiasmo com que o jantar aconteceu.

Esperança e força foram expressões muito mencionadas num consenso do coletivo presente de enfrentar os desafios postos durante a campanha presidencial este ano a fim de alcançar o objetivo de eleger Lula como presidente do Brasil no próximo mandato. Sem a pretensão de findar esse debate, o evento inaugura novas oportunidades de articulação para a realização de ações conjuntas planejadas e executadas de maneira dialógica e propositiva na construção de sistemas alimentares inclusivos, equânimes e solidários. Acesse a carta de apoio elaborada pelos ativistas alimentares aqui.

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 Bruna Crioula é nutricionista ecológica, comunicadora popular e             pesquisadora alimentar. Atua na popularização da biodiversidade brasileira   há 12 anos. É sócia-fundadora da Crioula | Curadoria Alimentar, empresa   social protagonizada por mulheres negras, comprometida na criação de   soluções ecológicas nos sistemas alimentares, da produção ao consumo.   Contato: @brunacrioula ou brunacrioula@gmail.com

 

Mudanças Climáticas e pessoas racializadas

Mudanças Climáticas e pessoas racializadas

por Kellen Vieira

Um novo estudo, compartilhado pela BBC news, indica que pessoas negras na maioria das cidades dos Estados Unidos são sujeitas ao dobro de calor corporal do que as pessoas não negras da mesma cidade.
Os estudos dizem que as diferenças não são explicadas pelo nível de pobreza, mas sim por racismo e segregação históricos.

Como resultado, as pessoas negras geralmente moram em áreas com menos espaços arborizados e mais prédios e asfalto.

O que aumenta o impacto da variação de temperatura e mudança climática, principalmente em cidades que já são conhecidas por terem o clima mais quente do que o normal. O termo técnico para os impactos que os prédios, estradas e demais infraestruturas das cidades causam na temperatura é: ilha de calor urbana. Todo o concreto e asfalto atrai e estoca o calor, fazendo com que dia e noite em grandes áreas urbanas sejam mais quentes do que outros lugares à volta.

Dentro das cidades há uma grande diferença de como a ilha de calor irá impactar, em áreas ricas, por exemplo, há árvores e espaços verdes que são notoriamente mais frios que aqueles com grande quantidade de casas e indústrias.

Um estudo anterior feito nos Estados Unidos provou uma correlação entre bairros quentes em grandes cidades com práticas de segregação racistas datadas de antes de 1930. Naquela época áreas com grande numero de negros e imigrantes ilegais eram marcadas, por oficiais federais, em documentos e quem vivia nesses espaços tinha empréstimos e e investimentos negados, tal prática era conhecida como “redlining”. O que leva a uma concentração de pobreza e dificuldade da aquisição de casas próprias pelas populações mais pobres nessas grandes cidades.

Esse novo estudo olha mais de perto para esses bairros mais quentes e as pessoas que são afetadas por isso. Usando dados satélites de temperatura combinados com as informações do censo demográfico dos Estados Unidos, os autores relacionam que os bairros onde a maioria é de pessoas negras e latinas têm temperatura bem maior do que aqueles bairros onde a maioria é branca.

Para sistematizar o estudo define latinos e negros como “pessoas de cor”, não sendo necessariamente os latinos pessoas negras, mas sim considerando todas as pessoas que não se declaram como brancas.

Em todas as áreas urbanas, com exceção de seis, das 175 maiores áreas urbanas dos Estados Unidos continental, as ditas pessoas de cor sofrem muito mais com o impacto do calor no verão.

As pesquisas mostram que pessoas negras estão expostas, em perímetro urbano, a uma média de 3.12ºC de calor a mais, em comparação com pessoas brancas têm em áreas urbanizadas.

A exposição ao calor não apenas aumenta a taxa de mortalidade, mas também está conectado a diversos impactos como insolação, perda de produtividade no trabalho e dificuldade de aprendizado.

“Nosso estudo ajuda a promover mais dados quantitativos que evidenciem que o racismo climático e racismo ambiental existem”, diz a Dra Angel Hsu, da universidade da Carolina do Norte. Chapel Hill, autora principal do artigo. “E isso não é apenas um incidente isolado, isso se perpetua por todo o país. Embora ser pobre fosse um fator de exposição ao aumento de temperatura urbana no verão, isso não era uma explicação completa.”

Em torno da metade das cidades, a maioria das pessoas de cor enfrentam verões mais quentes do que pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, mesmo considerando que apenas 10% dessas pessoas de cor são classificadas como pobres.

Os especialistas dizem que a raiz dessa diferença pode ser encontrada na história “nós podemos traçar vários dessas iniquidades atuais ligadas ao meio ambiente, problemas socioeconômicas e da saúde como explicitamente ligada às decisões e planejamento urbano do século 20 como o ‘redlining’ ” diz Dr Jeremy Hoffman, o cientista chefe do Museu da Ciência em Virginia, que não está envolvido nesse novo estudo. “Embora o dinheiro não nasça em árvores, o dinheiro está claramente localizado em bairros embaixo das árvores, especialmente nos Estado Unidos”.

Com o aumento das temperaturas provocado pelo aquecimento global com o passar das décadas, esse é um problema que irá ficar pior sem uma atuação significativa dos estados e do governo federal, como o presidente Biden tem prometido.

Soluções, entretanto, precisam ser pensadas cuidadosamente. No papel, os autores refletem o fato que plantar árvores em áreas de calor pode reduzir a temperatura no verão em cerca de 1.5ºC, o que é bom para os moradores.

Mas as novas árvores também podem aumentar o valor das propriedades e acabar expulsando as pessoas as quais a política de plantação de árvores visava beneficiar, a chamada gentrificação.

“Como nossa sociedade emerge da pandemia, que mostrou que essas mesmas comunidades que enfrentam maior calor no verão, são as mesmas que sofrem os maiores impactos da Covid-19, é essencial que a gente assegure e foque na nossa recuperação” diz Dr Hoffman “Mas, se decisões para esses bairros são feitos sem a participação ativa e orientação dos moradores desses espaços, não será algo melhor, seja em teoria ou prática, do que o “redlining”, ou qualquer outro processo de planejamento desvantajoso do passado”

O estudo está publicado na revista Nature Communications.

Fonte: https://www.bbc.com/news/science-environment-57235904