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Banana: o fruto da musa paradisíaca!

Banana: o fruto da musa paradisíaca!

Com toda a certeza você a comeu, pode até não gostar, provavelmente te ofereceram quando era criança na introdução alimentar. Uma fruta tão rica em nutrientes e tão versátil na culinária tem seus usos nas mais variadas possibilidades como bio fertilizante e até mesmo prato.

Dia 22 de Setembro é o Dia Mundial da Banana, a segunda mais consumida no mundo e também a mais consumida no Brasil. Neste texto vamos compartilhar algumas curiosidades da banana – a Musa Paradisíaca – e adorar esse alimento que é tão importante na alimentação da população brasileira.

Musa paradisíaca L. é o nome científica da fruta e as variedades que mais consumimos são: a Banana Prata, Banana da Terra (Pacova – nome de origem indígena), a Banana Nanica, a Banana Ouro e Banana Maçã. Pode haver alguma mudança de nomenclatura também, aqui no Sul, por exemplo, as mais consumidas são a banana prata que tem tamanho médio e é menos doce, já a banana caturra – em outras regiões conhecida como nanica – é maior (não tão grande como a da terra) e com a textura mais farelenta e mais doce. Além das variedades mais comuns a Banana D´água, a Banana Figo são outras variedades que podemos encontrar com produções menores, principalmente vindas da agricultura familiar e agroecológica, preservando espécies nativas e selvagens.

A origem desta planta é da Ásia, que chegou a África pela expansão Árabe e chegou as Américas pelos portugueses e espanhóis. No período colonial, era a fruta mais consumida tanto por índios e escravos quanto os colonos portugueses e outros europeus. As grandes produções começaram no litoral brasileiro, e aos poucos adentrou o continente. Hoje os maiores produtores são o estado de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, seguidos da Bahia, Pará e Ceará na pesquisa feita pela Pesquisa Agrícola Municipal feita pelo IBGE em 2019. Tamanho é o consumo que apenas 2% da produção não é absorvida pelos consumidores brasileiros.

O que mais me surpreende e a versatilidade de usos, praticamente toda planta pode ser utilizada na alimentação como também em outros setores usando cascas, fibras e folhas para produzir fertilizantes, e até mesmo roupas usando fibras de abacaxi e banana. Podemos consumir a fruta em todos os estágios de maturação, além da casca, o palmito e ainda a flor, também conhecida como coração da bananeira ou mangará. Além a folha é usada para assar alimentos como a pamonha, e o acaçá ou abará da culinária baiana, e serve como prato para aparar e servir algumas refeições.

Confira aqui alguns usos para a Banana e se delicie:

Banana verde: biomassa, ralada no pirão, chips, assada, cozida, na moqueca;
Banana madura, no ponto: natural, esmagada com aveia e sementes, no mingau de aveia, grelhada doce ou salgada, na farofa, na salada, no recheio de bolos, substituindo ovo nas receitas
Banana bem madura: como purê (doce ou salgado), papinhas para bebês, na massa do bolinho de chuva, congelada como base para sorvete, batidas e bebidas cremosas
Casca e Coração: as fibras refogadas podem ser recheio de salgados como empadas, pastéis, quiches, etc. Serve como antepastos, recheios de tortas salgadas, pizzas, etc.

Além do consumo in natura a Banana está muito presente na nossa culinária, está em receitas clássicas como a Moqueca de Banana e ainda o doce antigo Chico Balanceado. É a primeira fruta oferecida aos bebes e é uma das sobremesas mais simples e gostosas como a banana assada com canela. Ainda podemos se lambuzar com a farofa de banana ou uma banana split e claro, servir de base para um sorvete ou batida a base de frutas.

No café da manhã ela é consumida pura, ou ainda cozida, recheando beiju e batida com leite ou com outras frutas. Tem inúmeras versões de bolo como aquele com a banana caramelada ou a banana incorporada na massa! Em refeições como almoço e jantar ele pode estar num ensopado, na própria moqueca, feitas num pirão junto com fubá, inhame ou macaxeira. Assadas servida doce ou salgada, e ainda pode ser frita tanto verde quanto madura, faz até bolinho frito. Tortas das mais gostosas como o Chico Balanceado com banana caramelada, creme de confeiteiro e chantilly e a mais nova sensação nos cafés, a Banoffe, uma torta inglesa com massa podre, doce de leite, caramelo, bananas e chantilly. Ainda é serve de cheio em cucas, na torta flocada e outras delícias. Os doces clássicos são a banana, a banana passa, geleias e schimier, a banana assada com canela e açúcar.

No nordeste e nordeste é mais comum o uso da fruta, além de in natura, em receitas salgadas acompanhando tapioca, farinha de mandioca, em caldos e ensopados, assada e frita, principalmente a banana da terra. No sul e sudeste está mais presente em bolos, doces e compotas com a banana prata e caturra. Minha receita favorita com a banana é com a fruta verde levemente grelhada no café da manhã, usando azeite de dendê e pouquinho de sal. Essa combinação banana + dendê é muito gostosa e faz uma farofa incrível. A Banana verde não tem a doçura tão pronunciada o que combina muito bem nas preparações salgadas.

A seguir compartilho uma receita de Paçoca de Banana, feita com banana, farinha de mandioca e amendoim!

Paçoca com banana da terra

Essa receita é uma adaptação de uma paçoca de carne seca e farinha. As paçocas (como a de amendoim) eram feitas antigamente no pilão, onde eram descascados e moídos grãos, sementes, farinhas, dendê, akará. A tradicional paçoca de carne seca era uma alternativa de dar mais sustância ao povo que vivia na escassez e a mandioca era o principal alimento. Vamos utilizar a banana da terra também tradicional na culinária nordestina, mas pode usar a que você preferir.

Ingredientes: 3 bananas da terra maduras, 4 colheres de sopa de óleo ou manteiga de coco (pode usar outro óleo vegetal que for acessível pra ti), 1 cebola média picada em cubos,1/2 xícara de amendoim torrado e moído, 300g de farinha de mandioca, sal quanto baste.

Modo de preparo: Primeiro asse as bananas com cascas por 30 minutos ou até que a casca fique escura e elas estejam bem macias. Depois de esfriar, descasque e corte as bananas grosseiramente, vai virar paçoca, não precisa cortar perfeitamente. Frite a cebola no óleo e adicione a banana, refogue bem e desligue o fogo. Se tu tiver um pilão, que maravilha, se não tiver tudo bem, eu adaptei: em uma bacia ou até em uma panela mais alta e com uma colher de pão ou ainda aqueles martelos para carne, e até uma copo ou uma taça pode ser útil. Se for no pilão, coloca a mistura de banana e cebola e aos poucos vai acrescentando a farinha de mandioca e o amendoim e socando para misturar tudo. Aos poucos vai ficar na consistência de paçoca, apertado um pouco da massa nas mãos e conseguir formar um bolinho. Na panela pode levar mais tempo, mas vale a pena. O processo é o mesmo, e pode usar mais ou menos farinha, dependendo do tamanho das bananas. No processador de alimentos também pode ser feita. Primeiro, prepare a banana assada e depois frita com a cebola e coloque a mistura no processador. Aos poucos acrescente o amendoim e a farinha que pode ser tanto crua ou torrada. Use a função pulsar, e faço o teste pegando um pouco da massa e amassando até virar uma bolinha. Quando já tiver uma massa homogênea está pronto, pode ser consumida assim mesmo ou ainda assar as bolinhas em formato de paçoca até ficarem douradas.

Texto por Natália Escouto

Saiba mais em:

O básico dos básicos – Banana: O Joio o Trigo
Dia da Banana: Banana.Blog

HUE, Sheila Moura, Delícias do Descobrimento – A Gastronomia Brasileira no Século XVI. Editora Zahar 2009 Rio de Janeiro

CASCUDO, Luis Câmara, Antologia da Alimentação no Brasil. 1ª edição digital, Global Editora 2014 São Paulo

PAIVA, Maria da Conceição. A presença Africana na culinária brasileira: sabores africanos no Brasil. Universidade Federal de Juiz de Fora, Pós Graduação Lato Sensu em História da África 2017

Língua de Vaca ou Azedinha

Língua de Vaca ou Azedinha

No outono ou no inverno, em algum gramado, jardim, terreno ou beira de estrada, você já deve ter visto uma plantinha rasteira com folhas verde-escuro alongadas que parecem línguas brotando do chão. Com o passar do tempo, se a planta não tiver sido removida, ela cresce de forma ereta, pequenas flores discretas aparecem e pequenas sementes marrom-esverdeadas envoltas por um tipo de “pele” surgem em pendões. Muitas vezes, em algum dia, a gente passa no local onde a planta estava e percebe que ela desapareceu após algum jardineiro ou trabalhador do serviço público de limpeza cortar a grama. Mas alguns dias depois ressurgem novas plantinhas, jovens, com cor verde ainda mais reluzente. No verão, elas quase desaparecem.

Essa planta é popularmente conhecida como Língua-de-vaca, mas também por labaça e azeda-graúda (Paraná), e no exterior por Lengua de vaca ou Romaza em espanhol e Bitter dock em inglês. São três as subespécies de Língua-de-vaca mais comuns no Brasil: Rumex brasiliensis Link., Rumex crispus L. e Rumex obtusifolius L. A Língua-de-vaca, Rumex obstusifolius L., é nativa da Europa, porém, há muito tempo cresce espontaneamente quase em todo Brasil, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, em áreas de altitude, terrenos agrícolas, pomares, jardins, pastagens e terrenos baldios. Já existem diversas variantes da planta no mundo. A Rumex acetosa L., conhecida como azedinha, é muito parecida com as demais citadas.

As Línguas-de-vaca são herbáceas perenes, que possuem raízes pivotantes profundas com pequenos rizomas na base. Gostam de solos úmidos, compactados e ricos em matéria orgânica. E toleram o frio. Na primavera, florescem e nos verões de calor intenso hibernam. Suas folhas são simples, apresentam pecíolos e parecem línguas, como já foi citado acima. Suas flores são reunidas em inflorescências e frutos pequenos, secos, com a semente presa à parede do pericarpo. Sua propagação se dá através das sementes e rizomas.

As folhas da Língua-de-vaca são comestíveis. Podem ser consumidas cruas, em saladas, ou cozidas, em refogados, cremes, panquecas e sopas. As folhas jovens têm sabor mais agradável e as mais velhas são mais fibrosas. Quando a planta floresce as folhas ficam amargas. As sementes, quando secas ao forno e depois trituradas, podem ser usadas para produzir farinha. É uma hortaliça folhosa muito subutilizada no país. A Crioula | Curadoria Alimentar costuma fazer molho Pesto com Língua-de-vaca e fica uma delícia!

Agora que você conheceu um pouco mais sobre a Língua-de-vaca, que tal experimentá-la em algum preparo culinário?

Caso você queira coletar na rua, em algum terreno, praça ou jardim, evite locais sujos, como calçadas, ao redor de vias de trânsito de veículos, locais onde cães e gatos costumam defecar e urinar, próximo a esgotos e águas possivelmente contaminadas. Na dúvida, compre Língua-de-vaca em feiras, e caso ainda não tenha para vender, converse com a/o feirante, pergunte se conhece a planta e se sim, pergunte se a cultiva, se pode fornecê-la, assim você poderá obter a planta para consumo. Algumas plantas comuns, não-convencionais e espontâneas são cultivadas e consumidas pelos produtores, mas seu valor comercial é baixo ou a planta é tão desvalorizada socioculturalmente que nem sequer é considerada para a venda.

Faça um bom proveito!

Texto por André Torresini

Conheça a uva-japonesa!

Conheça a uva-japonesa!

A Hovenia dulcis é uma planta ornamental que se tornou uma alimentícia não convencional!

Ela é conhecida pelos nomes comuns de Uva-do-japão, uva-japonesa, caju-do-japão e tripa-de-galinha. Trata-se de uma árvore que perde as folhas no inverno ou na estação mais seca do ano, cresce até cerca de 30 metros de altura, possui tronco cilíndrico, grosso e com casca espessa, com até 50 cm de diâmetro. 

As folhas da Uva-do-japão são simples, têm forma oval, flexíveis, sem penugem e são perpassadas por nervuras. Suas inflorescências possuem flores brancas. Os ramos das inflorescências se tornam espessos e suculentos (pseudofrutos) ao amadurecer, adquirindo a cor marrom e sabor agridoce, em cujas extremidades se formam bolinhas (os verdadeiros frutos) que armazenam minúsculas sementes marrons.

A Uva-do-japão é nativa do leste da Ásia: China, Península Coreana e Japão. No Japão, é chamada de Kemponashi. Na China, chama-se de kouai tsao. Atualmente, é possível encontrar a planta também na Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, Paraguai, Uruguai, Sul da Europa e Norte da África. No Brasil, a Uva-do-japão é amplamente cultivada na arborização paisagística da Região Sul, tornando-se subespontânea. É muito comum ver árvores de uva-do-japão nas ruas das cidades do Rio Grande do Sul e no Oeste de Santa Catarina, por exemplo. Sua propagação se dá através das sementes e por estaquia. Ela tolera geadas, mas seu desenvolvimento diminui com frios intensos. A seca e o calor excessivos podem matar a planta.

Seus pseudofrutos são comumente consumidos frescos e com um preparo culinário adequado podem servir como base para doces, sucos, vinhos e geleias. O sabor dos pesudofrutos é intensamente doce, porque contêm elevado teor de açúcares (dissacarídeos de sacarose) em sua composição. Quando desidratados, em forma de passas, os pseudofrutos podem ser armazenados por meses. Também podem ser usados na produção de frisantes e cervejas. Seu suco é muito bom e naturalmente adoçado, sendo utilizado na cultura popular para amenizar ressacas. É uma fonte rica em fibras, vitamina C e minerais como cálcio, magnésio ferro, zinco, manganês e cobre.

Texto por André Torresini

Saiba mais em:

CARVALHO DE CASTRO, Tatiana et al . Caracterización de pseudofrutos, semillas y plántulas obtenidas a partir de la geminación in vivo e in vitro de la especie medicinal Hovenia dulcis (Rhamnaceae). Ver. Cubana Plant. Med,  Ciudad de la Habana, v.10, n.1, abr. 2005 .

Embrapa. Uva-do-japão (Hovenia dulcis Thunb.): valor nutricional e aceitabilidade. 2015. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1038599/uva-do-japao-hovenia-dulcis-thunb-valor-nutricional-e-aceitabilidade

SCHNEIDER, A. A. A flora naturalizada no estado do Rio Grande do Sul, Brasil: herbáceas subespontâneas. Biociências, Porto Alegre, v. 15, n. 2, p. 257-268, 2007.

Chocolate dos Deuses: dos Maias aos Capitalistas

Chocolate dos Deuses: dos Maias aos Capitalistas

Por Betina Aleixo

É muito provável que quando você tem vontade de comer um doce, recorra a um chocolatinho. Todos nós fazemos isso. Ele pode ser um presente de páscoa, de aniversário ou apenas uma recompensa depois de um dia cheio. Além de muito gostoso, o chocolate é acessível para a maioria da população e está presente na maioria dos estabelecimentos que comercializam alimentos. Do mercadinho de bairro à farmácia, é possivelmente o doce mais consumido no ocidente e é responsável por um nicho de mercado imenso e poderoso.

No entanto, as crises climáticas e humanitárias trouxeram à luz vários problemas que envolvem a produção de chocolate no mundo. Sem a pretensão de condenar o consumo de chocolate, vamos debater os recortes históricos, acontecimentos recentes e nos aprofundar nas discussões socioambientais que cercam a indústria do chocolate.

Chocolate Sagrado

Para saber onde estamos, precisamos saber de onde viemos. E o chocolate está longe de ser uma invenção de séculos atrás: é um alimento milenar e sagrado, muito diferente do que conhecemos hoje.

As civilizações mesoamericanas já cultivavam e preparavam as sementes de cacau por volta de 1900 a.C. para preparar uma bebida utilizada em cerimônias religiosas e eventos da realeza(1). A bebida era considerada revigorante, era temperada com pimenta, espumante e tinha sabor amargo. Independente das diferenças culturais, as civilizações mesoamericanas acreditavam que o cacau era um alimento sagrado dado aos humanos pelos deuses.

Com as grandes navegações, financiadas pelos impérios europeus, em 1519, Hernán Cortez e sua tripulação chegam no que hoje conhecemos como América Central, e entram em contato com a civilização asteca e a corte do Rei Montezuma(2).

Infelizmente este vídeo não possui legendas em português, mas é um excelente conteúdo sobre a história do chocolate durante a colonização europeia.

Os astecas apresentam aos espanhóis a sua bebida, seu cacau e sua cultura. E quando os espanhóis retornam para a Europa, levam consigo muitas sementes de cacau para apresentar à corte. Com o passar do tempo, e a adição de açúcar, mel ou baunilha, a bebida foi se tornando mais palatável ao gosto europeu e assim foi se popularizando nas cortes de diversos países, até se tornar o doce popular que conhecemos hoje.

É interessante pensar nos diferentes significados de um alimento para cada civilização, e na história que cada alimento carrega. Sim, os astecas apresentaram a Cortez o seu sagrado e precioso cacau e, mesmo assim, tiveram sua confiança traída: a civilização asteca, assim como outros povos mesoamericanos, tiveram seu povo, seu reino e sua cultura dizimados pelos invasores espanhóis em massacres sangrentos.

O cacau foi do sagrado à commodity, e, tanto a história dos mesoamericanos quanto a do chocolate são contadas pelos europeus. Por muito tempo, os únicos registros pré-colonização que tínhamos sobre o uso do cacau diziam respeito às culturas mesoamericanas. No entanto, pesquisas recentes indicam uma nova história por trás do fruto dos deuses.

O cacau é Amazônico

 

Em 2013, uma pesquisa desenvolvida por arqueólogos equatorianos e franceses apontou que o cacau tem origem amazônica(3), com base em resquícios encontrados em recipientes na província de Zamora Chinchipe, na Amazônia equatoriana.

Ao submeter os materiais encontrados a testes de carbono 14, os arqueólogos constataram que o cacau já era utilizado há mais de 5,5 mil anos e que a planta existe na Amazônia Equatorial por, pelo menos, 7 mil anos(4).

Para Francisco Valdez, que dirige a missão de pesquisa na jazida Santa Ana-La Florida, as evidências apontam que a cultura Mayo-Chinchipe-Marañón possuía uma sofisticação social complexa e que, possivelmente, houve relação entre culturas dos Andes e da costa do Equador.

Neste sentido, é sugerido que de alguma forma as sementes de cacau foram levadas da região amazônica até a América Central, onde temos a teoria de origem mais conhecida.

No entanto, para além da origem, existem outros aspectos do cacau que são desconhecidos para a maioria das pessoas. Por exemplo, as variedades de cacau existentes(4): tanto as diversas plantas da variedade Theobroma, quanto outras plantas da variedade Pachira, que entram na categoria popular de “cacau-selvagem”.

Fizemos um conteúdo especial sobre as variedades de cacaus classificados como PANC. Você pode conferir aqui.

E mesmo para a indústria do chocolate existem variedades e variedades de cacau (Theobroma cacao L.), algumas mais valiosas do que outras. Curiosamente, os resquícios de cacau amazônico encontrados na pesquisa dirigida por Valdez, pertenciam a uma variedade “cacau fino”, muito apreciada atualmente pela indústria do chocolate.

 

Os gigantes do chocolate e o cacau

 

Talvez você nunca tenha ouvido falar da Mars Inc. ou da Mondelez, mas com certeza conhece os M&M’S e o Bis. Estas e outras empresas com nomes mais conhecidos como a Nestlé, Hershey’s, Ferrero, e muitas outras, compõem um mercado imenso(6) de fabricação de chocolates – os chocolates que a maioria de nós conhece, consome ou já consumiu em algum momento da vida. Estes, são produzidos a partir das sementes do cacau forastero, espécie mais comum e mais cultivada ao redor do mundo.

Existem três variedades dominantes de cacau: o forastero, que corresponde a mais de 80% da produção mundial(7) e é considerado como de “qualidade inferior”; o criollo, que é a variedade mais antiga de cacau conhecida – seriam estes os frutos utilizados pelos mesoamericanos em seus rituais – é considerado um insumo de altíssima qualidade, é utilizado apenas por fabricantes de chocolates premium e corresponde por 1% da produção mundial e pode valer até 3 vezes mais do que o cacau comum; e a variedade trinitario, que se trata de um híbrido entre o forastero e o criollo, intermediário entre valores e qualidade, é cultivado em vários lugares do mundo e corresponde a 5% da produção mundial de cacau. Também existem outras variedades de cacau, híbridas e crioulas, que são cultivadas em quantidades menores(8), e mesmo dentro das 3 variedades dominantes de cacau há inúmeras classificações internas dadas pela indústria(9).

Para produzir os chocolates que comemos, as grandes fabricantes muitas vezes compram o chocolate já processado, ou os subprodutos do cacau que compõem o chocolate: massa de cacau, licor de cacau, manteiga de cacau, etc. Essa mistura e processamento de ingredientes acaba descaracterizando certos aspectos do cacau, padronizando sabor e textura.

Então, se por um lado temos estes imensos conglomerados empresariais por trás da fabricação massificada de chocolate que comemos, existem outras empresas menores que atendem um público com muito poder aquisitivo para consumir chocolates finos e exclusivos. 

Dois exemplos de produtos deste “seleto” mercado, que muitos desconhecem, e são válidos para a nossa análise aqui:

chocolate ruby

Chocolate Ruby | Comercializado como o 4º tipo de chocolate (amargo, ao leite, branco e ruby), se trata de um chocolate de coloração naturalmente rosa, criado pela Barry Callebaut, uma das maiores processadoras de cacau do mundo. Os cacaus utilizados na produção deste chocolate são as mesmas espécies que citamos aqui. A diferença está no processamento das sementes, que dão a coloração rosa ao chocolate e o sabor mais ácido. Como é feito exatamente? É segredo industrial. A Nestlé foi a primeira marca a criar uma versão comercial para a Kit Kat, que chegou a ser comercializada aqui no Brasil(10).

Fortunato n4

Fortunato nº4 | Considerado “o Rolex dos Chocolates”, é comercializado de forma limitada a fabricantes de chocolate finos, encontrados em distribuidores nos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido. No entanto, o cacau que dá origem a esse cobiçado chocolate é cultivado no norte do Peru. Trata-se da variedade mais antiga de cacau, considerada extinta desde o início do século XX, e reencontrada acidentalmente em 2007 por dois americanos. Resultado deste encontro? Descoberta de um cacau que produz o que se considera um dos melhores chocolates do mundo e um acordo comercial com fabricantes renomados de chocolate na Suíça(11).

Além da Suíça e Bélgica serem países referência em qualidade de chocolate [e incluírem a lista de países que mais consomem chocolate no mundo(12)], são nestes países de primeiro mundo que ficam localizadas as sedes das maiores fabricantes de chocolates, tanto os conglomerados gigantes da alimentação (leia-se, Nestlé) quanto os fabricantes de chocolates finos.

Mas o que mais estes distintos mercados de chocolate têm em comum?

A origem do cacau. Nenhum destes países produzem cacau, apenas o chocolate. Para a produção de chocolates finos, há os cultivos de cacau na América Central, América do Sul e até mesmo Ásia(13). Para a produção dos chocolates comuns, países da África são os principais fornecedores das sementes. Destes, a Costa do Marfim e Gana correspondem a 60% da produção mundial de cacau(14).

Sabor amargo

Em um documentário de 2010, chamado “The Dark Side of Chocolate” (O Lado Escuro do Chocolate), o diretor e roteirista Miki Mistrati e sua equipe se infiltram nas plantações de cacau da Costa do Marfim e registram os inúmeros jovens e crianças, entre 7 e 15 anos de idade, trabalhando em plantações em condições análogas à escravidão. O documentário trouxe fortes denúncias e embates com a indústria do chocolate, mas não houveram consequências para os fabricantes(15)

Se há denúncia, mas não há consequências, nada muda. No entanto, em 2021 o jogo parece virar.

Somente agora as multinacionais tiveram sua iniquidade abalada por uma ação judicial nos Estados Unidos. A peça elaborada pela organização de direitos humanos International Rights Advocates (IRA) relaciona as empresas Nestlé, Mars e Hershey, além de Cargill, Mondelez e Barry Callebaut(16) ao tráfico de crianças, exploração do trabalho infantil e trabalho em condições análogas à escravidão, em países da África Ocidental.

Mesmo com denúncias desde 2005, é a primeira vez que a indústria do chocolate enfrenta este tipo de ação nos Estados Unidos.

Com o depoimento de 8 jovens do Mali, relatando o seu sequestro para trabalhar em plantações de cacau no país vizinho, Costa do Marfim, o texto da ação judicial argumenta que estes jovens representam milhares de outras crianças e jovens que se encontram na mesma situação.

Em um estudo elaborado pela Universidade de Chicago, apontou-se que entre 2018 e 2019, em Gana e Costa do Marfim, aproximadamente 43% da sua população de crianças e jovens, entre idades de 5 a 17 anos, trabalham em plantações de cacau, sob condições perigosas – como uso de facões e aplicação de pesticidas.(17)

Palavras talvez não sejam o suficiente para expressar o absurdo da situação. Então, vamos colocar em desenhos e gráficos:

Gráfico 01

A marca atual e assustadora de 1,56 milhões de crianças e jovens, somente nestes dois países, representa um aumento de 14% no trabalho infantil nas plantações, entre 2018 e 2019, e um aumento de produtividade para a produção de cacau em 62% no mesmo período(18).

Vale ressaltar que, em uma investigação feita pelo jornal estadunidense The Washington Post, estimou-se que a indústria global de chocolate movimenta cerca de US$103 bilhões em vendas anuais. Contudo, ao longo de 18 anos, o setor investiu um pouco mais de US$150 milhões para combater as violações de direitos humanos que envolvem a produção de cacau(19). Extrapolando os valores e dividindo por ano, este investimento da indústria equivaleria a 0,008% das suas vendas.

Gráfico_investimento

Você pode pensar “bem, os produtores de cacau devem lucrar muito”. Ledo engano. Os agricultores ganham, em média, de 45 a 47 centavos por dia. Este cenário de exploração degradante, somado à criação do AFCFTA – African Continental Free Trade Area (Zona de Comércio Livre Continental Africana), faz com que Gana seja um dos países a cogitar uma coibição de importações de cacau para a Suíça para iniciar uma produção própria de chocolates(20).

Além da crise humanitária alarmante, a produção de cacau nestes países da África Ocidental está relacionada a níveis altíssimos de desmatamento florestal(21). E o cacau não é o único insumo polêmico na produção do chocolate. O óleo de palma, que é amplamente usado na indústria alimentícia, também integra a lista de vilões do chocolate que causam devastação ao meio ambiente.

Curiosidade: O óleo de palma é muito conhecido e usado no Brasil. Aqui, chamamos de azeite de dendê. Ingrediente fundamental na culinária nordestina e nortista.

O cacau brasileiro: passado e futuro

 

Tudo pode parecer muito distante quando falamos em países africanos, do outro lado do Atlântico. Mas o Brasil mesmo já foi um dos maiores produtores de cacau do mundo. Com os primeiros registros de cacau na Bahia datados em meados de 1600, o Brasil teve o início do cultivo de cacau para fins comerciais em 1830, e, até os anos 90, passando por diversas mudanças sociopolíticas, a produção de cacau brasileiro ocupava as principais colocações em rankings de exportação(22).No entanto, um fungo veio para mudar tudo. A “vassoura de bruxa” dizimou as plantações de cacau na Bahia. Esta situação, somada à queda dos preços no mercado internacional da época, fez com que o setor sofresse uma grave crise(22) e não voltasse ao mesmo patamar. 

De acordo com uma publicação do Ministério da Agricultura, de 2019, o Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking mundial de produção de cacau(23), e existem muitas ambições do setor de retomar os primeiros lugares.

Esta sinalização de interesse deve acender alguns alertas. É bem verdade que os alimentos nativos do nosso país são diversos, abundantes e com um imenso potencial de comércio sustentável, por enquanto sub explorado. No entanto, há de se ter cuidado para não transformar essa valorização de alimentos brasileiros em um novo “boom de commodities”. 

Para existir um futuro saudável do Brasil dentro dos mercados de exportação de cacau, é preciso que se leve em conta os problemas socioambientais enfrentados pelos países que detém os maiores índices de produção. Afinal, aumentar vendas e produção com base em exploração infantil e desmatamento não deve ser um objetivo almejado, não é mesmo? Este alerta é importante, pois, ainda hoje, com uma produção consideravelmente menor do que Gana e Costa do Marfim, o Brasil ainda enfrenta diversas denúncias de trabalho análogo à escravidão em plantações de cacau(24).

Você já se perguntou se quem planta o cacau, chega a comer o chocolate(25)? A maioria das pessoas que prestam serviços de base no nosso país, infelizmente, não desfruta do produto do seu trabalho. E esta é uma realidade dura de alienação e expropriação da Vida.

No entanto, na contramão desta mentalidade hegemônica de produção e consumo, existem diversas iniciativas, e até mesmo empresas pequenas da indústria do chocolate, que prezam pela qualidade de vida e trabalho dos agricultores e do meio ambiente.

 

Chocolate que faz bem para as pessoas e o planeta

 

A maioria do cacau plantado no Brasil é cultivado em sistema cabruca, onde se preserva a vegetação nativa para auxiliar no crescimento dos cacaueiros. Apesar desta técnica não se restringir apenas a plantações orgânicas, é amplamente utilizada em produções orgânicas e agroecológicas.

O movimento da Reforma Agrária é um dos maravilhosos exemplos de cultivo de cacau e produção de chocolates ecológicos e de qualidade. Em movimentos como Teia dos Povos, Povos da Mata e o Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas (Ceta), muitos agricultores e agricultoras, que antes trabalhavam numa lógica de exploração, hoje são apresentados a um processo de trabalho emancipatório. Dos saberes de povos tradicionais para o cultivo do cacau, até à produção das barras de chocolate, os agricultores são incentivados a participarem de todas as etapas de produção(26).

Não basta ser “bean-to-bar” (do grão à barra) –  movimento de produção artesanal de chocolate, que visa uma cadeia curta de produção – para ter um chocolate de qualidade. A qualidade vai muito além do sabor. Por isso, separamos aqui algumas marcas brasileiras de chocolate que utilizam matéria prima orgânica e cacau de produção cabruca.

outros cacaus

Nem só de cacau se faz chocolate e nem só chocolate se faz do cacau.

Além das barrinhas doces, o cacau tem diversas outras potencialidades alimentares subutilizadas e, por isso, é considerado uma Planta Alimentícia Não Convencional. A polpa da fruta pode ser utilizada em diversas preparações. Talvez a mais conhecida delas seja o suco de cacau – que mesmo assim, não é muito popular em algumas regiões do Brasil. Somente no livro Guia das PANC(5), há três receitas diferentes preparadas com a polpa de cacau: geleia, bolo e salada de cacau verde.

Nesse sentido, como já abordamos anteriormente, se faz necessário observar que temos diversas espécies de cacau, para além das três variedades mais comercializadas pelos produtores de chocolate.

Esta biodiversidade também se expressa em outras variedades de “chocolates alternativos” que são comercializados. Os dois mais populares são:

Alfarroba

alfarroba

A alfarroba é um doce feito a partir das sementes de bagas da Alfarrobeira (Ceratonia siliqua), muito parecido com chocolate na aparência, que não leva adição de açúcar na produção, uma vez que as sementes já possuem sabor adocicado.

Cupulate

cupulate

O Cupulate é um doce muito parecido com o chocolate, feito a partir das sementes do Cupuaçu (Theobroma grandiflorum), fruta amazônica parente do Cacau (Theobroma cacao). O doce possui sabor um pouco mais ácido – característica predominante no sabor do cupuaçu – e é facilmente encontrado em versões veganas para consumo.

 

Não falamos aqui sobre a quantidade obscena de açúcar refinado encontrada na maioria dos chocolates, nem da extensa lista de aditivos químicos que a indústria utiliza, ou do contra-senso de muitos destes chocolates quase não terem cacau na sua composição.  

Nosso objetivo o de construir um contexto histórico para repercutir a ação judicial que escancara a iniquidade dos grandes conglomerados da indústria frente às assombrosas, históricas e recorrentes violações de direitos humanos, que somente agora começam a ser seriamente questionadas.

É muito simbólico e sintomático que esta atividade comercial tenha começado com o massacre dos povos mesoamericanos e até hoje rouba a vida de milhares de pessoas. A ação judicial movida pela International Rights Advocates (IRA) é um marco histórico com potencial de, pela primeira vez, abalar a indústria do chocolate a ponto de efetuar mudanças significativas. Que seja apenas o início, e que não pare no chocolate.

Fontes:

1) TED | The history of chocolate – Deanna Pucciarelli
https://ed.ted.com/lessons/the-history-of-chocolate-deanna-pucciarelli

2) Revista Galileu | Chocolate para todos os gostos
http://galileu.globo.com/edic/117/rep_chocolate.htm#:~:text=Estima%2Dse%20que%20foi%20do,que%20surgiu%20a%20palavra%20chocolate.&text=Em%201519%2C%20Cortez%20tomou%20contato,divino%2C%20que%20aumenta%20a%20resist%C3%AAncia.

3) History Stories | Chocolate’s Sweet History: From Elite Treat to Food for the Masses
https://www.history.com/news/the-sweet-history-of-chocolate

4) G1 | Reportagem
http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/09/pesquisa-diz-que-cacau-e-originario-da-amazonia-nao-da-america-central.html

5) KINUPP, Valdely Ferreira; LORENZI, Harri. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil –  Guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas, 2014.

6) Candy Industry | 2021 Global Top 100 Candy Companies | Candy Industry
https://www.candyindustry.com/2021/global-top-100-candy-companies

7) Phayanat | What are the different varieties of cacao?
https://chocolatephayanak.com/unkategorisiert/what-are-the-different-varieties-of-cacao/

8) Chocólatras Online | Chocolates premium serão como vinhos
https://chocolatrasonline.com.br/chocolates-premium-serao-como-vinhos/

9) Perfect Daily Grind | Getting to know the three main cacao varietieshttps://perfectdailygrind.com/2018/08/is-criollo-chocolate-really-king-the-myth-of-the-3-cacao-varieties/

10) Estadão | Chocolate rosa chega às lojas do Brasil e é tendência para 2019
https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,chocolate-rosa-chega-as-lojas-do-brasil-e-e-tendencia-para-2019,70002703349#:~:text=Apresentado%20como%20uma%20intensa%20experi%C3%AAncia,processadoras%20de%20cacau%20do%20mundo.&text=Os%20gr%C3%A3os%20do%20cacau%20que,no%20Brasil%20e%20no%20Equador.

11) BBC | A redescoberta da árvore de cacau responsável pelo ‘Rolex dos chocolates’
https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-52945424

12) Forbes | 10 países que mais consomem chocolate no mundo
https://forbes.com.br/listas/2015/07/10-paises-que-mais-consomem-chocolate-no-mundo/

13) CACAU FINO: conceitos e evolução no Brasil | Universidade Estadual de Santa Cruz
https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/ceplac/publicacoes/chocolates-finos-e-de-aroma/cacau-fino-conceitos-e-evolucao

14) Folha de São Paulo | Ação nos EUA liga indústria do chocolate a trabalho infantil na África
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/acao-nos-eua-liga-industria-do-chocolate-a-trabalho-infantil-na-africa.shtml?origin=folha

15) IMDB | The Dark Side of Chocolate
https://www.imdb.com/title/tt1773722/

16) Folha de S.Paulo | Ação nos EUA liga indústria do chocolate a trabalho infantil na África
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/acao-nos-eua-liga-industria-do-chocolate-a-trabalho-infantil-na-africa.shtml

17) NORC | Assessing Progress in Reducing Child Labor in Cocoa Growing Areas of Côte d’Ivoire and Ghana
https://www.norc.org/Research/Projects/Pages/assessing-progress-in-reducing-child-labor-in-cocoa-growing-areas-of-c%C3%B4te-d%E2%80%99ivoire-and-ghana.aspx

18) The Guardian | Chocolate industry slammed for failure to crack down on child labour
https://www.theguardian.com/global-development/2020/oct/20/chocolate-industry-slammed-for-failure-to-crack-down-on-child-labour

19) Folha de S.Paulo | Boa parte do chocolate que você compra começa com trabalho infantil
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/07/boa-parte-do-chocolate-que-voce-compra-comeca-com-trabalho-infantil.shtml

20) Jornal Clarin Brasil | Gana Opta Por Não Fornecer Mais Cacau Para A Suíça
https://jornalclarinbrasil.com.br/2021/03/13/gana-opta-por-nao-fornecer-mais-cacau-para-a-suica-e-pretende-o-proprio-pais-produzir-em-solo-africano-o-chocolate-mais-famoso-do-mundo/

21) ONU News | ONU alerta para impacto ambiental da produção de cacau 
https://news.un.org/pt/story/2019/04/1668941

22) Mercado do Cacau | História do Cacau
https://www.mercadodocacau.com.br/artigo/historia-do-cacau/rss.xml

23) Ministério da Agricultura | Brasil quer ganhar posições na produção mundial de cacau e chocolate
https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/brasil-quer-retomar-protagonismo-no-cenario-global-de-cacau-e-chocolate

24) Repórter Brasil | Monitor: O Trabalho escravo no Cacau da Bahia
https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Monitor-6-Cacau-PT.pdf

25) Hypeness | Eles produzem milhões de toneladas de cacau na Costa do Marfim, mas nunca tinham provado o resultado: chocolate.
https://www.hypeness.com.br/2014/09/produtores-de-cacau-da-costa-do-marfim-provam-chocolate-pela-primeira-vez/

26) O Joio e o Trigo |  Nascida da ‘Reforma Agrária’, a quarta geração do Cacau na Bahia
https://ojoioeotrigo.com.br/2019/10/nascida-da-reforma-agraria-a-quarta-geracao-do-cacau-na-bahia/

Conheça o Jambolão

Conheça o Jambolão

O jambolão (Syzygium cumini) é a nossa PANC de hoje. Trata-se de uma árvore originária da Índia, pertencente à família das Mirtaceae, assim como a jabuticabeira, a gabiroba, a pitangueira e o araçá. No Brasil, também é conhecido como jamelão, jalão, jambeiro, guapê e baga de freira.

A árvore do jambolão – que é frondejante, troncuda e ramosa – chega a cerca de 10 metros de altura e é muito comum nas cidades do Brasil como planta ornamental, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. Em Porto Alegre, por exemplo, há inúmeras árvores de jambolão nas ruas de todos os bairros da cidade. A capital gaúcha é uma grande plantação de jambolão!

Bem adaptada a climas tropicais, solos ricos em nutrientes e solo úmido ou pouco úmido, a árvore do jambolão produz uma quantidade enorme de flores brancas e frutos. Os frutos maduros do jambolão parecem bagas pretas, muito semelhantes às azeitonas e podem ser consumidos ao natural, direto no pé, ou transformado em geleias, doces, sorvete, bebidas fermentadas, vinho, frisante, licor, tintura e até em vinagre.

Muita gente não sabe o seu nome, mas o pequeno fruto ovóide arroxeado-escuro é conhecido por tingir as calçadas com sua cor e exalar seu cheiro, que atrai muitos pássaros e insetos. As pessoas também não têm o hábito de consumir os frutinhos do jambolão que têm gosto adstringente, mas consistência macia. Entretanto, as pessoas mais velhas que conhecem o fruto geralmente usam o chá das folhas da árvore com fins terapêuticos, devido às propriedades antioxidantes presentes nelas, que são ótimas para prevenir o envelhecimento e para fortalecer o sistema imunológico.

O pequeno fruto do jambolão é rico em vitamina C, fósforo, flavonoides e taninos, que são substâncias muito importantes para remediar doenças cardiovasculares e diferentes tipos de câncer. Acredita-se também que o jambolão melhora sintomas de prisão de ventre, diarreia, cólicas, gases intestinais, problemas no estômago e no pâncreas.

Outro potencial de uso do jambolão é a cocção da casca da árvore do jambolão, que apresenta propriedades anti-inflamatórias e anticarcinogênicas, assim como as folhas, que, acredita-se, provoca ação hipoglicemiante. E o chá da casca pode ser usado para aliviar processos inflamatórios. No entanto, não há evidências científicas de que os chás das folhas ou da casca de jambolão realmente tenham efeito anti-hiperglicêmico e/ou antidiabético. Já o extrato das folhas do jambolão apresenta ação antiviral, anticarcinogênica, antibacteriana e antialérgica.

As sementes, as folhas, os frutos e produtos derivados do jambolão podem ser encontrados em sites que comercializam sementes e mercadorias fitoterápicas. Mas se você passear pelas ruas de seu bairro e de sua cidade, há grandes chances de você se deparar com uma grande árvore de jambolão sobre a calçada ou em praças.

Texto por André Torresini

Algumas indicações de leitura sobre as propriedades terapêuticas do consumo do jambolão:

Ayyanar M, Subash-Babu P. Syzygium cumini (L.) Skeels: a review of its phytochemical constituents and traditional uses. Asian Pac J Trop Biomed. 2012. March;2(3):240–6. – PMC – PubMed.

Chagas VT, França LM, Malik S, Paes AM. Syzygium cumini (L.) Skeels: a prominent source of bioactive molecules against cardiometabolic diseases. Front Pharmacol. 2015. November;6:259. – PMC – PubMed.

LOGUERCIO, A. P. et al. Atividade antibacteriana de extrato hidro-alcólico de folhas de jambolão (Syzygium cumini (L.) Skeels). Ciência Rural, Santa Maria, v. 35, p.37-376, Mar./Abr. 2005.

Raza A, Butt MS. Iahtisham-Ul-Haq, Suleria HAR. Jamun (Syzygium cumini) Seed and Fruit Extract Attenuate Hyperglycemia in Diabetic Rats. Asian Pac J Trop Biomed. 2017;7(8):750–4.

Teixeira, Claudio Coimbra. Syzygium cumini (L.) Skeels no tratamento do diabetes melito tipo 2 : resultado de um ensaio clínico randomizado, controlado, duplo-cego e double-dummy. Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Medicina: Clínica Médica. 2004.

A maconha é PANC

A maconha é PANC

Por Kellen Vieira

Hoje dia 20/04, na lógica da data estadunidense, dia 04/20 é o dia dela, a que tem vários nomes e apelidos, extremamente popular e polêmica, e com toda certeza muito versátil: A Maconha!

Membro da família Cannabaceae que inclui 11 gêneros e mais de 170 espécies que inclui a Cannabis sativa, Cannabis ruderalis e Cannabis indica, não se sabe ao certo quem foram os primeiros a registrar os usos da Cannabis em sua cultura.

Há indícios que os chineses já utilizavam a Cannabis para fins medicinais, bem como o cânhamo para a confecção de papel. Também há registros do uso da planta na Índia durante a era védica e, por fim, existem alguns registros da presença da cannabis na Pérsia.

Independente disso, sabemos que a cannabis era utilizada como um medicamento, sendo registrado na primeira farmacopeia da história: o livro chinês Pen Tsao. Lá era indicado o uso para alívio de dores articulares.

Registros históricos também mencionam a presença do cânhamo na fabricação de tecidos, papéis, palitos, óleo, velas e cordas de navio desde a Grécia e Roma antiga até o período de expansão marítima. Inclusive, as velas e cordas das caravelas portuguesas que vieram para o que hoje é o Brasil, eram feitas de cânhamo.

Por sua versatilidade de uso, a maconha já foi um dos principais produtos agrícolas europeus, marcando o momento renascentista onde as telas eram feitas a partir do cânhamo. Nesse sentido, a palavra canvas, que significa tela em diversas línguas, tem origem na palavra cannabis.

Desde tecidos, papéis e até mesmo como fonte de energia, a Cannabis tem usos muito além do seu popular psicoativo, o THC – cujo uso, de acordo com pesquisas recentes, acontece há pelo menos 2,5 mil anos.

Um outro uso da verdinha, é o comestível: ela é super nutritiva, com grandes concentrações de ômega 3 e ômega 6. Além disso, é rica em proteínas e minerais. A sua semente, riquíssima em aminoácidos, ácidos graxos e proteína, é utilizada como ingrediente em pratos indianos como Bosa, Mura, Bangue e até mesmo em Chutneys. Algumas etnias sul-africanas também utilizam a semente na alimentação de bebês devido ao seu valor nutritivo.

Além da semente, as folhas também podem ser utilizadas para fazer desde infusões, até pratos mais elaborados como: Pesto, biscoitos, molho chimichurri e saladas.

É importante enfatizar que o THC, canabinóide responsável pelos efeitos psicoativos, estão presentes de maneira insignificante na semente e leve nas folhas, ou seja, o consumidor pode ficar tranquilo que não ficará “chapado”.

Talvez você já tenha ouvido falar de Cruzeta, no Rio Grande do Norte. Uma cidade pequena, que ficou famosa por uma matéria jornalística de 1996 que se popularizou nos últimos anos no YouTube. Na pequena e pacata cidade, vários habitantes faziam uso medicinal de uma planta conhecida por “liamba”, chegando a cultivá-la nos canteiros da cidade. Confira a matéria:

Em 2018, a BBC fez uma longa matéria sobre o caso na cidadezinha. A planta, que se tratava de uma variação de maconha, foi identificada por um policial que deu início a uma investigação na cidade. Os habitantes que faziam uso da planta, em sua maioria, eram idosos e ficaram muito assustados, com medo de serem presos. 

Portanto, apesar desse histórico de usos, atualmente a Cannabis não é legalizada no Brasil para o uso geral, então nada de plantar e dizer que é para botar na salada viu?

De qualquer forma, é importante que a gente abra o diálogo sobre o porquê uma planta é proibida. Mesmo que para tratamentos medicinais com eficiência comprovada em diversos países, como o excelente tratamento para epilepsia, por exemplo. Aqui no Brasil, pessoas enfrentam ações jurídicas para acessar medicamentos à base de cannabis. E, mesmo para o uso recreativo, é necessário questionar a quem serve o interesse de manter esse proibicionismo que trava uma guerra perdida e que leva o Brasil a índices exorbitantes de violência e mortes principalmente de corpos pretos e periféricos.

Fontes:

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2019/06/encontradas-evidencias-de-fumo-de-maconha-ha-25-mil-anos

O grande livro da cannabis: https://matonoprato.com.br/2019/12/04/maconha/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45475933#:~:text=A%20pequena%20cidade%20de%20Cruzeta,pra%C3%A7a%20e%20at%C3%A9%20no%20cemit%C3%A9rio.