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CRISE CLIMÁTICA: 11.000 CIENTISTAS ALERTAM SOBRE O “SOFRIMENTO INDESCRITÍVEL”

CRISE CLIMÁTICA: 11.000 CIENTISTAS ALERTAM SOBRE O “SOFRIMENTO INDESCRITÍVEL”

Declaração define ‘sinais vitais’ como indicadores de magnitude da emergência climática

Texto de: Damian Carrington | Traduzido por: Betina Aleixo

A população mundial vai enfrentar um “sofrimento indescritível devido à crise climática”, a menos que haja grandes transformações na sociedade global, de acordo com o severo alerta feito por mais de 11.000 cientistas.

“Nós declaramos clara e inequivocamente que o planeta Terra está encarando uma emergência climática”, afirma. “Para garantir um futuro sustentável, nós devemos mudar a forma que vivemos. [Isso] implica em grandes transformações na maneira como a nossa sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais.”

Não há tempo a perder, os cientistas dizem: “A crise climática chegou e está acelerando mais rápido do que a maioria dos cientistas esperava. É mais grave do que prevemos, ameaçando os ecossistemas naturais e o destino da humanidade.”

A declaração está publicada no periódico BioScience, no 40ª aniversário da primeira conferência mundial do clima que foi sediada em Genova em 1979. A declaração foi uma colaboração de dezenas de cientistas e endossada por mais de 11.000 cientistas de 153 países. Eles dizem que as mudanças urgentes precisam incluir: acabar com o crescimento populacional, deixar os combustíveis fósseis no solo, parar com a destruição das florestas e cortar o consumo de carne.

O Prof. William Ripple, da Universidade do Estado de Oregon, e o principal autor da declaração, disse que foi levado a iniciá-la devido ao aumento de eventos climáticos extremos que ele estava vendo acontecer. Um dos principais objetivos do alerta é estabelecer uma gama completa de indicadores de “sinais vitais” das causas e efeitos do colapso climático, em vez de apontar somente para as emissões de carbono e aumento da temperatura da superfície.

“Uma série mais ampla de indicadores deve ser monitorada, incluindo o crescimento populacional humano, consumo de carne, perda de cobertura de árvores, consumo de energia, subsídio para combustíveis fósseis e as perdas econômicas anuais para eventos climáticos,” disse o co-autor Thomas Newsome, da Universidade de Sidney.

Outros “sinais profundamente problemáticos das atividades humanas” selecionados pelos cientistas, incluem o estrondoso número de passageiros de avião e o crescimento mundial do PIB. “A crise climática está estreitamente ligada ao consumo excessivo proveniente de um estilo de vida opulento,” afirmou.

Como resultado dessas atividades humanas, existem tendências “especialmente perturbadoras” de aumento das temperaturas dos oceanos e da terra, elevação dos níveis do mar e eventos climáticos extremos, e os cientistas dizem que: “Apesar de 40 anos de negociações climáticas globais, com algumas exceções, nós falhamos amplamente em resolver essa situação. É particularmente preocupante o potencial irreversível dos pontos de inflexão climáticos. Essas reações em cadeia podem causar rupturas significativas em ecossistemas, sociedades e economias, com o potencial de deixar a Terra com grandes áreas inabitáveis”.

“Nós desejamos que o uso difundido desses sinais vitais permita que os políticos e o público entendam a magnitude da crise, redefinam prioridades e se alinhem com o progresso,” disse o cientista.

“Você não precisa ser um cientista de foguete para olhar para os gráficos e perceber que as coisas estão dando errado”, disse Newsome. “Mas ainda não é tarde”. Os cientistas identificaram alguns pontos encorajadores, incluindo o decréscimo na taxa de natalidade, aumento do uso de energia solar e eólica e a perda de investimentos em combustíveis fósseis. Os níveis de desmatamento na Amazônia também estavam caindo até o recente aumento sob a nova presidência de Jair Bolsonaro.

Eles estabeleceram uma série de ações urgentes e necessárias:

  • Usar energia de uma forma muito mais eficiente e aplicar impostos altos para emissões de carbono, para cortar o uso de combustíveis fósseis.
  • Estabilizar a população global – atualmente aumenta em 200.000 pessoas por dia – usando abordagens éticas como uma educação mais longa para meninas.
  • Cessar a destruição da natureza e recuperar florestas e mangues para a absorção co2.
  • Comer mais plantas e menos carne, e reduzir o desperdício de alimentos
  • Afastar as metas de economia do crescimento do PIB.

“A boa notícia é que tal mudança transformadora, com justiça social e economia para todos, promete bem-estar humano muito maior do que os negócios de sempre”, disseram os cientistas. A recente preocupação foi encorajadora, eles acrescentaram, de greves escolares globais para processos judiciais contra poluidores, e alguns países e empresas começaram reagir.

O alerta sobre os perigos da poluição e a extinção em massa eminente da vida selvagem na Terra, também liderado por Ripple, foi publicado em 2017. Com o apoio de mais de 15.000 cientistas e lido em parlamento do Canadá a Israel, ele chega 25 anos depois do original “Cientistas do Mundo – Um alerta para a humanidade”, em 1992, que dizia: “É necessária uma grande mudança na administração da Terra e na vida nela, para evitar uma vasta miséria humana.”

Ripple diz que os cientistas têm a obrigação moral de emitir avisos sobre as ameaças catastróficas: “É mais importante que nunca que nós falemos, baseados em evidência. É tempo de ir além das pesquisas e publicações, e falar diretamente com os cidadãos e os parlamentares”.

FONTE: The Guardian

 

 

Uma porção de comida | lembretes culinários sobre chutney

Uma porção de comida | lembretes culinários sobre chutney

Frutas são, comumente, utilizadas no beneficiamento de alimentos em preparações doces. Geleias e compotas, por vezes, são as únicas possibilidades que pensamos quando nos deparamos com o excesso desses alimentos em casa.

Esse molho salgado abriu minha mente e paladar para encontrar novos sabores com frutas. O primeiro chutney que experimentei foi de manga. Pra mim que tenho preferência por pratos salgados a doces ou sobremesas foi uma grata aprendizagem a elaboração de chutneys no meu repertório culinário.

Uma criação indiana, chutney é um preparo a base de frutas ou legumes com muitos condimentos, pimenta e açúcar mascavo e vinagre. A palavra tem a mesma raiz que outras na língua persa que significa “uma porção de comida”. Uma porção de comida extremamente versátil que pode ser acompanhamento para petiscos ou molho para massas e recheios de pastéis ou assados. 

Com o desenvolvimento da linha de produtos ecológicos Nobis eu tenho me dado licença poética para misturar frutas e plantas alimentícias não convencionais nesse envolvente prato. Por que não utilizar mamão maduro em preparações salgadas? Não há preconceitos na minha cozinha e o mamão maduro foi base para o chutney de mamão com xique-xique (nome popular de uma espécie de cacto comestível).

Em São Paulo, simplesmente não encontrei mamão para refazer minha invenção. Também não encontrei nenhum lugar que pudesse coletar o cacto… Estaria minha produção perdida? Claro que não! A fruta mais barata que encontrei no mercado próximo a casa da minha amiga Alessandra (fundadora da Herbívora) foi o abacaxi. A ora-pro-nobis foi a companheira panc da vez para o novo preparo: chutney de abacaxi com ora-pro-nobis

Ao chegar em Porto Alegre, encontrei frutos de ora-pro-nobis e não muitas folhas. Quem está em abundância pela capital gaúcha é a bertalha linda que super ornou com o abacaxi que segue como fruta da estação nas regiões sul e sudeste.  

Hoje realizei uma oficina de preparações culinárias com no grupo de mulheres para geração de trabalho e renda na Aldeia da Fraternidade. Fizemos duas possibilidades de chutneys com mamão e abacaxi. Como essas são as últimas lembranças que tenho da receita, compartilharei os lembretes culinários para elaboração dessas preparações.

Lembretes culinários são memórias das etapas e ingredientes combinados para o desenvolvimento de qualquer receita. Eu não gosto de usar receita, tampouco gosto de passar receitas. Não porque eu seja egoistinha (aushuahush), mas porque eu mesma não sigo receita alguma ou anoto as quantidades certinhas de cada ingrediente nas comidas que faço. É o que eu chamo de culinária intuitiva, tenho vídeo falando sobre isso no canal amor do PorQueNão? – Mídia Interdependente. Chega de tagarelar, vamos aos lembretes culinários dos chutneys.

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Chutney de mamão com xique-xique

INGREDIENTES

1 mamão madura

5 ou 6 ‘mãos’ da palma

sal a gosto

suco de 1 limão

azeite de oliva

cebola roxa

alho

quantidade de água

pimenta do reino a gosto

páprica doce

PREPARAÇÃO

1. Descasque o mamão e o cacto

2. Corte em cubos pequenos

3. Aqueça uma panela com o azeite de oliva

4. Refogue os cubos de mamão e do xique-xique acrescentando os temperos

5. Acrescente água e tampe. Deixe ferver por alguns minutos, acrescente mais água

6. Acrescente o suco de limão

7. Envase 

DICAS

Você pode utilizar chimichurri como um dos temperos complementares nesta preparação

Utilize luvas para descascar o cacto, seus espinhos são bem pequenos e chatos de serem retirados da mão

Não se preocupe com a “baba” que surgirá na preparação, o cacto tem bastante viscosidade 

Não tenha pressa em apagar o fogo, quanto mais tempo ferver, mais os sabores se harmonizam

Chutney de abacaxi com bertalha

INGREDIENTES

1 abacaxi grande

bertalha

sal a gosto

suco de 1 limão 

azeite de oliva

cebola roxa

alho

quantidade de água 

pimenta do reino a gosto

açafrão

pimentão amarelo  

PREPARAÇÃO

1. Descasque o abacaxi

2. Corte em cubos pequenos

3. Corte a bertalha em tiras

4. Aqueça uma panela com azeite de oliva

5. Refogue a cebola roxa cortada em cubos pequenos, acrescente o alho e meio pimentão amarelo também cortado em cubos pequenos; acrescente a bertalha cortada em tiras

6. Acrescente o abacaxi cortado, refogue

7. Acrescente água e tampe. Deixe ferver por alguns minutos, acrescente mais água se necessário

7. Acrescente o suco de limão

8. Envase 

DICAS

Quanto mais maduro estiver o abacaxi melhor

Eu deixo ferver bastante mesmo. O bom são os pedacinhos se desmancharem em meio as borbulhas na panela

Você pode utilizar açafrão como tempero complementar dessa preparação

HÁ OUTROS CAMINHOS? PARTE 2 | CONHEÇA AS ESPÉCIES NEGLIGENCIADAS OU SUBUTILIZADAS

HÁ OUTROS CAMINHOS? PARTE 2 | CONHEÇA AS ESPÉCIES NEGLIGENCIADAS OU SUBUTILIZADAS

Traduzido por: Mariana Pianissolla

Este texto é uma parte da PUBLICAÇÃO ‘NUS – Fighting Poverty, Hunger and Malnutrition with Neglected and Underutilized Species’ , publicação da organização de pesquisa para o desenvolvimento ‘Bioviversity International’ em 2003. Versão original disponível aqui.

Introdução

“Natureza é recompensa” é uma expressão que não precisa de definição. É a natureza que nos alimenta, nos veste, nos esquenta, nos abriga, define nossos meios de subsistências e subsidia a cultura das populações humanas. Toda essa recompensa descansa na vida do planeta, a vida de todos os animais, incluindo os humanos, dependem da natureza. Aproximadamente 30.000 espécies de plantas já foram identificadas, mais de 7.000 delas já foram usadas na história da humanidade para alimentação (FAO, 1998). No presente, porém, não mais do que 150 espécies são comercialmente cultivadas e, dessas, apenas 103 garantem 90% das calorias da dieta humana². Apenas quatro delas (arroz, trigo, milho e batata) somam quase 60% do suprimento de energia para os humanos³.

Quase todos os esforços da Revolução Verde dos anos 1960 aos anos 1980 focaram no desenvolvimento das grandes culturas agrícolas básicas. Entretanto, dentro da perspectiva da sustentabilidade e segurança alimentar, contar com uma estreita base de alimentos faz com que nosso fornecimento de comida seja extremamente vulnerável. Basear nossa dieta num pequeno número de principais culturas têm implicações na segurança alimentar e nutricional. A falta de diversidade genética deixa nossa agricultura vulnerável à pragas, doenças e estresse abiótico. Neste mundo interconectado, a variação na devastação irlandesa da batata do século XIX teria inúmeras e desastrosas consequências. O antegosto do que pode acontecer foi experimentado nos anos 1970, quando variedades híbridas de milho se mostraram sensíveis a ferrugem da folha, em 1930 quando fungos atacaram o taro cultivado em Samoa, e em 1875 quando devastaram a plantação de café do Sri Lanka. Uma corrente global que ameaça a produção de trigo é a ferrugem. Essa agressiva e muito destrutiva doença apareceu pela primeira vez na Uganda, mas se espalhou pelo Oriente Médio, destruindo plantações de trigo. Isso é ameaçador para os países produtores de trigo onde as variedades resistentes estão em falta. Para prevenir essa e outras calamidades na produção de alimentos, é claro que é preciso manter a diversidade dentro e entre culturas no nosso sistema de produção.

Como consequência das vantagens comerciais das monoculturas e do alto rendimento dos melhoramentos híbridos, a diversidade de espécies – caracterizada por culturas locais, variedades tradicionais e menores – está sendo negligenciada por agrônomos, bem como por serviços de extensão. Em muitas áreas elas estão sendo totalmente perdidas, juntamente com o conhecimento tradicional do seu cultivo e uso.

Ao mesmo tempo, o mundo sofre com desnutrição, pobreza, degradação dos ecossistemas e impactos no clima, sendo assim, a produção agrícola pede urgentemente por esforços para as culturas negligenciadas e menores, semelhantes ao suporte já feito as principais lavouras. Está cada vez mais claro que ações mais ousadas e consistentes são necessárias para ampliar a cesta de alimentos do mundo apoiando o desenvolvimento das culturas tradicionais marginalizadas pelas pesquisas atuais e políticas em agricultura.

Internacionalmente, existe um aumento do interesse em novos alimentos e outros produtos que podem contribuir em novas formas para saúde e nutrição humanas. Esse interesse pode ser explorado para desenvolver mercados para culturas não tradicionais, onde comunidades pobres podem ser beneficiadas, fornecendo incentivos para produtores que plantam essas culturas. Agricultura deve ir além das tecnologias da Revolução Verde do último meio século, que foram baseadas no melhoramento genético e no aumento do rendimento das culturas básicas, porém com um alto custo. Esses aumentos não permitiram que os países reduzissem a fome e também resultaram no uso inapropriado e excessivo de agrotóxicos, desperdício de água nos esquemas de irrigação, perda dos benefícios da biodiversidade, poluição do solo e da água, e significante redução da diversidade das lavouras.

O que são as NUS? E por que são importantes?

Espécies agrícolas que não estão entre as maiores culturas básicas geralmente são chamadas de “neglected and underutilized species” (NUS) – espécies negligenciadas e subutilizadas, em tradução livre -, também conhecidas como culturas “órfãs”.

O conceito de NUS remete a espécies de plantas úteis, mas que são marginalizadas ou completamente ignoradas pelos pesquisadores, produtores e políticos. Elas não são consideradas mercadorias e fazem parte de um grande e diverso grupo com milhares de espécies domesticadas, semi-domesticadas e selvagens. Elas podem se adaptar localmente como as espécies de florestas não madeireiras. A designação NUS também é fluída, como quando uma cultura é simultaneamente estabelecida em um país e negligenciada em outro. Em alguns países estatísticas e pesquisas não distinguem entre NUS e outras culturas.

NUS diferem de culturas básicas em formas fundamentais. Elas tendem a ser gerenciadas por sistemas tradicionais, usando fontes de sementes informais e envolvendo um forte elemento de gênero. O seu processo pode ser trabalhoso, gradual e com embalagens primitivas, além de serem produtos para mercados locais com limitações para o envolvimento de grandes empreendimentos. Sendo por muito tempo negligenciada pela agricultura convencional por razões de variedade agronômica, genética, econômica, social e cultura, hoje essas culturas estão recebendo constante reconhecimento por causa do seu potencial papel para atenuar os riscos do sistema de produção agrícola. Nos últimos 10 anos ou menos, um crescente número de projetos vem direcionando sua atenção para a importância das NUS em beneficiar a nutrição, gerar renda, manter a saúde dos ecossistemas e empoderar os pobres e marginalizados, assim como, promover a diversidade cultural.

Conclusão

Existe uma necessidade urgente de ampliar a cesta de alimentos pelo mundo apoiando o desenvolvimento de culturas tradicionais negligenciadas e marginalizadas a partir de pesquisas e políticas agrícolas.

Intervenções para apoiar as NUS são muitas e incluem:

O desenvolvimento de variedades melhores;

Melhorias nas práticas de cultivo;

Elevar o investimento em tecnologias;

Melhor acesso dos produtores aos mercados;

Validação e promoção dos benefícios à saúde;

Manutenção mais eficaz da diversidade genética e cultural nas fazendas;

Políticas de nível nacional e internacional que apoiem a conservação e o uso dessas culturas.

As NUS, como parte da cesta de alimentos da humanidade afiada através de milênios de experimentação agrícola e transmissão cultural de conhecimentos através das gerações, são uma riqueza que merece ser conservada cuidadosamente pelos muitos benefícios que traz para a população mundial. Através de ações internacionais, locais e nacionais, este recurso pode ser transmitido para as gerações futuras e usado para melhorar o bem-estar da humanidade.

Referências:

² Prescott-Allen and Prescott-Allen 1990

³ http://www.fao.org/biodiversity/components/plants/it/

 

Os artigos deste editorial foram contribuições de pesquisadores e pesquisadoras concedida ao Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares – OBHA para a 5ª edição temática da sessão Fome de Saber que foi lançada em 2018. O OBHA é um projeto do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura – Palin da Gerência Regional de Brasília da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Brasília.

 

Plantas Alimentícias Não Convencionais e Agroecologia – trabalhos apresentados no Congresso Brasileiro de Agroecologia 2017

Plantas Alimentícias Não Convencionais e Agroecologia – trabalhos apresentados no Congresso Brasileiro de Agroecologia 2017

Confira os assuntos dos trabalhos sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais no anais do último Congresso Brasileiro de Agroecologia

Quer submeter trabalhos sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC no próximo Congresso Brasileiro de Agroecologia – CBA e não sabe por onde começar? Eu te ajudo: dê uma espiadinha nos trabalhos compartilhados no último congresso em 2017!

Sim, este é o ano do próximo Congresso Brasileiro de Agroecologia! Será realizado entre os dias 4 e 7 de novembro em Sergipe. Aproveitando que o prazo de submissão de trabalhos está aberto até o dia 5 de julho, resolvi resgatar as contribuições nos painéis de discussão que ocorreram no último evento sobre as PANC, nos Anais disponibilizados pela Associação Brasileira de Agroecologia – ABA em agosto de 2018

O CBA anterior marcou o ano de 2017 em Brasília. Com uma programação integrada a outros dois grandes encontros (o VI Congresso Latino-americano de Agroecologia e o V Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno), o CBA 2017 teve como tema “Agroecologia na Transformação dos Sistemas Agroalimentares na América Latina: Memórias, Saberes e Caminhos para o Bem Viver”. A Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) e a Sociedad Latinoamericana de Agroecología (SOCLA) e uma imensa rede de parceiros realizados os eventos que pulsaram pelos eixos brasilienses.

Este ano, o tema do CBA é tão incrível quanto os anteriores! Ecologia de Saberes: Ciência, Cultura e Arte na Democratização dos Sistemas Agroalimentares é a temática que permeará todos os dias deste evento que é um momento de encontro que fortalece, consolida e avança as bandeiras de ancestralidades, soberania alimentar, educação popular, agrobiodiversidade, reforma agrária, feminismos e demais assuntos que permeiam a agroecologia.

Foram 10 trabalhos encontrados na busca pelo termo ‘não convencionais’ com diferentes abordagens entre si. Vamos a eles:

// TEMA GERADOR 4: Educação em Agroecologia

| Operação taioba: o uso de plantas alimentícias não convencionais (PANC) e da agricultura urbana na construção do senso agroecológico de escolares da rede pública de São Leopoldo, RS | link

// TEMA GERADOR 5: Construção do Conhecimento Agroecológico

| I Jornada sobre plantas alimentícias não convencionais do estado do Rio Janeiro: expressões da socialização de conhecimentos entre a academia e a sociedade | link

| Narrativa midiática e difusão sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): contribuições para avançar no debate | link

| Estudo sobre consumo de hortaliças não convencionais no município de São João del-Rei / MG: uma abordagem em busca de valores esquecidos. | link

// TEMA GERADOR 6: Campesinato e Soberania Alimentar

| Reconquista de sementes crioulas e plantas alimentícias não convencionais no assentamento Dênis Gonçalves, Zona da Mata Mineira | link

| Agricultura familiar como agente de desenvolvimento regional por meio do cultivo e comercialização de hortaliças não convencionais em Minas Gerais | link

// TEMA GERADOR 7: Conservação e Manejo da Sociobiodiversidade e Direitos dos Agricultores e Povos e Comunidades Tradicionais

Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Território do Sisal | link

| Horto didático da UTFPR Câmpus Pato Branco: unidade demonstrativa de plantas alimentícias não convencionais | link

// TEMA GERADOR 9: Manejo de Agroecossistemas e Agricultura Orgânica

Incidência de fitoplasmas em plantas alimentícias não convencionais no Brasil | link

// TEMA GERADOR 12: Estratégias Econômicas em Diálogo com a Agroecologia

| A importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS) para a sustentabilidade dos sistemas de produção de base ecológica | link

É possível perceber como o termo Plantas Alimentícias Não Convencionais desperta distintas possibilidades de práticas em diferentes territórios. Ouso dizer que o termo poderia pleitear um tema gerador próprio, ou, no mínimo, que a questão de agrobiodiverisidade e disponibilidade alimentar – estratégias locais de abastecimento (quem sabe… estou pensando alto aqui…) poderia ganhar uma temática própria para que essa rede de pessoas, organizações, coletivos e instituições formadoras se encontrassem de uma forma mais coesa e não esparça a tal ponto que não conseguimos identificar quem são esses atores que participam ativamente da notoriedade do tema das PANC no cenário alimentar do país.

A defesa por uma temática nesse sentido dá-se não o número de trabalhos em si. Não obtive a tempo de escrever este texto o número total de trabalhos apresentados no CBA em Brasília, mas certamente, chegou a mil. Bem, mesmo com hipótese de que 1% dos trabalhos trouxe esse termo para seu relato científico, destaca-se as numerosas abordagens utilizadas com o recorte dessas plantas que já tem povoado as mentes inquietas da comunidade acadêmica ligada aos temas de agroecologia. 

Essa publicação tem o objetivo de conectar pessoas. Conectar que escreve com quem lê e visse e versa; Conectar diferentes locais que podem estar fazendo ações muito semelhantes e sentem-se isolados ou sozinhos nesse caminho de popularização das PANC. Conectar pesquisadores e pesquisadoras da área, independente se você é formado ou não, construção de saberes coletivos está no encontro, na partilha, na cooperação. Vamos aproveitar a próxima temática deste importante evento para pensar em como mostrar a importância das reflexões e práticas do cultivo ao consumo dessa biodiversidade alimentar que se apresenta pelo acrônimo desses alimentos.

Quem vamos escrever trabalhos para o próximo congresso? Os trabalhos com um (*) tem participação minha. Caso você se interesse pelo tema e for ler, comenta aqui o que achou do relato científico sobre as narrativas midiáticas das PANC no Brasil e o relato de experiência sobre a ‘Operação Taioba’ – projeto de educação alimentar e nutricional com PANC no município de São Leopoldo/RS.

Vamos nos encontrar em Sergipe, gente! Será lindo demais poder conhecer pessoas que, assim como eu, estão desbravando as possibilidades teóricas e práticas do trabalho com as PANC! 

 

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Nuno Rodrigo Madeira e Neide Botrel

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são aquelas que possuem uma ou mais partes que podem ser usadas na alimentação, mas que não sejam corriqueiras, parte do dia a dia da grande maioria da população (Kinupp e Lorenzi, 2014). O termo PANC começou a ser difundido em 2008 e tem sido o mais aceito pela comunidade técnico-científica. Ele trouxe consigo grande visibilidade na mídia e perante a sociedade como um todo, proporcionando a valorização de espécies subutilizadas ou negligenciadas.

Em nosso trabalho na Embrapa Hortaliças, iniciado oficialmente em 2006, utilizamos por vezes o termo “Hortaliças Tradicionais”, por serem espécies cujas sementes ou mudas são mantidas pelos próprios agricultores, muitos deles agricultores tradicionais, e por trazerem consigo um forte apelo cultural associado, além de ser uma forma de valorização. Por representarmos a Embrapa Hortaliças, nos limitamos ao trabalho com hortaliças, mas dialogamos acerca das Panc como um grupo maior. Nos últimos anos, passamos também a usar o termo “Hortaliças Panc”, que inclui as hortaliças tradicionais e outras.

Esses termos trazem alguma controvérsia; uma planta que é considerada não convencional em uma região pode ser convencional em outra, a exemplo do açaí (Euterpe oleracea), do jambu (Spilanthes oleracea) e da chicória (Eryngium foetidum) na Região Norte, do cuxá ou vinagreira (Hibiscus sabdarifae) no Maranhão, da erva-mate no Sul (Ilex paraguariensis), do inhame (Colocasia esculenta) no Espírito Santo, entre outras.

Contudo, de forma geral, as PANC, são espécies de uso local ou regional (e não global ou nacional como as espécies convencionais), com distribuição limitada, cadeia produtiva inexistente ou mal estruturada, de pouco ou nenhum interesse para as empresas de insumos, de sementes ou fertilizantes por exemplo, por sua rusticidade e pouco estudadas na academia.

De forma geral, observa-se redução do consumo de alimentos regionais, seja no campo ou nas cidades, pela substituição da produção local por espécies de maior apelo comercial e cadeia produtiva estabelecida, isso em função de mudanças significativas no estilo de vida e no hábito alimentar dos brasileiros, com a perda da referência dos quintais e o crescente uso de alimentos industrializados, resultado da globalização e da verticalização das cidades, muitas vezes com perdas históricas de referências socioculturais.

A situação de desuso de muitas PANC acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), o ser humano afunilou sua alimentação de mais de dez mil diferentes espécies vegetais para cerca de 150 espécies sendo cultivadas atualmente, sendo que 12 representam 80% de nossas necessidades alimentares e apenas quatro espécies (arroz, trigo, milho e batata) mais da metade de nossas necessidades.

Ainda assim, muitas PANC resistem no Brasil e são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos, dentre as hortaliças, são ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) em algumas regiões de Minas Gerais e Goiás, sempre presente na gastronomia no circuito das cidades históricas; vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária local – o arroz de cuxá; jambu no Norte do Brasil, ingrediente essencial para o tacacá e o pato no tucupi; e gila (Cucurbita ficifolia) na Serra Gaúcha, onde é tema de um festival em Bom Jesus; entre outros (Brasil, 2015). Isso em se tratando de hortaliças, nosso universo de trabalho, mas o que dizer das frutas como o cupuaçu e o açaí na Amazônia, o pequi e o baru no Cerrado, o umbu no Semiárido, a jabuticaba no Sudeste, a goiaba-serrana e o butiá no Sul, entre outras tantas Frutas PANC.

Buscando ampliar a diversidade alimentar, nosso trabalho na Embrapa Hortaliças apresenta três propósitos básicos: a conservação de germoplasma, patrimônio de valor incalculável; o enriquecimento da dieta alimentar local com a diversificação da produção nos sítios ou nos quintais; e a oportunidade de renda para os agricultores familiares com o cultivo de hortaliças tradicionais e seus subprodutos (Madeira et al., 2013). A conservação, no nosso entender, só será plena e até mesmo segura e viável se for pelo uso, pois aquilo que se usa com frequência terá sua conservação assegurada. No caso de algumas espécies em desuso como o mangarito (Xanthosoma riedelianum), o jacatupé (Pachyrrhizus tuberosus) e a araruta (Maranta arundinacea), trata-se de um verdadeiro resgate de plantas que chegaram próximo à extinção, se não botânica por sua rusticidade, no mínimo à extinção alimentar. Assim, as ações que realizamos junto aos parceiros da extensão rural, de outros órgãos de pesquisa e organizações de produtores, são bancos comunitários locais (Brasil, 2013b), eventos (dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas, palestras) e disponibilização de publicações (cartilhas, livros, artigos científicos).

Aspecto fundamental é que, em essência, o cultivo das PANC vem sendo historicamente feito por agricultores familiares e sob manejo de base agroecológica. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais no meio rural ou urbano, para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, já apresentam significativa inserção de mercado, como o inhame (Colocasia esculenta) ou o cará, conhecido no Nordeste por inhame (Dioscorea spp.), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Outras, no entanto, apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta ou de substituição de importações, a exemplo da fisális ou camapu (Physalis spp.) e do chá de hibisco, extraído da vinagreira.

Outro aspecto interessante é que grande parte das PANC é nativa do Brasil e as que não são botanicamente de origem brasileira, são tão adaptadas que muitos as consideram nativas, a exemplo de vinagreira, gila e inhame, sendo na verdade ditas “naturalizadas”, introduzidas durante o processo histórico de formação do Brasil. Portanto, muitas Panc são plantas espontâneas ou silvestres, por vezes até consideradas “daninhas” ou “matos”, como serralha (Sonchus oleracea), beldroega (Portulaca oleracea) e major-gomes ou cariru (Talinum spp.). 

É interessante ressaltar que muitas das PANC apresentam efeito funcional nutracêutico, a exemplo do cará ou inhame-cará, reconhecido depurativo de sangue, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas (até 32% na matéria seca) e minerais, notadamente cálcio e ferro. No entanto, sempre ressaltando que não será um ou outro super alimento que trará a resposta em nutrição e saúde mas sim uma super alimentação diversificada e de qualidade.

Por sua facilidade de cultivo, adaptabilidade, rusticidade, além do potencial ornamental, muitas Panc tem sido utilizadas em agricultura urbana e periurbana e na promoção da produção local de alimentos.

Finalmente, todas as ações que vem ocorrendo relacionados a PANC trazem uma forte valorização do conhecimento do agricultor tradicional, de base familiar, resgatando sua sabedoria, dignidade e importância na produção de alimento seguro, mostrando que a produção local de alimentos deve usar prioritariamente plantas adaptadas e de alta rusticidade e resiliência, disponibilizando muito mais alternativas e contribuindo verdadeiramente para a segurança e, principalmente, para a soberania alimentar e nutricional, pelo incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e o fomento aos bons hábitos alimentares. O fomento das PANC abrange aspectos culturais, econômicos e sociais, promovendo espécies nutricionalmente interessantes, muito facilmente adaptadas, praticamente orgânicas, e com alta capacidade de mitigação dos impactos negativos causados pelos efeitos das mudanças climáticas, ressaltando sua interface com os diálogos referentes à agricultura de base ecológica e à agricultura urbana.

Bibliografia Consultada

BRASIL. 2015. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. – 2ª ed. – Brasília, Ministério da Saúde. 484 p.

KINUPP, V.F.; LORENZI, H. 2014. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas.

MADEIRA, N.R.; SILVA, P.C.; BOTREL, N.; MENDONÇA, J.L.de; SILVEIRA, G.S.R.; PEDROSA, M.W. 2013. Manual de produção de Hortaliças Tradicionais. Brasília, DF: Embrapa. 155 p.

Nuno Madeira | nuno.madeira@embrapa.br

Engenheiro agrônomo. Pesquisador Embrapa Hortaliças

Neide Botrel | neide.botrel@embrapa.br

Engenheira agrônoma. Pesquisadora Embrapa Hortaliças

Os artigos deste editorial foram contribuições de pesquisadores e pesquisadoras concedida ao Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares – OBHA para a 5ª edição temática da sessão Fome de Saber que foi lançada em 2018. O OBHA é um projeto do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura – Palin da Gerência Regional de Brasília da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Brasília.

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Paulo Brack e Matias Köhler

O fato de o Brasil ser um dos países com a maior biodiversidade do mundo já não é novidade (FIORAVANTI, 2016). Contudo, saber que grande parte dessa biodiversidade pode ser utilizada na alimentação ainda gera espanto e estranhamento. Cará, araruta, jaracatiá, pequi e jatobá são alguns ingredientes provenientes da flora nativa, mas de conhecimento e de uso restrito à pequena parte da população.

De fato, a alimentação das sociedades consideradas modernas é pobre em espécies e variedades de plantas utilizadas, apesar de nossos biomas brasileiros abrigarem milhares de espécies de plantas alimentícias. Situação semelhante à nossa ocorre no restante do mundo. Atualmente, somente vinte espécies vegetais fornecem 90% do alimento humano do planeta, sendo que apenas três delas — trigo, milho e arroz — fornecem mais da metade (WILSON, 2012). Além disso, a maior parte das plantas desenvolvidas para a alimentação humana teve origem em climas mais frios e se expandiu na maior parte do mundo também tropical, cultivadas em monoculturas vulneráveis e altamente suscetíveis à doenças e ataques de insetos e outros organismos, que se costumou chamar de “pragas”.

O uso de poucas espécies na alimentação está mais relacionado a um imperialismo agroalimentar e pouco conhecimento acerca das plantas que nos cercam – uma verdadeira cegueira botânica, do que a falta de opções. O pesquisador alemão Günther Kunkel (1984) foi o pioneiro no levantamento de plantas alimentícias de todo o mundo, tendo citado 12,5 mil espécies com este potencial em todos os continentes. Edward Wilson (1988) estimou que ocorressem no mundo 75 mil espécies alimentícias, e destacou que muitas são superiores em vários aspectos nutricionais às plantas convencionalmente cultivadas. Eduardo Rapoport et al. (2009) chegaram a uma estimativa semelhante a de Wilson, reconhecendo que 25% das plantas de muitas floras são representadas por plantas alimentícias. Estudo de Valdely Kinupp (2007) obteve como resultado 311 espécies com uso atual ou potencial alimentício da flora nativa da Região Metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o que representa cerca de 20%, da flora da região. Com base em todos estes estudos, Kinupp estima que os percentuais de plantas alimentícias variem entre 10% e 20% de cada conjunto de floras regionais ou locais.

Em nosso país, segundo o Projeto Flora do Brasil, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, existem identificadas não menos do que 33 mil espécies de plantas fanerogâmicas brasileiras. Já que as fanerógamas se constituem no principal grupo taxonômico que reúne as plantas com potencial de alimento ao ser humano, teríamos, então, uma estimativa da ocorrência de pelo menos três mil e trezentas espécies alimentícias nativas, nos diferentes biomas, entre frutíferas, hortaliças e produtoras de nozes, castanhas, condimentos, polpas, entre outros produtos.

A maioria destas espécies é usada culturalmente por povos indígenas e comunidades tradicionais, mas no Brasil, muitas vezes, nossas plantas recebem algum valor somente depois de exportadas, beneficiadas e ganharem fama em outros países. É o caso da castanha-da-amazônia ou brazil nut (Bertholletia excelsa), da aroeira-vermelha ou brazilian pepper (Schinus terebinthifolius), que são exportadas principalmente para a Europa. Outras, inclusive, tornaram-se alvo de biopirataria por empresas de países de outros continentes. Um caso emblemático foi o do cupuaçu (Theobroma grandiflorum), da Amazônia, cujos produtos quase foram patenteados com êxito por parte de uma empresa japonesa, não fosse o governo brasileiro sair atrás do prejuízo e reverter o processo. Outro caso, ocorrido há muitas décadas, trata-se da goiabeira-serrana, ou feijoa (Acca sellowiana), levada do sul do Brasil e Uruguai para os EUA e, hoje, sendo cultivada comercialmente com sucesso em países como Nova Zelândia e Colômbia. A eventual oferta desta fruta, nas cestas de supermercados brasileiros, provém da Colômbia, com preços exorbitantes, que podem alcançar o valor de 70 reais o Kg.

A agricultura moderna, considerada por setores da grande mídia como a “locomotiva da economia”, vem gerando grande volume de problemas ambientais, principalmente aqueles derivados do uso crescente de agrotóxicos, da perda da biodiversidade e do próprio estrangulamento da diversidade de atividades geradoras de renda, com concentração crescente de terras. Somos, cada vez mais, reféns da exportação de grãos e de commodities. Isso também gera negligência sobre nossos recursos, situação resultante da lógica da priorização da agricultura empresarial ou industrial e a grande escala da produção agrícola, deixando os agricultores com poucas alternativas de se desvencilharem do modelo de dependência atrelado às monoculturas de exportação. Como consequência disso, aproximadamente 75% da diversidade agrícola mundial já foram perdidas no último século (FAO, 2013).

Não é razoável que sejamos os campeões do uso de agrotóxicos e obrigados a seguir testemunhando a transformação de dezenas de milhões de hectares de riquíssimas floras de diferentes regiões de cada um dos seis biomas brasileiros, com seus respectivos ecossistemas com excepcionais características locais desenvolvidas há muitos milhares de anos, em imensas paisagens totalmente homogêneas (BRACK, 2017). Estamos a ver sucumbir nossa biodiversidade sob a pesada produção mecanizada, quimificada e insustentável de soja e de outros grãos, ou a produção de dezenas de milhões de cabeças gado em áreas não originalmente florestais e de savanas (cerrados), sem falar nos milhões de hectares de lavouras de madeira para celulose. Comprometemos a funcionalidade ecossistêmica necessária no campo, que necessita da diversidade de flora e fauna, e a funcionalidade da cultura alimentar e da ecologia humana. A produção de alimentos é uma função também social e deveria corresponder ao respeito constitucional, incluso no Art. 225 da Constituição Federal, que garante o direito ao meio ambiente equilibrado, com proteção à diversidade biológica e aos processos ecológicos. Esta circunstância da inviabilidade das monoculturas já foi denunciada na metade do século passado pelo botânico paulista Frederico Hohene (1946), pioneiro no estudo das frutas indígenas brasileiras. Segundo este autor:

“Acreditamos que na policultura reside maior garantia contra eventuais cataclismos, dificuldade de transporte, e carência de recursos de outra natureza […]. Além disso, devemos considerar que na policultura reside mais encanto e maior  alegria, porque em cada mês surgem cousas diferentes, e num mesmo dia aparece maior variedade. A monotonia, que tanto desalenta, fica destituída das cogitações daquele que se entrega à policultura. Aliás, a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada.”

Por sorte, desde a década passada, existe um movimento de resgate das plantas nativas na alimentação, juntamente à busca por alimentos da agroecologia, situação que também reflete a busca por uma vida mais saudável frente às monoculturas que estão associadas ao uso de alta carga de agrotóxicos. A agrobiodiversidade emerge, por meio da agricultura das famílias campesinas que veem sentido na convivência com a diversidade de produção de sementes crioulas e na valorização da natureza. As plantas alimentares não convencionais são resgatadas ou descobertas pela primeira vez, gerando resiliência, renda e uma vida mais digna para quem produz e para quem consome. No escopo desta diversidade agrícola, portanto, estão as plantas alimentícias nativas e espontâneas, que crescem e nascem sozinhas em ambientes favoráveis, indicando as vocações locais, inseridas no conceito das plantas alimentícias não convencionais (PANC), tanto na produção como no consumo.

Esta diversidade parte da oferta de estruturas vegetais como raízes, caules ou tubérculos, bulbos, rizomas, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes, bem como de produtos utilizados ou com potencial para a alimentação humana. Começam também a ser estudados, por instituições de pesquisa, o conteúdo nutricional e as formas de produção de polpas, látex, resinas e gomas ou outras partes usadas para a obtenção de óleos e gorduras comestíveis. A diversidade engloba ainda as especiarias, as plantas condimentares e/ou aromáticas, assim como as que são utilizadas como substituintes do sal, corantes alimentares, edulcorantes naturais, amaciantes de carnes e também fornecedoras de bebidas, tonificantes e infusões.

No Rio Grande do Sul, somente no que se refere às plantas nativas com frutos e sementes comestíveis (o que chamamos de frutíferas), existem mais de 200 espécies. Cerca de 60% das frutíferas no Rio Grande do Sul são árvores ou palmeiras, mas o dado que chama a atenção é que os 40% restantes representam uma grande diversidade de formas biológicas, como ervas, arbustos, trepadeiras e epífitas. Desde uma década para cá, estas espécies vem lentamente ganhando algum espaço (KÖHLER & BRACK, 2016). Em regiões do bioma Cerrado, o desenvolvimento das frutas nativas está também em ascensão, principalmente na produção de sorvetes.

Cabe lembrar que PANC não se restringem às plantas nativas. O conceito é usado a todas as plantas que não são convencionais utilizadas em nossos cardápios ou que não são produzidas em sistemas convencionais (agricultura industrial ou convencional). A união das espécies nativas alimentícias com as demais não nativas, nos diferentes sistemas de produção, provoca efeito sinérgico no fortalecimento das plantas da agrobiodiversidade e das culturas humanas associadas.

Obviamente, o caminho para o êxito das PANC, nativas ou não, é também cheio de revezes. Parlamentares e representantes das empresas transnacionais, que se consideram donos de nossas sementes e variedades, atuam junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária para enfraquecer a autonomia dos agricultores e de suas organizações, como cooperativas, associações ou ONGs, no âmbito da produção e troca autônoma e local de sementes e propágulos das plantas da agrobiodiversidade.

A luta é dura, como a de Davi contra Golias, para que as sementes crioulas e outras formas de reprodução de plantas associadas a diferentes regiões, culturas tradicionais e alimentares tenham o espaço da sociobiodiversidade de direito, hoje negado pelo setor pesado do agronegócio. Mas, a expansão paulatina das feiras de produtos agroecológicos e orgânicos por parte de agricultores familiares e campesinos, o interesse crescimento de grupo de consumidores desses produtos, o crescimento na investigação científica dos componentes nutricionais e no resgate e inovação de receitas com nossas plantas, o incremento dos sistemas agroflorestais (SAFs), em muitas regiões dão a esperança de que as cepas de resistência estão se consolidando para que se possam superar as adversidades.

Quem sabe setores importantes dos governos e da sociedade coloquem este tema no eixo estruturante de suas ações para uma sociedade mais justa e sustentável, que comungue de outros paradigmas necessários para a humanidade viver com mais igualdade e felicidade. Como Hoehne já dizia, e não custa repetir: “a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada”.

Referências:

BRACK, P. (2017) O modelo insustentável do agronegócio brasileiro. Revista Textual n. 26, 28-35.

FAO (2013) FAO Statistical Yearbook, 2013 – World Food and Agriculture. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations.

FIORAVANTI, C. (2016) A maior diversidade de plantas do mundo. Pesquisa FAPESP n. 241, 42-47.

HOEHNE, F.C. (1946) Frutas indígenas. São Paulo: Instituto de Botânica, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.

KINUPP, V.F. (2007) Plantas Alimentícias Não-Convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS. Tese (Doutorado em Fitotecnia) Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

KÖHLER, M.; BRACK, P. (2016) Frutas nativas no Rio Grande do Sul: cultivando e valorizando a diversidade. Revista Agriculturas 13 (2), 7-15.

KUNKEL, G.W.H. (1984) Plants for human consumption: an annotated checklist of the edible phanerogams and ferns. Koenigstein: Koeltz Scientific Books.

RAPOPORT, E.H;  MARZOCCA, A.; DRAUSAL, B.S. (2009) Malezas comestibles del Cono Sur y otras partes del planeta. Bariloche: INTA.

WILSON, E. (1988) The current state of biological diversity. In: WILSON, E.O. & PETER, F.M. Biodiversity. 521 pp. Washington, D.C.: National Academy Press.

WILSON, E.O. (2012) Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras

 

 

Paulo Brack | paulo.brack@ufrgs.br

Professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS, membro da coordenação do InGá.

Matias Köhler | matias.k@ufrgs.br

Biólogo, mestrando em botânica (UFRGS), vice-coordenador do Instituti Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá.

 

 

Os artigos deste editorial foram contribuições de pesquisadores e pesquisadoras concedida ao Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares – OBHA para a 5ª edição temática da sessão Fome de Saber que foi lançada em 2018. O OBHA é um projeto do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura – Palin da Gerência Regional de Brasília da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Brasília.