Esse texto estava guardadinho na gaveta (mentira, na nuvem! kkkkk) aguardando um momento oportuno para ser publicado. =) Foi o primeiro texto que escrevi com um grande amigo, Guilherme Raniere que é meu amado “guru” PANC. Gestor Ambiental, também está na vida de mestrado como eu e é dono do blog Matos de Comer. Esperamos que apreciem esse resumão que vai ajudar iniciantes nas aprendizagens sobre as PANC. <3

Começando pelo começo

Elas podem estar em qualquer lugar: calçadas de ruas, pelas praças, ruelas, rachas de muros, canteiros de estacionamento ou terrenos baldios. Você passa por elas e nem as percebe, contudo, elas poderiam estar na sua geladeira compondo as opções vegetais das suas refeições!

Afinal, será que consumimos todas as plantas que temos à disposição, pensando na enorme biodiversidade alimentar que nosso país contém? Quando falamos sobre biodiversidade, pensamos em todas as plantas comestíveis que existem, sejam folhas para saladas, frutos saborosos, sementes, castanhas, cereais, ou ainda plantas produtoras de essências, de óleos comestíveis, de açúcares e até mesmo de seivas potáveis.

Para essa biodiversidade alimentar que poderíamos utilizar mas não utilizamos, há um termo bastante usado desde 2007, PANC – plantas alimentícias não convencionais. O termo “alimentícias” entra com um sentido diferente de “comestíveis”, porque comestível é tudo aquilo que consumimos diretamente, enquanto alimentícias são coisas que derivam em alimentos. Por exemplo, plantas que dão origem a óleos, farinhas, essências, açúcares ou chás não são necessariamente comestíveis in natura, mas consumimos derivados delas.

Quando usamos o termo planas comestíveis ou PANC nos referimos a plantas ou partes de plantas que entraram em desuso na alimentação das populações por inúmeros fatores, principalmente por não serem produzidas com o fim de comercialização em grande escala. Dessa forma, estamos nos referindo a plantas, muitas vezes, difíceis de serem encontradas em um mercado ou feira, mas que podem ser adquiridas em caminhadas, parques e até mesmo diretamente com o produtor. Já pensou colher sua salada no caminho de casa?

Temos partes de plantas conhecidas, como as folhas da beterraba, da batata doce e da cenoura, mas ainda a banana verde, que rende polpa e farinha, o mamão verde, consumo como chuchu, e até mesmo os brotos da abóbora e do chuchuzeiro, consumidos como couve ou espinafre. Porém, existem muitas plantas que são pouco conhecidas ou consumidas apenas em certas regiões, como o mangarito, a taioba, o ora-pro-nobis, o ariá, a bertalha e a serralha.

 

Plantas ruderais

Muitas dessas plantas por fim, são chamadas ruderais ou espontâneas, ou seja, são aquelas que surgem sem serem cultivadas, trazidas pelo solo, pela chuva, pelos pássaros ou mesmo por outros humanos. Muitas dessas plantas que surgem em jardins calçadas e plantações e são consideradas daninhas ou matos são, na verdade, plantas comestíveis, nutritivas e deliciosas, que poderíamos consumir, mas jogamos fora. Para facilitar o entendimento do termo ruderais ou espontâneas, pense o seguinte: você já viu um pé de alface nascendo sozinho, sem ter sido semeado? Um pé de couve nascendo no meio da rua? Provavelmente nunca, né? Isso porque são plantas que dependem do homem e de condições específicas para se desenvolverem. Já esses matos comestíveis, não, nascem em qualquer lugar e de forma espontânea.

Essa nomenclatura de “ruderais” refere-se a espécies adaptadas a muitos ambientes,  apresentando capacidade de crescer em condições adversas. Desta forma, pode-se pensar que muitas plantas comestíveis são ruderais; entretanto, nem toda a ruderal é comestível, havendo muitas ruderais não comestíveis e até mesmo tóxicas.

As plantas comestíveis ruderais são plantas encontradas em diversos locais devido a sua reprodução espontânea e grande adaptação. Por essa capacidade que as elas possuem de crescer em condições adversas, são consideradas pelos agricultores como tolerantes a estresses e mais resistentes à seca e a solos pobres, ajudando os agricultores a diversificar sua produção e pensar em espécies mais resistentes em relação aos riscos das alterações climáticas e possível perda da produtividade. Em último lugar, mas não menos importante, destacam-se suas potencialidades nutricionais! Conforme estudos bioquímicos indicam, muitas dessas plantas apresentam teores de nutrientes, como vitaminas e minerais, muito superiores aos das plantas comestíveis disponíveis.

 

Diferentes nomenclaturas

No mundo, desde o final dos anos 1990, autores como Eyzaguirre et al. (1999) e IPGRI (1996), utilizavam termos como espécies subutilizadas e espécies negligenciadas (NUS – Neglect and Underutilized Species). NUS é uma expressão abrangente, podendo incluir qualquer animal ou vegetal que seja comestível. A Bioversity International em uma nota informativa menciona que NUS são “também conhecidas como culturas menores ou ‘órfãs’, que podem ajudar a lidar com problemas globais tais como a redução da fome e da pobreza, e as alterações climáticas” (tradução nossa).

No mundo, existem ainda outras nomenclaturas, como por exemplo “edible weeds” (matos comestíveis), “unconventional food plants” (plantas alimentícias não-convencionais), “quelites” (termo genérico para “folhas comestíveis silvestres”), “wild food plants” (plantas comestíveis não-cultivadas) e “malezas comestibles” (daninhas comestíveis). Dessa forma, existem muitas nomenclaturas aceitas internacionalmente, e PANC é uma delas, mais comum no Brasil.

O termo e seu acrônimo, PANC, foram criados por um pesquisador brasileiro em 2007, unificando diversos termos que se referiam à mesma categoria de plantas. Essas plantas são, por definição, “plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício mesmo que não sejam comuns, não sejam corriqueiras, não sejam do dia a dia de grande parte da população de uma região, de um país”.  Contempla, assim, “todas as plantas que tem uma ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas ou cultivadas”.

Em função dessa ampla abrangência conceitual, o critério para considerar uma PANC é muito subjetivo: vegetais em sua maioria de reprodução espontânea e que não exigem esforços para seu cultivo, não estão inseridas na cadeia produtiva e não apresentam interesse comercial às empresas de sementes, fertilizantes ou agroquímicos – é o que nos orienta o Manual de hortaliças não convencionais, elaborado em 2010 pelo Ministério da Agricultura. Vale lembrar que, caso uma espécie passe a ser produzida, comercializada e conhecida pela população, passando a ser tão comum como a banana, a alface, o feijão ou a cebola, ela deixa de ser considerada uma planta não convencional, deixando de ser chamada de PANC para ser chamada de espécie convencional. Isso é ruim? Não, isso é ótimo, significando que muitas pessoas tem acesso a ela e que ela está finalmente chegando à mesa dos brasileiros.

 

Pra fechar a prosa

Estamos falando de muitas, muitas espécies! Na realidade, estamos falando de tudo aquilo que é comestível, mas não está a venda. Existem algumas iniciativas que contribuem para que elas voltem a ser conhecidas e consumidas já que estas plantas trazem muitos benefícios para a saúde das pessoas e podem ser preparadas de diversas formas. Muito mais que uma tendência gastronômica, as PANC também podem ser uma ação estratégica para complementação alimentar de pessoas que ainda hoje não tem acesso contínuo e permanente a alimentos de qualidade e que fazem bem à saúde. Uma saída para transpor a fome, uma saída para inclusão social por meio de geração de trabalho e renda.

 

Espero que com a sessão Tudo Mato eu possa te ajudar a  reconhecer algumas delas, conhecer um pouco da história delas na alimentação humanas e também saber segredinhos de como prepará-las. Tudo isso para provar que outra alimentação é possível e não somente isso, para mostrar que alternativas de combate as fomes do mundo são possíveis com o cultivo e consumo dessas lindezas!  Se você leu até aqui, não custa nada compartilhar esse texto, né? Conte para todo mundo sobre essa novidade revolucionária de tornar o mundo mais nutrido, solidário e sustentável! 🙂