Revisões de Literatura: guia introdutório

Revisões de Literatura: guia introdutório

Bruna de Oliviera

A proposta do presente escrito é sistematizar leituras referentes às diferentes possibilidades de desenvolvimento de revisão de literatura com o propósito de introduzir o tema para quem está dando seus primeiros passos na formação em pesquisa. 

Revisão de literatura é o primeiro passo a ser realizado em uma investigação científica. A revisão de literatura oportuniza o entendimento sobre o conhecimento produzido em determinado assunto. Contribui para que não haja “retrabalho” e/ou “duplicidade” com relação a trabalhos possíveis de serem realizados em universidades, institutos de pesquisa ou núcleos tecnológicos. Não há problemas em se replicar estudos já realizados, é por meio dessas ações que consolidamos métodos e protocolos de pesquisa, fortalecemos ou refutamos hipóteses, teorias e conceitos, a ciência também é formada por essas práticas. A questão é identificar como essa replicação pode contribuir para a continuidade do debate construído até o momento.

É reconhecido que a ciência não é um fenômeno linear evolutivo, diferentes matrizes de conhecimentos chegam em conclusões semelhantes, assim como, ramos próximos entre si podem se distanciar e/ou seguir caminhos diferentes conforme os processos e abordagens de estudos escolhidos. Em suma, perceber a importância dessa imersão para conhecer os percursos que pesquisadores e pesquisadoras já passaram em seus estudos e pesquisas nos permite trilhar nosso próprio caminho investigativo com mais segurança, além de também ser uma expressão de empatia e respeito aos acúmulos realizados na ciência até aqui. 

Reforçando, por meio de uma revisão de literatura bem realizada é possível:

  • Entender o conhecimento produzido em determinado tema;
  • Acompanhar a evolução das publicações publicadas na comunidade acadêmica;
  • Direcionar os horizontes de novos estudos e/ou pesquisas;
  • Respaldar decisões e/ou condutas profissionais, especialmente entre profissões do campo da saúde.

Por vezes, essa pode parecer uma tarefa fácil e/ou com pouca relevância. Contudo, é insipiente recorrermos apenas aos sites de busca com qualquer palavra para procurar o que queremos. Precisamos ter alguma garantia que nossa pesquisa está sendo abrangente o suficiente para a pesquisa que queremos desenvolver. Em função disso, uma boa revisão de literatura deve ser realizada a partir de alguns protocolos de busca. As metodologias de revisão de literatura são eficientes para garantir que o/a pesquisador/a não fará uma busca restrita a partir de fluxos espontâneos e/ou intuitivos de busca. Ela pode ser realizada a partir de diferentes metodologias com diferentes abrangências de análise entre elas. 

Há, pelo menos três possibilidades de revisão de literatura, são elas:

  1. Revisão bibliométrica;
  2. Revisão sistemática;
  3. Revisão integrativa.

Cada uma delas, tem seu nível de complexidade, abrangência de análise para compor o entendimento de como o assunto escolhido vem sendo trabalho ao longo dos anos. Em geral, essas são análises quantitativas que tangenciam aspectos qualitativos, ou seja, os dados analisados são secundários, oriundos das informações gerais dos documentos ou periódicos onde os artigos sao indexados. Na revisão bibliométrica, ocorre uma sistematização geral das informações obtidas a partir da busca de trabalhos por meio dos descritores e/ou palavras – chaves, desde o nome dos autores, formação, área de conhecimento do periódico, país língua, dependerá das motivações para realização da revisão. Os dados podem ser apresentados em formato de gráficos ou tabelas. 

Na revisão sistemática, esse dados são interpolados a fim de gerar análises quanto às tendências de estudos, categorias analíticas que surgem a partir da compilação de pesquisas semelhantes, seja pelo tema, objetivos ou métodos utilizados. Ambas as revisões bibliométrica e sistemática são utilizadas para ampliar e/ou consolidar a compreensão do comportamento de certo assunto. Tanto temas muito estudados quanto assuntos emergentes para esclarecimentos das ideias e construções conceituais. Essas revisões são como “platôs de observação” em recortes temáticos e de espaço-tempo determinados que nos permitem refletir de como avançar nas pesquisas. 

Já a revisão integrativa é considerada a mais ampla das revisões porque integra aspectos quantitativos e qualitativos dos trabalhos compilados. Esta última proposta de revisão vai além das informações gerais dos documentos, considera também conceitos, objetivos e métodos utilizados na literatura do tópico estabelecido para análise. 

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES

Aqui, apresentamos em tópicos as etapas possíveis para realização da revisão de literatura. Para aprofundamento sobre as etapas de cada revisão procure referência específica sobre cada uma. Ao final deste documento há algumas sugestões de leituras.

  1. Comece com a definição do tema/recorte e/ou problema a ser entendido;
  2. Identifique os melhores descritores, palavras chaves e/ou elementos de buscas que melhor se adequam aos trabalhos que se quer encontrar;
  3. Realize o levantamento dos bancos de dados e/ou plataformas de busca para encontrar os trabalhos;
  4. Estabeleça os critérios de inclusão e/ou exclusão dos trabalhos que irão compor seu banco de dados para descrição e análise conforme a metodologia da sua revisão;
  5. Defina quais elementos são pertinentes de serem descritos, analisados e/ou interpolados. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão de literatura, quando bem desenvolvida, é uma importante contribuição acadêmica tanto para quem a fez quanto para a comunidade científica que pode fazer uso dessa sistematização. Os trabalhos utilizados para elaboração deste documento apresentam diferentes possibilidades de apresentação dos dados coletados tanto em formato de tabelas quanto de gráficos. Você não precisa fazer uso de plataformas pagas de sistematização para realizar uma boa revisão de literatura, o primordial é ter clareza dos seus descritores e palavras chaves utilizadas para a busca, bem como, definir e registrar seus criterios de inclusao ou exclusao do banco para as posteriores análises. 

As metodologias de revisão de literatura citadas no texto podem ser utilizadas integradas, uma complementando os resultados da outra gerando uma revisão coesa, consistente e pertinente para o passos seguintes de estudos, pesquisas ou condutas profissionais. Espera-se que este resumo desmistifique o imaginário de dificuldade no desenvolvimento de uma revisão de literatura, como também, auxilie nas incursões para realização dessa etapa de pesquisa. 

LEITURAS UTILIZADAS

MEDEIROS, I. L. VIEIRA, A. BRAVIANO, G. GONÇALVES, B. S. Revisao Sistematica e Bibliometria facilitadas por um Canvas para visualizaçao da informaçao. Revista Brasileira de Desing da Informaçao – INFODESING. São Paulo, 2015

MOSCARDI, E. PINTO, M. GOMES, E. NAKATANI, M. O uso das revisoes bibliometrica, sistematica e integrativa de literatura para compreender o conceito de informacao turistica. Revista Turismo e Desenvolvimento.  São Paulo, 2017

RAVELLI, A. P. X. FERNANDES, G. C. M. BARBOSA, SIMÃO, E. SANTOS, S. M. A. MEIRELLES, B. H. S. A produção do conhecimento em enfermagem e envelhecimento: estudo bibliométrico. Revista Texto & Contexto Enfermagem. Florianópolis, 2009.

SAMPAIO, R. F. MANCINI, M. C. Estudo de revisão sistemática: um guia para síntese criteriosa da evidência científica. Revista Brasileira de Fisioterapia. São Carlos, 2007. 

TOLVES, T. RIGHI, G. A. BALBINOT, I. SIGNORI, L. U. SILVA, A. M. Bibliometria da fisioterapia no Brasil: uma análise baseada nas especialidades da profissão. Revista Fisioterapia e Pesquisa. São Paulo, 2016.

LEITURAS COMPLEMENTARES

  • Manual REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SISTEMÁTICA INTEGRATIVA: a pesquisa baseada em evidências | LINK DE ACESSO
  • Como fazer uma Revisão Sistemática & Análise Bibliométrica | LINK DE ACESSO 

Passo-a-passo para construção da Revisão Sistemática e Bibliométrica utilizando a ferramenta Endnote. V3.00 | LINK DE ACESSO

Uma porção de comida | lembretes culinários sobre chutney

Uma porção de comida | lembretes culinários sobre chutney

Frutas são, comumente, utilizadas no beneficiamento de alimentos em preparações doces. Geleias e compotas, por vezes, são as únicas possibilidades que pensamos quando nos deparamos com o excesso desses alimentos em casa.

Esse molho salgado abriu minha mente e paladar para encontrar novos sabores com frutas. O primeiro chutney que experimentei foi de manga. Pra mim que tenho preferência por pratos salgados a doces ou sobremesas foi uma grata aprendizagem a elaboração de chutneys no meu repertório culinário.

Uma criação indiana, chutney é um preparo a base de frutas ou legumes com muitos condimentos, pimenta e açúcar mascavo e vinagre. A palavra tem a mesma raiz que outras na língua persa que significa “uma porção de comida”. Uma porção de comida extremamente versátil que pode ser acompanhamento para petiscos ou molho para massas e recheios de pastéis ou assados. 

Com o desenvolvimento da linha de produtos ecológicos Nobis eu tenho me dado licença poética para misturar frutas e plantas alimentícias não convencionais nesse envolvente prato. Por que não utilizar mamão maduro em preparações salgadas? Não há preconceitos na minha cozinha e o mamão maduro foi base para o chutney de mamão com xique-xique (nome popular de uma espécie de cacto comestível).

Em São Paulo, simplesmente não encontrei mamão para refazer minha invenção. Também não encontrei nenhum lugar que pudesse coletar o cacto… Estaria minha produção perdida? Claro que não! A fruta mais barata que encontrei no mercado próximo a casa da minha amiga Alessandra (fundadora da Herbívora) foi o abacaxi. A ora-pro-nobis foi a companheira panc da vez para o novo preparo: chutney de abacaxi com ora-pro-nobis

Ao chegar em Porto Alegre, encontrei frutos de ora-pro-nobis e não muitas folhas. Quem está em abundância pela capital gaúcha é a bertalha linda que super ornou com o abacaxi que segue como fruta da estação nas regiões sul e sudeste.  

Hoje realizei uma oficina de preparações culinárias com no grupo de mulheres para geração de trabalho e renda na Aldeia da Fraternidade. Fizemos duas possibilidades de chutneys com mamão e abacaxi. Como essas são as últimas lembranças que tenho da receita, compartilharei os lembretes culinários para elaboração dessas preparações.

Lembretes culinários são memórias das etapas e ingredientes combinados para o desenvolvimento de qualquer receita. Eu não gosto de usar receita, tampouco gosto de passar receitas. Não porque eu seja egoistinha (aushuahush), mas porque eu mesma não sigo receita alguma ou anoto as quantidades certinhas de cada ingrediente nas comidas que faço. É o que eu chamo de culinária intuitiva, tenho vídeo falando sobre isso no canal amor do PorQueNão? – Mídia Interdependente. Chega de tagarelar, vamos aos lembretes culinários dos chutneys.

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Chutney de mamão com xique-xique

INGREDIENTES

1 mamão madura

5 ou 6 ‘mãos’ da palma

sal a gosto

suco de 1 limão

azeite de oliva

cebola roxa

alho

quantidade de água

pimenta do reino a gosto

páprica doce

PREPARAÇÃO

1. Descasque o mamão e o cacto

2. Corte em cubos pequenos

3. Aqueça uma panela com o azeite de oliva

4. Refogue os cubos de mamão e do xique-xique acrescentando os temperos

5. Acrescente água e tampe. Deixe ferver por alguns minutos, acrescente mais água

6. Acrescente o suco de limão

7. Envase 

DICAS

Você pode utilizar chimichurri como um dos temperos complementares nesta preparação

Utilize luvas para descascar o cacto, seus espinhos são bem pequenos e chatos de serem retirados da mão

Não se preocupe com a “baba” que surgirá na preparação, o cacto tem bastante viscosidade 

Não tenha pressa em apagar o fogo, quanto mais tempo ferver, mais os sabores se harmonizam

Chutney de abacaxi com bertalha

INGREDIENTES

1 abacaxi grande

bertalha

sal a gosto

suco de 1 limão 

azeite de oliva

cebola roxa

alho

quantidade de água 

pimenta do reino a gosto

açafrão

pimentão amarelo  

PREPARAÇÃO

1. Descasque o abacaxi

2. Corte em cubos pequenos

3. Corte a bertalha em tiras

4. Aqueça uma panela com azeite de oliva

5. Refogue a cebola roxa cortada em cubos pequenos, acrescente o alho e meio pimentão amarelo também cortado em cubos pequenos; acrescente a bertalha cortada em tiras

6. Acrescente o abacaxi cortado, refogue

7. Acrescente água e tampe. Deixe ferver por alguns minutos, acrescente mais água se necessário

7. Acrescente o suco de limão

8. Envase 

DICAS

Quanto mais maduro estiver o abacaxi melhor

Eu deixo ferver bastante mesmo. O bom são os pedacinhos se desmancharem em meio as borbulhas na panela

Você pode utilizar açafrão como tempero complementar dessa preparação

Fomes do Brasil: expressões sociais de uma doença global

Fomes do Brasil: expressões sociais de uma doença global

Bruna de Oliveira | 22 de julho de 2019

A declaração presidencial na última sexta feira, 20 de julho, é chocante mas não surpreendente. “Não se vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”, foi uma das afirmações de Bolsonaro em café da manhã com jornalistas. Não é uma surpresa o despreparo teórico e prático da atual gestão federal brasileira. Também, não é surpresa a ignorância de representações políticas sobre desigualdades sociais, especialmente na área da alimentação. Exemplo disso, foi a declaração do prefeito de São Paulo em 2017 que pessoas pobres não possuem hábitos alimentares.

| Leia também: Pobres têm hábitos alimentares? |

O título desse texto é uma afirmação e uma provocação. Existem mais formas de manifestação da fome do que o senso comum nos ensina. Assim como, fome não se restringe a falta de acesso de alimentos em corpos esqueléticos perambulando pelas ruas. Mais uma vez, o senso comum (e preconceituoso) se coloca como empecilho para avanços em políticas públicas de alimentação e nutrição na garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada – DHAA. 

Esta é uma tese que eu defendo com firmeza: todo mundo passa fome no mundo. Não é preciosismo ou discurso populista a diferenciação das diversas fomes que pintam cenas alimentares dos povos no mundo. Você já pensou sobre isso?

Se afirmamos que a maioria das pessoas no globo passam fome hoje, você acreditaria? Por um lado você pode concordar, pensando que fome é sinônimo de apetite e/ou vontade de comer, todo mundo tem fome todos os dias. Este é um tipo de fome, é definido como fome aguda. Ok, até aí, tudo certo. Quando estamos com fome, abrimos a geladeira de casa ou vamos à uma padaria e saciamos nossa vontade.

Precisamos lembrar que não são todas as pessoas que possuem recursos para adquirir seu alimento. Nesse sentido, se uma pessoa fica com fome por muito tempo e/ou não sacia em quantidade suficiente seu apetite e necessidades biológicas de manutenção da vida, essa fome é chamada crônica. Existe ainda uma terceira hipótese com duas situações: eu tenho algum recurso para comprar comida, mas não o suficiente para consumir várias opções, ou; eu tenho recursos para comprar a comida que eu quiser e opto por consumir alimentos que não tomem muito do pouco tempo de uma rotina agitada e estressante em uma metrópole.

Essas duas histórias contam com um elemento em comum: uma alimentação não adequada. Hábitos alimentares monótonos e/ou em quantidade insuficiente para suprir necessidades nutricionais de uma pessoa gera o que estudiosos chamam de fome oculta. As fomes oculta e crônica são estados nutricionais que se desdobram tanto por um viés da desnutrição, quanto pode se expressar em subnutrição ou obesidade.

Três fotografias de um mesmo fenômeno, três fotografias que retratam as fomes do mundo. Quem dera que as lutas de combate à fome ocorresse apenas no âmbito da fome aguda! Assim, entramos em um “diálogo perigoso” como diria Josué de Castro, médico profeta que teve a ousadia de marcar a sociedade com seus estudos sobre fome no Brasil. Há 72 anos, em sua obra Geografia da fome, Josué demonstrou a influência dos fatores socioeconômicos sobre os fatores biológicos da nossa população, através da deficiência alimentar e da predominância de interesses privados sob os coletivos.  

A fome não se limita a uma enfermidade biológica, mas sim é uma doença social fruto da má distribuição de alimentos no globo; do sistema agroalimentar super mecanizado e dependente de agroquímicos, e; de uma indústria alimentícia preocupada no excessivo consumo de seus produtos, muitas vezes, não saudáveis. Em suma, a fome é um desdobramento social da forma como a cadeia de produção de alimentos opera hoje, embasada nos princípios do capitalismo corporativista, sistema político econômico que consome nossos dias.

É importante ressaltar que ambos os quadros (obesidade e desnutrição) são graves e evocam múltiplos olhares para o planejamento e execução de estratégias que em uma primeira instância os reduzam e – em melhores perspectivas – efetivem sua devida erradicação. Esse adoecimento generalizado é gerado em decorrência de inúmeros fatores, tais como o processamento de alimentos pela indústria alimentícia, o uso excessivo e descontrolável de agrotóxicos na agricultura e as monoculturas que massificam e monotonizam a alimentação das pessoas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization) estima que cerca de 820 milhões de pessoas em todo o mundo não tiveram acesso suficiente a alimentos em 2018, frente a 811 milhões no ano anterior, no terceiro ano consecutivo de aumento (versão em inglês). Especialmente na América Latina e no Caribe, estima-se que a fome afeta 42,5 milhões de pessoas

Queda livre

Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization). Isso significa que menos de 5% da população brasileira ainda encontraram-se com seu direito ainda violado. Você pode entender como políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA; Política Nacional de Alimentação Escolar – PNAN; e, o fortalecimento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA desde sua retomada em 2003 e posterior extinção neste ano. Acesse aqui o relatório que descreve as iniciativas brasileiras para combate à fome consideradas relevantes e replicáveis para outros países. Isso não é pouca coisa, ta okey? 

Lamentavelmente, em 2018, retornamos a esse diagrama que apresenta o prognóstico não positivo para a Segurança Alimentar e Nutricional deste paí. 5,2 milhões de brasileiros e brasileiras não tem o que comer todos os dias segundo este relatório.   

| Leia também: ‘Sem merenda: quando férias escolares significam fome no Brasil’ – BBC |

Preciso pegar um fôlego para continuar… são tantos elementos que explicitam a imensidão de direitos violados não somente de acesso à alimentos, mas em diferentes elos do sistema alimentar atual suprimidos pela avalanche da bancada ruralista e os defensores do agronegócio brasileiro.

Em 200 dias, o governo Bolsonaro autorizou o uso de mais de 239 agrotóxicos no mercado, isso é mais do que países europeus autorizaram ao longo de 8 anos. Há muitas pesquisas que apresentam os difíceis enredos enfrentados por agricultores familiares, trabalhadores rurais, povos e comunidades tradicionais. Depois do Dossiê Abrasco, a publicação mais recente que denunciam o impacto dos agrotóxicos no país é o Atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, de autoria da pesquisadora Larissa Lambardi. Os agrotóxicos fazem parte de um pacote tecnológico que mata diariamente, seja no campo, seja na cidade; seja a fome que for: pela falta ou pela contaminação; pela escassez ou pelo excesso artificial que passa deixando resíduos no organismo humano e planetário.

Todos passamos fome. Tão drástica quanto a inanição biológica é a cabeça vazia de uma consciência comunitária mínima que abre margem para práticas tão perversas este governo tem feito a este país. 

 

ALIMENTAÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS: SAIBA COMO COMPRAR, COZINHAR E COMER EM UM MUNDO EM AQUECIMENTO GLOBAL

ALIMENTAÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS: SAIBA COMO COMPRAR, COZINHAR E COMER EM UM MUNDO EM AQUECIMENTO GLOBAL

Traduzido por: Kellen Vieira

Este texto é uma tradução da matéria “Your Questions About Food and Climate Change, Answered” publicada no The New York Times em abril de 2019. Acesse a matéria original aqui. A publicação deste texto tem o objetivo de levantar o debate quanto a relação de como nossas práticas alimentares impactam o ambiente e as mudanças climáticas. As opiniões, em sua totalidade, não representam as opiniões da Crioula – Curadoria Alimentar. As afirmações e opiniões são de responsabilidade da equipe autora da matéria.

Uma grande fotografia sobre comida e mudanças climáticas

Tudo o que comemos colabora para as mudanças climáticas no planeta? Sim! O sistema alimentar global é responsável por, aproximadamente, um quarto dos problemas ambientais, incluindo a liberação de gases do efeito estufa que os humanos produzem a cada ano. Isso tudo, considerando a pecuária e a agricultura. Então, todas as plantas, animais e/ou seus derivados que consumimos (carne, frango, peixe, leite, lentilha, milho, entre outros), assim como as etapas desta cadeia: cultivo, processamento, armazenamento e transporte de alimentos aos mercados, em todo o mundo, fazem parte dessa cadeia. Se você come comida, você faz parte desse sistema.

Existem, pelo menos, 4 grandes exemplos de como nossa alimentação cotidiana contribui para o aquecimento global:

  1. Quando florestas são derrubadas para dar espaço para fazendas agropecuárias – e isso acontece diariamente em algumas partes do mundo – grandes quantidades de gases de carbono são lançados na atmosfera, e adoecem o planeta; 
  2. Quando vacas, ovelhas e cabras digerem seus alimentos, elas liberam metano, outro potente gás do efeito estufa que contribui para as mudanças climáticas; 
  3. Produção de alimento para animais e arrozais também são grandes fontes de liberação de metano. E finalmente,
  4. os combustíveis fósseis que são usados para operar o maquinário das fazendas. Eles que fazem a fertilização e distribuem o alimento pelo globo,e  cada um deles emite gases.

Os alimentos que geram maior impacto ambiental já foram identificados: carnes e laticínios, particularmente os das vacas, têm um maior impacto. O gado libera uma quantia de cerca de 14.5% dos gases de efeito estufa mundial a cada ano. Isso é mais ou menos equivalente à  emissão vinda de carros, caminhões, aviões e navios juntos, no mundo, atualmente.

Em geral, carne bovina e de ovelha tem o maior impacto climático por grama de proteína, enquanto plantas, se comparadas ao mesmo nível de proteínas de origem animal, tendem a ter um menor impacto. Porco e frango estão em limiar intermediário plantas e carne bovina. Um grande estudo publicado ano passado no periódico Science calcula a média de gases do efeito estufa emitido por diferentes comidas. 

Agora, isso são apenas médias. As carnes produzidas nos Estados Unidos produzem menos emissões do que a carne do Brasil ou da Argentina. Certamente queijos podem ter um maior impacto na emissão de gases do efeito estufa do que a carne de ovelha. E alguns especialistas pensam que esses números podem subestimar o impacto da degradação florestal associada à plantações e criações.

Mas a maioria dos estudos concordam com essa hierarquia: Uma alimentação baseada em plantas, geralmente, tem um menor impacto do que com consumo de carnes. E a carne de boi e ovelha são as piores, de acordo com  uma considerável parcela de estudiosos.

Existe alguma escolha alimentar simples que eu possa fazer para reduzir nosso impacto no clima? Consumindo menos carne vermelha e laticínios iremos, automaticamente, gerar um grande impacto para maioria das pessoas em países ricos. Isso não significa necessariamente virar vegano. Só precisamos consumir menos os alimentos que têm maior impacto ambiental, como carne de boi, de ovelha e queijo. Se procurarmos por substitutos: porco, frango, ovos e moluscos, geraremos menos impacto. Mas, certamente, uma alimentação com base vegetal – por plantas como feijões, lentilhas e soja -, tendem a ser mais “amigas do clima” do que as demais opções.

O quanto mudar nossa alimentação é algo que varia de pessoa para pessoa? Alguns estudos têm concluído que pessoas que normalmente tem uma “dieta pesada” – incluindo a maior parte da população dos Estados Unidos e Europa –. Poderíamos diminuir o impacto ambiental alimentar se um terço ou mais da população adotasse uma dieta vegetariana. Se abríssememos mão de laticínios a redução seria ainda maior. 

Mas se não quisermos ir tão longe, ainda há maneiras de diminuir nosso impacto individual. Basta comermos menos carne e laticínios e mais plantas, isso pode reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Cortando a carne vermelha, em particular, poderíamos produzir uma surpreendente diferença: de acordo com a análise da World Resources Institute (Instituto de Recursos Mundiais), se em média os americanos substituíssem um terço da carne de gado que comem por porco, pato (ave de capoeira) ou legumes, iriam diminuir em torno de 13% a emissão relacionada à alimentação..

No entanto, precisamos manter em mente que consumo alimentar de uma pessoa, é apenas uma pequena fração do impacto ambiental em um todo, ainda tem: dirigir, voar e a energia elétrica para se considerar. Mas mudanças na dieta são frequentemente uma das formas mais rápidas para muitas pessoas modificarem seus impactos no planeta.

Calma! Cada um de nós é apenas uma pessoa. É verdade que uma única pessoa pode fazer uma minúscula modificação no panorama global do problema climático do planeta. Esso é um grande problema que requer ações de larga escala e políticas públicas de mudanças locais. Os alimentos não são o maior contribuinte para o aquecimento global: a maioria é causada por queima de combustíveis fósseis para eletricidade, transportes e indústrias. Por outro lado, se muitas pessoas, coletivamente, fizerem alterações nas suas dietas, poderíamos começar alguma mudança real.

Cientistas têm alertado que nós precisaremos diminuir o impacto climático da agricultura em até dez anos se nós quisermos o aquecimento global “sob controle”, principalmente com o crescimento populacional global. Para isso acontecer, agricultores e criadores vão precisar encontrar meios para diminuir seus impactos e se tornar muito mais eficientes, plantando mais comida em menos terra, a fim de diminuir o desmatamentode florestas. No entanto, especialistas s também têm argumentado que se aqueles que comem carnes “mais pesadas” (boi e ovelha) diminuírem comendo essas ditas “mais leves”, moderadamente, ajudariam a liberar mais terras para alimentar outras pessoas.

Vamos olhar esse cenário em profundidade? Abaixo estão descritas questões emblemáticas sobre algumas categorias alimentares: carnes; peixes e frutos do mar; leites e derivados; plantas; consumo e desperdício alimentar. 

CARNE

Por que a carne tem um grande impacto climático?

Pense sobre essa perspectiva: É mais eficiente plantar para humanos comerem, do que plantar para animais comerem e esses animais servirem de alimento para humanos. Um estudo recente da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) conclui que, em média, é preciso 1,4Kg de plantas para produzir 0.45 gramas de carne.

Isso ao pé a história inteira. Na defesa de vacas, frangos, porcos, eles se alimentam de muitas coisas que humanos, por outro lado, não comem, como gramíneas ou resíduos de plantações. E a carne pode ser rica em nutrientes essenciais como ferro e proteína, mas em geral, demanda mais terra, energia e água para produzir 0.45 gramas de proteína animal do que a mesma quantidade de proteína de origem vegetal..

Carne de boi e ovelha , em especial, provocam um grande impacto ambiental por outra razão: Os estômagos dos bois e ovelhas contém uma bactéria que auxiliam na digestão de grama e outros alimentos. Contudo,essa bactéria cria metano, um potente gás do efeito estufa, e esse gás é liberado através das flatulências.

Tem problema nas formas como as vacas são criadas?

Sim. Vários gados nos Estados Unidos são criados em pastos que não deveriam ser usados de outras maneiras, mas em países como Brasil e Bolívia, países que são os maiores em exportação de carne, a história é outra. Tem, milhares de acres de florestas que foram queimadas para criar mais espaço para a criação de gado.

Estudos têm apontado que, como um resultado, a carne do Brasil pode ter 10 vezes mais impacto climático do que a carne dos Estados Unidos. Mesmo dentro dos Estados Unidos, pode haver uma variação significante no impacto climático das criações de gado, dependendo de fatores climáticos locais e dos métodos de criação do gado. Infelizmente, para esse tipo de informação ser usada pelos consumidores, necessitaríamos de muito mais detalhes dessa pesquisa do que existe hoje.

E sobre a técnica “grass fed”?

Nos Estados unidos, a maioria das criações passam o primeiro ano em pastagens se alimentando de gramíneas Depois disso, são movidos para um criadouro para uma fase de engorda à base de rações. Em contraste o “grass-fed” ou “grass-fininshed” o gado continua pastando por toda sua vida até o momento do abate.

Alguns cientistas afirmam que a carne “grass-fininshed” pode ser uma opção mais sustentável: Com uma criação no pasto, se tem estímulos para que a grama cresça com raízes mais profundas e que sequestrem mais carbono dentro do solo, ajudando a diminuir o impacto climático do gado. Contudo, por outro lado, com a criação por “grass-fininshed”, o animal cresce mais devagar e, consequentemente, demora mais tempo para o abate. Isso significa que o gado libera, por mais tempo, metano na atmosfera. Nesse contexto, alguns estudantes sugerem que o “grass-fed” pode ser ainda pior para o clima, no entanto, apesar de tudo, esse debate ainda está em voga..

Por enquanto é difícil dizer com certeza se a técnica “grass-fininshed” é menos prejudicial às mudanças climáticas do que a criação convencional de carne.

E os frangos?

Alguns estudos têm apontado que frangos e outras aves geram um menor impacto climático do que outras criações animais. Nos dias atuais, frangos são criados de forma extremamente eficiente, no que diz respeito à conversão da alimentação em carne.. Isso não significa que frangos são perfeitos: A escala industrial de produção de aves continua a gerar poluição e têm provocado um grande debate sobre o bem-estar animal. Entretanto, se você está unicamente focado nas mudanças climáticas, aves geralmente produzem bem menos emissões de gases do que gado e ovelhas, e um pouco menos do que suínos.

Os humanos deveriam parar de comer carne de uma vez por todas?

Não necessariamente. Alguns especialistas argumentam que uma dieta sustentável continua incluindo plantas e animais. Vacas e outras criações, apesar de tudo, podem ser criadas em pastos impróprios para cultivo de plantas, considerando que o gado se alimenta de espécies de plantas não são utilizadas para o nosso consumo. Eles produzem esterco que pode ser utilizado como fertilizante. E a criação animal provê o sustento de 1,3 bilhões de pessoas pelo mundo. Em vários países, carne, ovo e leite são fontes vitais de nutrição quando não há boas alternativas disponíveis.

Por consequência existem também milhões de pessoas pelo mundo – em lugares como Estados Unidos, Europa e Austrália – que habitualmente consomem mais carne do que necessitam para uma dieta saudável, de acordo com uma reportagem recente na revista científica de medicina “The Lancet”. E se nós queremos alimentar uma população crescente, sem aumentar o aquecimento global ou aumentar a degradação de florestas, seria necessário, e faria diferença, se diminuíssemos o consumo de carnes como as de gado e ovelha.

E sobre a carne falsa?

Algumas plantas podem ser substitutas da carne, como os produtos da “Impossible Meat” e da “Beyond Meat”, que são cada vez mais presentes em supermercados e também em redes de fast foods. Feitos a partir de vegetais, amidos, óleos e proteínas sintéticas, esses produtos são uma tentativa de imitar o gosto e textura da carne, mais do que os substitutos tradicionais como tofu e seitan.

O julgamento sobre o impacto desses produtos na saúde humana ainda está em aberto, e eles aparentam ter um menor impacto: um estudo recente estima que a Beyond Meat tem apenas um décimo de impacto climático do hambúrguer de carne bovina.

No futuro, pesquisadores estarão aptos para desenvolver carne real a partir de culturas celulares animais. – O trabalho é desenvolvido por esse princípio. Mas ainda é muito cedo para dizer quão isso ajudará a diminuir os impactos climáticos, até porque a produção da cultura celular da carne demandará muita energia.

Há outras formas da carne poder ser menos prejudicial para o clima?

Sim. Se a produção de carne global for mais eficiente, produtores e criadores estarão aptos a alimentar mais pessoas enquanto reduzem a emissão de gases.

Isso já ocorre em países como os Estados Unidos. Por exemplo, o país produz mais carne hoje do que em 1975, mesmo considerando que os números totais de criações tenham caído um terço. Avanços genéticos dos animais, da medicina veterinária, na qualidade da alimentação dos animais e na interação animal com o meio ambiente já estão auxiliando a diminuição no impacto climático dos sistemas de criação animal no planeta, e ainda há muitas possibilidades de inovação. Alguns cientistas estão tentando compreender como fazer vacas produzirem menos metano com a introdução de algas marinhas e outros alimentos aditivados na alimentação bovina.

A partir do pressuposto que a população inteira não irá aderir a dieta vegetariana em um tempo breve, esses esforços irão ajudar a fazer um impacto mais sustentável da produção de carne.

Frutos do mar

Quais tipos de frutos do mar eu poderia comer?

Em geral a pesca tem um impacto climático relativamente pequeno,, sendo o maior impacto causado na queima de combustíveis dos barcos. Uma análise recente aponta que peixes de pesca que são mais populares – anchovas, sardinhas, arenque, atum e bacalhau – geram, em média, menos emissão de carbono do que frango ou porco. Moluscos, como ostras e vieiras, também são alternativas que emitem pouco carbono.

Vale observar que o camarão e a lagosta produzem mais carbono do que porcos ou frangos, pois pescá-los demanda maior gasto de combustível dos barcos.

Existe uma grande questão sobre toda a comida marinha, pois:  atualmente, o mundo já explorou o máximo possível – a maioria dos pescadores pescam da forma mais sustentável permitida, enquanto outros não. Então, esse não é um incentivador para o mundo consumir mais carne de peixe. Por enquanto você pode pesquisar estudos como Seafood Watch para verificar se o peixe que você consome é sustentável.

Os frutos do mar de cativeiro são uma boa alternativa a longo prazo?

Se nós formos comer mais frutos do mar nas próximas décadas, geraremos um aumento nas produções de frutos do mar em cativeiro, também chamada de piscicultura. Fazendas de peixes podem ser uma boa opção sem impactos climáticos, particularmente a produção de moluscos, mas não é uma constante. Esse fator frequentemente depende das práticas de criação e da localidade.

Em lugares como a Noruega, que possuem regulações de direito ambiental justas, fazendas piscicultoras tem baixo impacto climático. No entanto, em partes do sul da Ásia, produtores estão destruindo manguezais para produzir frutos do mar em cativeiro que produzem grandes emissões de gases do efeito estufa.. E algumas psiculturas na China produzem enormes quantidades de metano. Há muitas promessas de esforços para aprimorar as criações de peixes e fazer o processo produzir menos impactos, todavia ainda há um longo caminho a percorrer.

Como eu sei se determinada fazenda de piscicultura é boa ou má para o clima?

Existem vários grupos como o “Aquaculture Stewardship” e “Friend of the Sea” que certificam criadouros que aderem à práticas inovadoras para diminuírem seus impactos ambientais. O que pode ser um bom ponto de partida. Mas temos que ter cuidado: Há críticas apontando que esses métodos ainda não são ideais e tampouco nulos em relação aos impactos climáticos causados pelas técnicas de piscicultura. 

Um estudo recente aponta alguns tópicos gerais sobre fazendas de piscicultura: Fazendas de moluscos tendem a ser a opção com mais proteína e menos emissão de gases. Esse estudo também sugere que a criação de salmão tem, em comparação, um menor impacto do que o frango ou porco. Por outro lado, as fazendas de bagre e camarão requerem mais energia para a circulação da água, o que impacta muito mais no clima do que a carne bovina. Mas há muita variação de criadouro para criadouro.

Então qual a melhor opção que eu posso fazer dentre os frutos do mar?

Você pode incorporar mais moluscos na sua dieta. A maioria dos norte-americanos não comem isso em casa, mas moluscos e familiares são suculentos e mais fáceis de cozinhar do que você poderia imaginar.

Seja criado em cativeiro ou não, os peixes podem fornecer uma boa alternativa para um consumo com menor impacto climático. Todavia, vale lembrar que é importante pesquisar a origem do produto e verificar se este é certificado como sustentável.

Laticínios

Quanto o leite e queijo impactam mudanças climáticas?

Vários estudos indicam que o leite gera menos impacto ambiental que o frango, ovos e porco por grama de proteína. Iogurte, queijo cottage e cream cheese são similares ao leite.

No entanto, vários outros tipos de queijo, como cheddar ou mozzarella, podem ter um maior impacto climático do que frango ou porco, pois normalmente se utiliza 4,5 Kg de leite para fazer 0,45 gramas de queijo.

Pera aí, queijo pode ser pior que frango?

Isso vai depender do queijo. Mas genericamente falando, sim, se você decidir ser vegetariano e comer queijo ao invés de frango, seus impactos nas mudanças climáticas serão menores do que você espera.

Tem algum tipo de leite que é melhor do que os outros? Eu pago muito caro por leite orgânico.

A resposta rápida é: você não pode considerar o leite orgânico como sendo melhor para diminuir impacto climático.

Nos Estados unidos, esse termo “orgânico” no  leite, só significa que as vacas pastaram apenas 30% do seu tempo de vida, que não foram tratadas nem com hormônios ou com antibióticos, e ainda que se alimentaram de nutrientes sem fertilizantes sintéticos ou agrotóxicos. Apesar desse fato ser reconhecido por várias pessoas, não há reconhecimento de que uma criação orgânica cause menos danos ao clima em relação a uma fazenda convencional.

Em arquivos e estudos não há uma concordância se as fazendas de produção de laticínio orgânicas produzem mais, menos ou a mesma quantia de gases do efeito estufa do que as fazendas convencionais, por galão de leite. Esse fato vai alternar de fazenda para fazenda. O problema é que não há nada sobre a produção orgânica que nos aponte para uma especificidade sobre o impacto climático do produto de leite que você está adquirindo.

Quais alternativas de leite de origem não animal é a melhor?

Leite de amêndoa, aveia e soja produzem uma menos gás do efeito estufa do que o leite de vaca. Mas, como tudo, há ressalvas e exceções a serem consideradas. Amêndoa requer muita água para crescer, o que pode ser um problema em regiões mais secas. Leite de soja tende a ser menos impactante, no entanto a soja, por sua vez, contribui para uma grande indústria latifundiária.

Plantas

Então vocês afirmam que eu deveria adotar uma dieta vegana?

Se você estiver interessado em tomar a decisão de adotar a dieta vegana, ela causa um impacto climático menor.

Eu não gosto de comida vegana. O que eu poderia comer?

Se você gosta de macarrão com molho de tomate, homus, torrada de abacate ou pasta de amendoim com geleia, você, na verdade, gosta de algumas comidas veganas. Para algumas pessoas, é difícil de conceber a adoção der uma dieta inteiramente vegana. Há também a alegação de que, na dieta vegana, é necessário adotar substitutos para a carne como o tofu, mas isso não é verdade: existem muitas proteínas no feijão, grãos e avelãs. E quanto mais as pessoas se tornarem vegetarianas, versões de alimentos como sorvetes, manteigas e hambúrgueres vegetais serão aprimoradas para a comercialização.. Para aqueles que gostam de cozinhar em casa, o desafio seria produzir uma comida vegana para que todos na mesa comam.

Eu não acho que eu consigo ser completamente vegano. O que mais eu posso tentar?

Uma alternativa é diminuir o consumo de carne e laticínios e aumentar os de proteína vegetal como feijão, legumes, leguminosas e grãos.

Você pode se tornar vegetariano e cortar as carnes: gado, ovelha, frango, porco e peixes. A vantagem aqui é que as regras são simples e há várias alternativas vegetarianas em mercados e restaurantes.

Adicionar apenas frutos do mar em uma dieta vegetariana também pode ser um bom compromisso e uma boa maneira de adicionar proteínas na sua refeição.

Para manter alguma comida convencional na sua dieta, tentar substituir a carne vermelha por frango, porco, peixe ou plantas, é a alternativa mais flexível.Todavia, significa que você terá de realizar uma mudança gradual e continuar verificação de origem dos alimentos que você consome.

A produção orgânica é realmente melhor do que a produção convencional?

A produção orgânica não utiliza fertilizantes sintéticos nem agrotóxicos, o que muitos consideram essencial. No entanto, isso não significa necessariamente que a produção é melhor de uma perspectiva climática. Na verdade pode ser um pouco pior – fazendas orgânicas demandam mais terras do que fazendas convencionais. O que significa que fazendas orgânicas podem variar o impacto de lugar para lugar, e o selo orgânico não dá uma informação precisa sobre a emissão de carbono daquela produção.

Eu devo me preocupar se o produto está de acordo com o clima local e sazonal?

Em geral, o que você come importa mais do que de onde o produto vem, desde que o transporte impacte apenas 6% no impacto climático total do que você está comendo. Então, há algumas considerações a serem feitas.

Aldo que está na época de colheita Quando os alimentos são sazonais, e ,você compra diretamente do produtor ou no mercado, geralmente é uma boa escolha.

As coisas são mais complicadas se estão fora da época de consumo. Algumas frutas e vegetais são transportadas por avião que tem um violento impacto nas emissões de carbono. No inverno isso inclui aspargo e mirtilo – e outros produtos perecíveis em geral produtos perecíveis que precisam ser transportados rapidamente por grandes distâncias. Por outro lado, maçãs, laranjas e bananas, podem ser transportadas por navios, que são menos impactantes. Muitos dos vegetais que são de locais de clima frio, como batatas e cenouras, podem ser estocadas depois da colheita de outono e se conservarem durante o inverno.

Em alguns casos, isso pode ser uma vantagem para comidas que são transportadas para outros locais. Por exemplo, se você vive no norte dos Estados Unidos, pode ser melhor comprar tomates vindos da Califórnia ou Flórida, do que comprar uma variedade local que foi produzida com o uso intensivo de energia em uma estufa.

Compra e desperdício de alimento

O desperdício de comida é uma grande parte dos problemas climáticos?

Sim. Há algumas estimativas de que os norte-americanos descartam pelo menos 20% de toda comida que compram. Isso significa que toda energia usada para a produção desses alimentos também é desperdiçada. E, se você compra mais comida do que consome, seu impacto climático é maior que a média. Portanto, minimizar desperdícios pode ser uma boa estratégia para diminuir emissões de gases do efeito estufa.

Como eu posso reduzir meu desperdício de alimentos?

Existem diversas possibilidades. Se você cozinha, comece planejando a refeição: nos finais de semana, separe 20 minutos para planejar três jantares para a semana. Assim você irá comprar apenas os alimentos que você planeja cozinhar. O mesmo se aplica se você vai comer fora de casa: Não peça mais do que irá consumir. Além disso, você também pode cortar e lavar os produtos antes de guardar, para torná-los mais eficientes na hora de usar. Esteja ciente do que você armazena na geladeira para não deixar nada estragar.

Também vale lembrar que alimentos “vencidos” não significam que são inadequados para o consumo.. Geralmente essa data é uma sugestão de garantia da permanência da qualidade. Muitos alimentos (com exceção de leites e papinhas de bebê) podem ser consumidos de forma segura após essa data.

Eu deveria ter uma composteira?

Se você tem condições de tê-la, não é uma má ideia. Quando a comida é jogada em aterros sanitários com outros tipos de lixos, ela se decompõe e libera metano na atmosfera, um dos gases que causam aquecimento global. Nesse sentido, várias cidades já adotam um sistema de captura do metano, reciclando para gerar energia, mas esse fato não se aplica à maioria..

Quando a decomposição é feita da maneira correta, o material orgânico descartado é convertido em composto que ajuda no crescimento de outras plantas e a produção de metano é significativamente reduzida. Algumas cidades, como Nova Iorque, iniciaram programas de coleta seletiva. Também da iniciativa de constituir composteira caseira.

Eu deveria usar sacolas plásticas ou de papel?

Aparentemente as sacolas de papel são um pouco menos piores, numa perspectiva de emissão de gases, se comparado as sacolas plásticas. Além disso, as sacolas plásticas não são facilmente recicladas e demoram muito mais tempo para se decompor. Mas em geral sacolas ocupam 5% da emissão global relacionada à comida. O que você come é um problema muito maior do que a embalagem do produto.

Nesse sentido, é uma ideia muito boa reutilizar sacolas que você já tem ou comprar sacolas reutilizáveis (contanto que você as mantenha e as utilize frequentemente). Você também pode minimizar o uso de embalagens plásticas quando escolhe o produto. Plásticos como garrafas de refrigerantes ou leite, são mais difíceis de evitar, em contrapartida essas podem ser facilmente recicladas.

A reciclagem realmente faz alguma diferença?

A reciclagem pode ajudar, mas não é tão efetiva quanto a redução de consumo num primeiro momento. Reciclar alumínio, plástico e papel pode reduzir energia e gases emissores, no entanto, se certifique de quee você está separando o lixo devidamente; siga essas dicas para ter certeza se os recicláveis da sua casa não estão sendo encaminhados para o aterro sanitário.

Por que não há explicações nos mercados ou embalagens de alimento sobre o impacto climático dos alimentos?

Alguns experts argumentam a obrigatoriedade de rótulos ambientais em produtos alimentares, assim como tem dados nutricionais. Teoricamente, esses rótulos ajudariam consumidores interessados em consumir produtos com menor impacto e proporcionaria aos produtores um maior incentivo para diminuir seus impactos ambientais e climáticos.

Um estudo recente do jornal “The Science” sugere que, aparentemente,produtos quesão similares podem ter grandes diferenças nos impactos climáticos, dependendo dos processos de produção. Por exemplo,  comer uma barra de chocolate pode ter o mesmo impacto ambiental que dirigir um carro por 30 milhas – se florestas foram devastadas para o crescimento do cacau –, enquanto outra barra pode ter bem menos impacto ambiental. Entretanto, não há mais detalhes do que já temos hoje, e é bem difícil para o consumidor saber a diferença.

Isso significa que uma pesquisa detalhada sobre os impactos do produto requer muito mais monitoramento e cálculos sobre as emissões de gases. Somente dessa forma poderemos aprofundar ainda mais os esforços para implantar um sistema capaz de sanar essas necessidades. Por enquanto, mais consumidores irão seguir regras gerais e dicas desse artigo.

Informações complementares

  • A agricultura moderna inevitavelmente contribui para as mudanças climáticas, todavia algumas comidas têm maior impacto que outras. Carne de boi, ovelha e queijo são os que causam mais impacto. Porco, frango e ovos estão no meio. Plantas de todos os tipos tem o menor impacto.
  • O que você come importa muito mais do que se é local, orgânico ou o tipo de embalagem utilizada no produto ou para levá-lo para sua casa.
  • Você não tem que desistir de comer carne completamente para fazer diferença. Mesmo pequenas coisas como comer menos carne e mais plantas, ou substituindo carne vermelha por branca, pode reduzir o impacto climático do que você consome.
  • Uma maneira simples de diminuir seu impacto na emissão de gases através da comida é evitar o desperdícios. Comprando apenas o que você realmente irá consumir – em vez de descartar – significa que a energia usada para produzir seu alimento será usada de modo eficiente.

 

HÁ OUTROS CAMINHOS? PARTE 2 | CONHEÇA AS ESPÉCIES NEGLIGENCIADAS OU SUBUTILIZADAS

HÁ OUTROS CAMINHOS? PARTE 2 | CONHEÇA AS ESPÉCIES NEGLIGENCIADAS OU SUBUTILIZADAS

Traduzido por: Mariana Pianissolla

Este texto é uma parte da PUBLICAÇÃO ‘NUS – Fighting Poverty, Hunger and Malnutrition with Neglected and Underutilized Species’ , publicação da organização de pesquisa para o desenvolvimento ‘Bioviversity International’ em 2003. Versão original disponível aqui.

Introdução

“Natureza é recompensa” é uma expressão que não precisa de definição. É a natureza que nos alimenta, nos veste, nos esquenta, nos abriga, define nossos meios de subsistências e subsidia a cultura das populações humanas. Toda essa recompensa descansa na vida do planeta, a vida de todos os animais, incluindo os humanos, dependem da natureza. Aproximadamente 30.000 espécies de plantas já foram identificadas, mais de 7.000 delas já foram usadas na história da humanidade para alimentação (FAO, 1998). No presente, porém, não mais do que 150 espécies são comercialmente cultivadas e, dessas, apenas 103 garantem 90% das calorias da dieta humana². Apenas quatro delas (arroz, trigo, milho e batata) somam quase 60% do suprimento de energia para os humanos³.

Quase todos os esforços da Revolução Verde dos anos 1960 aos anos 1980 focaram no desenvolvimento das grandes culturas agrícolas básicas. Entretanto, dentro da perspectiva da sustentabilidade e segurança alimentar, contar com uma estreita base de alimentos faz com que nosso fornecimento de comida seja extremamente vulnerável. Basear nossa dieta num pequeno número de principais culturas têm implicações na segurança alimentar e nutricional. A falta de diversidade genética deixa nossa agricultura vulnerável à pragas, doenças e estresse abiótico. Neste mundo interconectado, a variação na devastação irlandesa da batata do século XIX teria inúmeras e desastrosas consequências. O antegosto do que pode acontecer foi experimentado nos anos 1970, quando variedades híbridas de milho se mostraram sensíveis a ferrugem da folha, em 1930 quando fungos atacaram o taro cultivado em Samoa, e em 1875 quando devastaram a plantação de café do Sri Lanka. Uma corrente global que ameaça a produção de trigo é a ferrugem. Essa agressiva e muito destrutiva doença apareceu pela primeira vez na Uganda, mas se espalhou pelo Oriente Médio, destruindo plantações de trigo. Isso é ameaçador para os países produtores de trigo onde as variedades resistentes estão em falta. Para prevenir essa e outras calamidades na produção de alimentos, é claro que é preciso manter a diversidade dentro e entre culturas no nosso sistema de produção.

Como consequência das vantagens comerciais das monoculturas e do alto rendimento dos melhoramentos híbridos, a diversidade de espécies – caracterizada por culturas locais, variedades tradicionais e menores – está sendo negligenciada por agrônomos, bem como por serviços de extensão. Em muitas áreas elas estão sendo totalmente perdidas, juntamente com o conhecimento tradicional do seu cultivo e uso.

Ao mesmo tempo, o mundo sofre com desnutrição, pobreza, degradação dos ecossistemas e impactos no clima, sendo assim, a produção agrícola pede urgentemente por esforços para as culturas negligenciadas e menores, semelhantes ao suporte já feito as principais lavouras. Está cada vez mais claro que ações mais ousadas e consistentes são necessárias para ampliar a cesta de alimentos do mundo apoiando o desenvolvimento das culturas tradicionais marginalizadas pelas pesquisas atuais e políticas em agricultura.

Internacionalmente, existe um aumento do interesse em novos alimentos e outros produtos que podem contribuir em novas formas para saúde e nutrição humanas. Esse interesse pode ser explorado para desenvolver mercados para culturas não tradicionais, onde comunidades pobres podem ser beneficiadas, fornecendo incentivos para produtores que plantam essas culturas. Agricultura deve ir além das tecnologias da Revolução Verde do último meio século, que foram baseadas no melhoramento genético e no aumento do rendimento das culturas básicas, porém com um alto custo. Esses aumentos não permitiram que os países reduzissem a fome e também resultaram no uso inapropriado e excessivo de agrotóxicos, desperdício de água nos esquemas de irrigação, perda dos benefícios da biodiversidade, poluição do solo e da água, e significante redução da diversidade das lavouras.

O que são as NUS? E por que são importantes?

Espécies agrícolas que não estão entre as maiores culturas básicas geralmente são chamadas de “neglected and underutilized species” (NUS) – espécies negligenciadas e subutilizadas, em tradução livre -, também conhecidas como culturas “órfãs”.

O conceito de NUS remete a espécies de plantas úteis, mas que são marginalizadas ou completamente ignoradas pelos pesquisadores, produtores e políticos. Elas não são consideradas mercadorias e fazem parte de um grande e diverso grupo com milhares de espécies domesticadas, semi-domesticadas e selvagens. Elas podem se adaptar localmente como as espécies de florestas não madeireiras. A designação NUS também é fluída, como quando uma cultura é simultaneamente estabelecida em um país e negligenciada em outro. Em alguns países estatísticas e pesquisas não distinguem entre NUS e outras culturas.

NUS diferem de culturas básicas em formas fundamentais. Elas tendem a ser gerenciadas por sistemas tradicionais, usando fontes de sementes informais e envolvendo um forte elemento de gênero. O seu processo pode ser trabalhoso, gradual e com embalagens primitivas, além de serem produtos para mercados locais com limitações para o envolvimento de grandes empreendimentos. Sendo por muito tempo negligenciada pela agricultura convencional por razões de variedade agronômica, genética, econômica, social e cultura, hoje essas culturas estão recebendo constante reconhecimento por causa do seu potencial papel para atenuar os riscos do sistema de produção agrícola. Nos últimos 10 anos ou menos, um crescente número de projetos vem direcionando sua atenção para a importância das NUS em beneficiar a nutrição, gerar renda, manter a saúde dos ecossistemas e empoderar os pobres e marginalizados, assim como, promover a diversidade cultural.

Conclusão

Existe uma necessidade urgente de ampliar a cesta de alimentos pelo mundo apoiando o desenvolvimento de culturas tradicionais negligenciadas e marginalizadas a partir de pesquisas e políticas agrícolas.

Intervenções para apoiar as NUS são muitas e incluem:

O desenvolvimento de variedades melhores;

Melhorias nas práticas de cultivo;

Elevar o investimento em tecnologias;

Melhor acesso dos produtores aos mercados;

Validação e promoção dos benefícios à saúde;

Manutenção mais eficaz da diversidade genética e cultural nas fazendas;

Políticas de nível nacional e internacional que apoiem a conservação e o uso dessas culturas.

As NUS, como parte da cesta de alimentos da humanidade afiada através de milênios de experimentação agrícola e transmissão cultural de conhecimentos através das gerações, são uma riqueza que merece ser conservada cuidadosamente pelos muitos benefícios que traz para a população mundial. Através de ações internacionais, locais e nacionais, este recurso pode ser transmitido para as gerações futuras e usado para melhorar o bem-estar da humanidade.

Referências:

² Prescott-Allen and Prescott-Allen 1990

³ http://www.fao.org/biodiversity/components/plants/it/

 

Plantas Alimentícias Não Convencionais e Agroecologia – trabalhos apresentados no Congresso Brasileiro de Agroecologia 2017

Plantas Alimentícias Não Convencionais e Agroecologia – trabalhos apresentados no Congresso Brasileiro de Agroecologia 2017

Confira os assuntos dos trabalhos sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais no anais do último Congresso Brasileiro de Agroecologia

Quer submeter trabalhos sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC no próximo Congresso Brasileiro de Agroecologia – CBA e não sabe por onde começar? Eu te ajudo: dê uma espiadinha nos trabalhos compartilhados no último congresso em 2017!

Sim, este é o ano do próximo Congresso Brasileiro de Agroecologia! Será realizado entre os dias 4 e 7 de novembro em Sergipe. Aproveitando que o prazo de submissão de trabalhos está aberto até o dia 5 de julho, resolvi resgatar as contribuições nos painéis de discussão que ocorreram no último evento sobre as PANC, nos Anais disponibilizados pela Associação Brasileira de Agroecologia – ABA em agosto de 2018

O CBA anterior marcou o ano de 2017 em Brasília. Com uma programação integrada a outros dois grandes encontros (o VI Congresso Latino-americano de Agroecologia e o V Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno), o CBA 2017 teve como tema “Agroecologia na Transformação dos Sistemas Agroalimentares na América Latina: Memórias, Saberes e Caminhos para o Bem Viver”. A Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) e a Sociedad Latinoamericana de Agroecología (SOCLA) e uma imensa rede de parceiros realizados os eventos que pulsaram pelos eixos brasilienses.

Este ano, o tema do CBA é tão incrível quanto os anteriores! Ecologia de Saberes: Ciência, Cultura e Arte na Democratização dos Sistemas Agroalimentares é a temática que permeará todos os dias deste evento que é um momento de encontro que fortalece, consolida e avança as bandeiras de ancestralidades, soberania alimentar, educação popular, agrobiodiversidade, reforma agrária, feminismos e demais assuntos que permeiam a agroecologia.

Foram 10 trabalhos encontrados na busca pelo termo ‘não convencionais’ com diferentes abordagens entre si. Vamos a eles:

// TEMA GERADOR 4: Educação em Agroecologia

| Operação taioba: o uso de plantas alimentícias não convencionais (PANC) e da agricultura urbana na construção do senso agroecológico de escolares da rede pública de São Leopoldo, RS | link

// TEMA GERADOR 5: Construção do Conhecimento Agroecológico

| I Jornada sobre plantas alimentícias não convencionais do estado do Rio Janeiro: expressões da socialização de conhecimentos entre a academia e a sociedade | link

| Narrativa midiática e difusão sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): contribuições para avançar no debate | link

| Estudo sobre consumo de hortaliças não convencionais no município de São João del-Rei / MG: uma abordagem em busca de valores esquecidos. | link

// TEMA GERADOR 6: Campesinato e Soberania Alimentar

| Reconquista de sementes crioulas e plantas alimentícias não convencionais no assentamento Dênis Gonçalves, Zona da Mata Mineira | link

| Agricultura familiar como agente de desenvolvimento regional por meio do cultivo e comercialização de hortaliças não convencionais em Minas Gerais | link

// TEMA GERADOR 7: Conservação e Manejo da Sociobiodiversidade e Direitos dos Agricultores e Povos e Comunidades Tradicionais

Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Território do Sisal | link

| Horto didático da UTFPR Câmpus Pato Branco: unidade demonstrativa de plantas alimentícias não convencionais | link

// TEMA GERADOR 9: Manejo de Agroecossistemas e Agricultura Orgânica

Incidência de fitoplasmas em plantas alimentícias não convencionais no Brasil | link

// TEMA GERADOR 12: Estratégias Econômicas em Diálogo com a Agroecologia

| A importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS) para a sustentabilidade dos sistemas de produção de base ecológica | link

É possível perceber como o termo Plantas Alimentícias Não Convencionais desperta distintas possibilidades de práticas em diferentes territórios. Ouso dizer que o termo poderia pleitear um tema gerador próprio, ou, no mínimo, que a questão de agrobiodiverisidade e disponibilidade alimentar – estratégias locais de abastecimento (quem sabe… estou pensando alto aqui…) poderia ganhar uma temática própria para que essa rede de pessoas, organizações, coletivos e instituições formadoras se encontrassem de uma forma mais coesa e não esparça a tal ponto que não conseguimos identificar quem são esses atores que participam ativamente da notoriedade do tema das PANC no cenário alimentar do país.

A defesa por uma temática nesse sentido dá-se não o número de trabalhos em si. Não obtive a tempo de escrever este texto o número total de trabalhos apresentados no CBA em Brasília, mas certamente, chegou a mil. Bem, mesmo com hipótese de que 1% dos trabalhos trouxe esse termo para seu relato científico, destaca-se as numerosas abordagens utilizadas com o recorte dessas plantas que já tem povoado as mentes inquietas da comunidade acadêmica ligada aos temas de agroecologia. 

Essa publicação tem o objetivo de conectar pessoas. Conectar que escreve com quem lê e visse e versa; Conectar diferentes locais que podem estar fazendo ações muito semelhantes e sentem-se isolados ou sozinhos nesse caminho de popularização das PANC. Conectar pesquisadores e pesquisadoras da área, independente se você é formado ou não, construção de saberes coletivos está no encontro, na partilha, na cooperação. Vamos aproveitar a próxima temática deste importante evento para pensar em como mostrar a importância das reflexões e práticas do cultivo ao consumo dessa biodiversidade alimentar que se apresenta pelo acrônimo desses alimentos.

Quem vamos escrever trabalhos para o próximo congresso? Os trabalhos com um (*) tem participação minha. Caso você se interesse pelo tema e for ler, comenta aqui o que achou do relato científico sobre as narrativas midiáticas das PANC no Brasil e o relato de experiência sobre a ‘Operação Taioba’ – projeto de educação alimentar e nutricional com PANC no município de São Leopoldo/RS.

Vamos nos encontrar em Sergipe, gente! Será lindo demais poder conhecer pessoas que, assim como eu, estão desbravando as possibilidades teóricas e práticas do trabalho com as PANC! 

 

Brasília receberá primeira edição do Slow Filme – Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura

Brasília receberá primeira edição do Slow Filme – Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura

O Slow Filme – Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura Local acontecerá pela primeira vez em Brasília, depois de realizar nove edições em Pirenópolis (GO). O evento relaciona cinema e gastronomia, inspirado nos conceitos do movimento Slow Food, reunindo na programação filmes sobre comida, workshops e degustações.

Mas para a 10ª edição acontecer do dia 1º a 4 de agosto no Cine Brasília com exibições de filmes e conversas; e, no Espaço Cultural 508 Sul com a realização de oficinas e workshops. A entrada é franca. Estão na programação 20 filmes inéditos e premiados, sessões inclusivas e infantis.

Para viabilizar o evento, a produtora Objeto Sim, que realiza o Slow Filme, abriu um conta de financiamento coletivo no site VakinhaQuem quiser colaborar tem até o dia 20 de julho. O valor arrecadado será utilizado na impressão de material gráfico e na legendagem, já que muitos dos filmes trazidos para o evento são inéditos no Brasil. Com curadora do crítico Sérgio Moriconi, o festival promete para a primeira edição brasiliense um total de 20 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens, documentário e ficção.

A colaboração é mais do que justa, uma vez que o Slow Filme – único do Brasil em seu gênero — tem entrada franca em todas as atividades. O festival tem promovido a estreia no Brasil de filmes premiados em grandes festivais como Berlim, Nova York e San Sebastián. Na edição de 2017, por exemplo, exibiu o documentário argentino Todo sobre El Asado, de Gastón Duprat e Mariano Cohn, hoje disponível na Netflix.

Em 2018, um dos destaques foi o francês À Procura de Mulheres Chefs (foto no alto desta matéria), da francesa Vérane Frédiani, que rodou o mundo para mostrar o trabalho de chefs, sommeliers, ativistas e restauranteurs mulheres – entre elas, nomes como Dominique Crenn, Clare Smyth, Elena Arzak e Alice Waters.

FONTE:  GASTRONOMIX

 

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Nuno Rodrigo Madeira e Neide Botrel

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são aquelas que possuem uma ou mais partes que podem ser usadas na alimentação, mas que não sejam corriqueiras, parte do dia a dia da grande maioria da população (Kinupp e Lorenzi, 2014). O termo PANC começou a ser difundido em 2008 e tem sido o mais aceito pela comunidade técnico-científica. Ele trouxe consigo grande visibilidade na mídia e perante a sociedade como um todo, proporcionando a valorização de espécies subutilizadas ou negligenciadas.

Em nosso trabalho na Embrapa Hortaliças, iniciado oficialmente em 2006, utilizamos por vezes o termo “Hortaliças Tradicionais”, por serem espécies cujas sementes ou mudas são mantidas pelos próprios agricultores, muitos deles agricultores tradicionais, e por trazerem consigo um forte apelo cultural associado, além de ser uma forma de valorização. Por representarmos a Embrapa Hortaliças, nos limitamos ao trabalho com hortaliças, mas dialogamos acerca das Panc como um grupo maior. Nos últimos anos, passamos também a usar o termo “Hortaliças Panc”, que inclui as hortaliças tradicionais e outras.

Esses termos trazem alguma controvérsia; uma planta que é considerada não convencional em uma região pode ser convencional em outra, a exemplo do açaí (Euterpe oleracea), do jambu (Spilanthes oleracea) e da chicória (Eryngium foetidum) na Região Norte, do cuxá ou vinagreira (Hibiscus sabdarifae) no Maranhão, da erva-mate no Sul (Ilex paraguariensis), do inhame (Colocasia esculenta) no Espírito Santo, entre outras.

Contudo, de forma geral, as PANC, são espécies de uso local ou regional (e não global ou nacional como as espécies convencionais), com distribuição limitada, cadeia produtiva inexistente ou mal estruturada, de pouco ou nenhum interesse para as empresas de insumos, de sementes ou fertilizantes por exemplo, por sua rusticidade e pouco estudadas na academia.

De forma geral, observa-se redução do consumo de alimentos regionais, seja no campo ou nas cidades, pela substituição da produção local por espécies de maior apelo comercial e cadeia produtiva estabelecida, isso em função de mudanças significativas no estilo de vida e no hábito alimentar dos brasileiros, com a perda da referência dos quintais e o crescente uso de alimentos industrializados, resultado da globalização e da verticalização das cidades, muitas vezes com perdas históricas de referências socioculturais.

A situação de desuso de muitas PANC acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), o ser humano afunilou sua alimentação de mais de dez mil diferentes espécies vegetais para cerca de 150 espécies sendo cultivadas atualmente, sendo que 12 representam 80% de nossas necessidades alimentares e apenas quatro espécies (arroz, trigo, milho e batata) mais da metade de nossas necessidades.

Ainda assim, muitas PANC resistem no Brasil e são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos, dentre as hortaliças, são ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) em algumas regiões de Minas Gerais e Goiás, sempre presente na gastronomia no circuito das cidades históricas; vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária local – o arroz de cuxá; jambu no Norte do Brasil, ingrediente essencial para o tacacá e o pato no tucupi; e gila (Cucurbita ficifolia) na Serra Gaúcha, onde é tema de um festival em Bom Jesus; entre outros (Brasil, 2015). Isso em se tratando de hortaliças, nosso universo de trabalho, mas o que dizer das frutas como o cupuaçu e o açaí na Amazônia, o pequi e o baru no Cerrado, o umbu no Semiárido, a jabuticaba no Sudeste, a goiaba-serrana e o butiá no Sul, entre outras tantas Frutas PANC.

Buscando ampliar a diversidade alimentar, nosso trabalho na Embrapa Hortaliças apresenta três propósitos básicos: a conservação de germoplasma, patrimônio de valor incalculável; o enriquecimento da dieta alimentar local com a diversificação da produção nos sítios ou nos quintais; e a oportunidade de renda para os agricultores familiares com o cultivo de hortaliças tradicionais e seus subprodutos (Madeira et al., 2013). A conservação, no nosso entender, só será plena e até mesmo segura e viável se for pelo uso, pois aquilo que se usa com frequência terá sua conservação assegurada. No caso de algumas espécies em desuso como o mangarito (Xanthosoma riedelianum), o jacatupé (Pachyrrhizus tuberosus) e a araruta (Maranta arundinacea), trata-se de um verdadeiro resgate de plantas que chegaram próximo à extinção, se não botânica por sua rusticidade, no mínimo à extinção alimentar. Assim, as ações que realizamos junto aos parceiros da extensão rural, de outros órgãos de pesquisa e organizações de produtores, são bancos comunitários locais (Brasil, 2013b), eventos (dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas, palestras) e disponibilização de publicações (cartilhas, livros, artigos científicos).

Aspecto fundamental é que, em essência, o cultivo das PANC vem sendo historicamente feito por agricultores familiares e sob manejo de base agroecológica. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais no meio rural ou urbano, para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, já apresentam significativa inserção de mercado, como o inhame (Colocasia esculenta) ou o cará, conhecido no Nordeste por inhame (Dioscorea spp.), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Outras, no entanto, apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta ou de substituição de importações, a exemplo da fisális ou camapu (Physalis spp.) e do chá de hibisco, extraído da vinagreira.

Outro aspecto interessante é que grande parte das PANC é nativa do Brasil e as que não são botanicamente de origem brasileira, são tão adaptadas que muitos as consideram nativas, a exemplo de vinagreira, gila e inhame, sendo na verdade ditas “naturalizadas”, introduzidas durante o processo histórico de formação do Brasil. Portanto, muitas Panc são plantas espontâneas ou silvestres, por vezes até consideradas “daninhas” ou “matos”, como serralha (Sonchus oleracea), beldroega (Portulaca oleracea) e major-gomes ou cariru (Talinum spp.). 

É interessante ressaltar que muitas das PANC apresentam efeito funcional nutracêutico, a exemplo do cará ou inhame-cará, reconhecido depurativo de sangue, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas (até 32% na matéria seca) e minerais, notadamente cálcio e ferro. No entanto, sempre ressaltando que não será um ou outro super alimento que trará a resposta em nutrição e saúde mas sim uma super alimentação diversificada e de qualidade.

Por sua facilidade de cultivo, adaptabilidade, rusticidade, além do potencial ornamental, muitas Panc tem sido utilizadas em agricultura urbana e periurbana e na promoção da produção local de alimentos.

Finalmente, todas as ações que vem ocorrendo relacionados a PANC trazem uma forte valorização do conhecimento do agricultor tradicional, de base familiar, resgatando sua sabedoria, dignidade e importância na produção de alimento seguro, mostrando que a produção local de alimentos deve usar prioritariamente plantas adaptadas e de alta rusticidade e resiliência, disponibilizando muito mais alternativas e contribuindo verdadeiramente para a segurança e, principalmente, para a soberania alimentar e nutricional, pelo incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e o fomento aos bons hábitos alimentares. O fomento das PANC abrange aspectos culturais, econômicos e sociais, promovendo espécies nutricionalmente interessantes, muito facilmente adaptadas, praticamente orgânicas, e com alta capacidade de mitigação dos impactos negativos causados pelos efeitos das mudanças climáticas, ressaltando sua interface com os diálogos referentes à agricultura de base ecológica e à agricultura urbana.

Bibliografia Consultada

BRASIL. 2015. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. – 2ª ed. – Brasília, Ministério da Saúde. 484 p.

KINUPP, V.F.; LORENZI, H. 2014. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas.

MADEIRA, N.R.; SILVA, P.C.; BOTREL, N.; MENDONÇA, J.L.de; SILVEIRA, G.S.R.; PEDROSA, M.W. 2013. Manual de produção de Hortaliças Tradicionais. Brasília, DF: Embrapa. 155 p.

Nuno Madeira | nuno.madeira@embrapa.br

Engenheiro agrônomo. Pesquisador Embrapa Hortaliças

Neide Botrel | neide.botrel@embrapa.br

Engenheira agrônoma. Pesquisadora Embrapa Hortaliças

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Paulo Brack e Matias Köhler

O fato de o Brasil ser um dos países com a maior biodiversidade do mundo já não é novidade (FIORAVANTI, 2016). Contudo, saber que grande parte dessa biodiversidade pode ser utilizada na alimentação ainda gera espanto e estranhamento. Cará, araruta, jaracatiá, pequi e jatobá são alguns ingredientes provenientes da flora nativa, mas de conhecimento e de uso restrito à pequena parte da população.

De fato, a alimentação das sociedades consideradas modernas é pobre em espécies e variedades de plantas utilizadas, apesar de nossos biomas brasileiros abrigarem milhares de espécies de plantas alimentícias. Situação semelhante à nossa ocorre no restante do mundo. Atualmente, somente vinte espécies vegetais fornecem 90% do alimento humano do planeta, sendo que apenas três delas — trigo, milho e arroz — fornecem mais da metade (WILSON, 2012). Além disso, a maior parte das plantas desenvolvidas para a alimentação humana teve origem em climas mais frios e se expandiu na maior parte do mundo também tropical, cultivadas em monoculturas vulneráveis e altamente suscetíveis à doenças e ataques de insetos e outros organismos, que se costumou chamar de “pragas”.

O uso de poucas espécies na alimentação está mais relacionado a um imperialismo agroalimentar e pouco conhecimento acerca das plantas que nos cercam – uma verdadeira cegueira botânica, do que a falta de opções. O pesquisador alemão Günther Kunkel (1984) foi o pioneiro no levantamento de plantas alimentícias de todo o mundo, tendo citado 12,5 mil espécies com este potencial em todos os continentes. Edward Wilson (1988) estimou que ocorressem no mundo 75 mil espécies alimentícias, e destacou que muitas são superiores em vários aspectos nutricionais às plantas convencionalmente cultivadas. Eduardo Rapoport et al. (2009) chegaram a uma estimativa semelhante a de Wilson, reconhecendo que 25% das plantas de muitas floras são representadas por plantas alimentícias. Estudo de Valdely Kinupp (2007) obteve como resultado 311 espécies com uso atual ou potencial alimentício da flora nativa da Região Metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o que representa cerca de 20%, da flora da região. Com base em todos estes estudos, Kinupp estima que os percentuais de plantas alimentícias variem entre 10% e 20% de cada conjunto de floras regionais ou locais.

Em nosso país, segundo o Projeto Flora do Brasil, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, existem identificadas não menos do que 33 mil espécies de plantas fanerogâmicas brasileiras. Já que as fanerógamas se constituem no principal grupo taxonômico que reúne as plantas com potencial de alimento ao ser humano, teríamos, então, uma estimativa da ocorrência de pelo menos três mil e trezentas espécies alimentícias nativas, nos diferentes biomas, entre frutíferas, hortaliças e produtoras de nozes, castanhas, condimentos, polpas, entre outros produtos.

A maioria destas espécies é usada culturalmente por povos indígenas e comunidades tradicionais, mas no Brasil, muitas vezes, nossas plantas recebem algum valor somente depois de exportadas, beneficiadas e ganharem fama em outros países. É o caso da castanha-da-amazônia ou brazil nut (Bertholletia excelsa), da aroeira-vermelha ou brazilian pepper (Schinus terebinthifolius), que são exportadas principalmente para a Europa. Outras, inclusive, tornaram-se alvo de biopirataria por empresas de países de outros continentes. Um caso emblemático foi o do cupuaçu (Theobroma grandiflorum), da Amazônia, cujos produtos quase foram patenteados com êxito por parte de uma empresa japonesa, não fosse o governo brasileiro sair atrás do prejuízo e reverter o processo. Outro caso, ocorrido há muitas décadas, trata-se da goiabeira-serrana, ou feijoa (Acca sellowiana), levada do sul do Brasil e Uruguai para os EUA e, hoje, sendo cultivada comercialmente com sucesso em países como Nova Zelândia e Colômbia. A eventual oferta desta fruta, nas cestas de supermercados brasileiros, provém da Colômbia, com preços exorbitantes, que podem alcançar o valor de 70 reais o Kg.

A agricultura moderna, considerada por setores da grande mídia como a “locomotiva da economia”, vem gerando grande volume de problemas ambientais, principalmente aqueles derivados do uso crescente de agrotóxicos, da perda da biodiversidade e do próprio estrangulamento da diversidade de atividades geradoras de renda, com concentração crescente de terras. Somos, cada vez mais, reféns da exportação de grãos e de commodities. Isso também gera negligência sobre nossos recursos, situação resultante da lógica da priorização da agricultura empresarial ou industrial e a grande escala da produção agrícola, deixando os agricultores com poucas alternativas de se desvencilharem do modelo de dependência atrelado às monoculturas de exportação. Como consequência disso, aproximadamente 75% da diversidade agrícola mundial já foram perdidas no último século (FAO, 2013).

Não é razoável que sejamos os campeões do uso de agrotóxicos e obrigados a seguir testemunhando a transformação de dezenas de milhões de hectares de riquíssimas floras de diferentes regiões de cada um dos seis biomas brasileiros, com seus respectivos ecossistemas com excepcionais características locais desenvolvidas há muitos milhares de anos, em imensas paisagens totalmente homogêneas (BRACK, 2017). Estamos a ver sucumbir nossa biodiversidade sob a pesada produção mecanizada, quimificada e insustentável de soja e de outros grãos, ou a produção de dezenas de milhões de cabeças gado em áreas não originalmente florestais e de savanas (cerrados), sem falar nos milhões de hectares de lavouras de madeira para celulose. Comprometemos a funcionalidade ecossistêmica necessária no campo, que necessita da diversidade de flora e fauna, e a funcionalidade da cultura alimentar e da ecologia humana. A produção de alimentos é uma função também social e deveria corresponder ao respeito constitucional, incluso no Art. 225 da Constituição Federal, que garante o direito ao meio ambiente equilibrado, com proteção à diversidade biológica e aos processos ecológicos. Esta circunstância da inviabilidade das monoculturas já foi denunciada na metade do século passado pelo botânico paulista Frederico Hohene (1946), pioneiro no estudo das frutas indígenas brasileiras. Segundo este autor:

“Acreditamos que na policultura reside maior garantia contra eventuais cataclismos, dificuldade de transporte, e carência de recursos de outra natureza […]. Além disso, devemos considerar que na policultura reside mais encanto e maior  alegria, porque em cada mês surgem cousas diferentes, e num mesmo dia aparece maior variedade. A monotonia, que tanto desalenta, fica destituída das cogitações daquele que se entrega à policultura. Aliás, a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada.”

Por sorte, desde a década passada, existe um movimento de resgate das plantas nativas na alimentação, juntamente à busca por alimentos da agroecologia, situação que também reflete a busca por uma vida mais saudável frente às monoculturas que estão associadas ao uso de alta carga de agrotóxicos. A agrobiodiversidade emerge, por meio da agricultura das famílias campesinas que veem sentido na convivência com a diversidade de produção de sementes crioulas e na valorização da natureza. As plantas alimentares não convencionais são resgatadas ou descobertas pela primeira vez, gerando resiliência, renda e uma vida mais digna para quem produz e para quem consome. No escopo desta diversidade agrícola, portanto, estão as plantas alimentícias nativas e espontâneas, que crescem e nascem sozinhas em ambientes favoráveis, indicando as vocações locais, inseridas no conceito das plantas alimentícias não convencionais (PANC), tanto na produção como no consumo.

Esta diversidade parte da oferta de estruturas vegetais como raízes, caules ou tubérculos, bulbos, rizomas, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes, bem como de produtos utilizados ou com potencial para a alimentação humana. Começam também a ser estudados, por instituições de pesquisa, o conteúdo nutricional e as formas de produção de polpas, látex, resinas e gomas ou outras partes usadas para a obtenção de óleos e gorduras comestíveis. A diversidade engloba ainda as especiarias, as plantas condimentares e/ou aromáticas, assim como as que são utilizadas como substituintes do sal, corantes alimentares, edulcorantes naturais, amaciantes de carnes e também fornecedoras de bebidas, tonificantes e infusões.

No Rio Grande do Sul, somente no que se refere às plantas nativas com frutos e sementes comestíveis (o que chamamos de frutíferas), existem mais de 200 espécies. Cerca de 60% das frutíferas no Rio Grande do Sul são árvores ou palmeiras, mas o dado que chama a atenção é que os 40% restantes representam uma grande diversidade de formas biológicas, como ervas, arbustos, trepadeiras e epífitas. Desde uma década para cá, estas espécies vem lentamente ganhando algum espaço (KÖHLER & BRACK, 2016). Em regiões do bioma Cerrado, o desenvolvimento das frutas nativas está também em ascensão, principalmente na produção de sorvetes.

Cabe lembrar que PANC não se restringem às plantas nativas. O conceito é usado a todas as plantas que não são convencionais utilizadas em nossos cardápios ou que não são produzidas em sistemas convencionais (agricultura industrial ou convencional). A união das espécies nativas alimentícias com as demais não nativas, nos diferentes sistemas de produção, provoca efeito sinérgico no fortalecimento das plantas da agrobiodiversidade e das culturas humanas associadas.

Obviamente, o caminho para o êxito das PANC, nativas ou não, é também cheio de revezes. Parlamentares e representantes das empresas transnacionais, que se consideram donos de nossas sementes e variedades, atuam junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária para enfraquecer a autonomia dos agricultores e de suas organizações, como cooperativas, associações ou ONGs, no âmbito da produção e troca autônoma e local de sementes e propágulos das plantas da agrobiodiversidade.

A luta é dura, como a de Davi contra Golias, para que as sementes crioulas e outras formas de reprodução de plantas associadas a diferentes regiões, culturas tradicionais e alimentares tenham o espaço da sociobiodiversidade de direito, hoje negado pelo setor pesado do agronegócio. Mas, a expansão paulatina das feiras de produtos agroecológicos e orgânicos por parte de agricultores familiares e campesinos, o interesse crescimento de grupo de consumidores desses produtos, o crescimento na investigação científica dos componentes nutricionais e no resgate e inovação de receitas com nossas plantas, o incremento dos sistemas agroflorestais (SAFs), em muitas regiões dão a esperança de que as cepas de resistência estão se consolidando para que se possam superar as adversidades.

Quem sabe setores importantes dos governos e da sociedade coloquem este tema no eixo estruturante de suas ações para uma sociedade mais justa e sustentável, que comungue de outros paradigmas necessários para a humanidade viver com mais igualdade e felicidade. Como Hoehne já dizia, e não custa repetir: “a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada”.

Referências:

BRACK, P. (2017) O modelo insustentável do agronegócio brasileiro. Revista Textual n. 26, 28-35.

FAO (2013) FAO Statistical Yearbook, 2013 – World Food and Agriculture. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations.

FIORAVANTI, C. (2016) A maior diversidade de plantas do mundo. Pesquisa FAPESP n. 241, 42-47.

HOEHNE, F.C. (1946) Frutas indígenas. São Paulo: Instituto de Botânica, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.

KINUPP, V.F. (2007) Plantas Alimentícias Não-Convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS. Tese (Doutorado em Fitotecnia) Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

KÖHLER, M.; BRACK, P. (2016) Frutas nativas no Rio Grande do Sul: cultivando e valorizando a diversidade. Revista Agriculturas 13 (2), 7-15.

KUNKEL, G.W.H. (1984) Plants for human consumption: an annotated checklist of the edible phanerogams and ferns. Koenigstein: Koeltz Scientific Books.

RAPOPORT, E.H;  MARZOCCA, A.; DRAUSAL, B.S. (2009) Malezas comestibles del Cono Sur y otras partes del planeta. Bariloche: INTA.

WILSON, E. (1988) The current state of biological diversity. In: WILSON, E.O. & PETER, F.M. Biodiversity. 521 pp. Washington, D.C.: National Academy Press.

WILSON, E.O. (2012) Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras

 

 

Paulo Brack | paulo.brack@ufrgs.br

Professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS, membro da coordenação do InGá.

Matias Köhler | matias.k@ufrgs.br

Biólogo, mestrando em botânica (UFRGS), vice-coordenador do Instituti Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá.

PANC: 10 anos do acrônimo no Brasil | Autobiografia de Valdelly Kinnup

PANC: 10 anos do acrônimo no Brasil | Autobiografia de Valdelly Kinnup

Valdelly Kinnup

O Brasil é o país da megafitodiversidade, contudo, utiliza pouco da sua vasta riqueza botânica para o consumo corriqueiro nas nossas triviais três grandes refeições diárias. Os ingredientes diferenciados mesmo na dita Alta Gastronomia ou Alta Cozinha são utilizados de forma incipiente. Mesmo restaurantes mais refinados e com pegadas inovadoras de valorização dos ingredientes locais, regionais ou nacionais ainda deixam muito a desejar em termos de usos reais e de forma mais intensa e constante, nos cardápios fixos ou mesmo nos cardápios diários ou sazonais. E muitos dos que tem feito isso nos últimos anos, na maioria das vezes, fazem de uma forma um pouco equivocada, pois utilizam os ingredientes inusitados em quantidades muito pequenas e/ou apenas os utilizam na finalização de pratos e, muitas vezes, apenas como elemento decorativo.

Naturalmente, que um dos gargalos para o uso mais efetivo e real destes ingredientes não convencionais é a falta da matéria-prima, ou seja, não tem produtores e fornecedores com regularidade e/ou quantidade/qualidade. Mas, a demanda gera a oferta e a oferta atrelada a informação advinda dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão podem também gerar a demandas. A célebre frase: “Não vende porque não tem e não tem (nas feiras, restaurantes,…) porque não vende” (i.e., não tem procura dos clientes e comensais).

Diante deste grande potencial alimentício da flora brasileira, desde os tempos coloniais, diferentes naturalistas e autores de áreas diversas do conhecimento vem tentando sistematizar a catalogar a diversidade de plantas com potenciais para a alimentação humana. Contudo, era algo feito de forma bem acadêmica e com circulação mais restrita, seja pelo escopo da obra seja pelas limitações gráficas, de divulgação e circulação consequência dos longínquos mais de 300 anos de colonização fechada do Brasil.

Mesmo, no século XX as poucas publicações disponíveis no Brasil sobre plantas com potenciais alimentícios eram muito escassas e de pouca envergadura, abordando em geral poucas espécies, sem receitas ou receitas sem as devidas ilustrações e/ou fotografias que não instigava tanto a comunidade acadêmica e nem os comensais em geral. Além disso, não tinha uma expressão ou sigla/abreviatura/acrônimo eufônico e midiático que congregasse esta temática de pesquisa, ensino e extensão e atualmente uma área de engajamento profissional e de empreendedorismo com facetas múltiplas.

Muitos destes trabalhos (livros, cartilhas, Dissertações ou Teses) tinham no título palavras como “plantas ruderais”, “ervas espontâneas”, “frutas indígenas”, “pomalogia”, “plantas úteis”, “alimentos regionais”, “ervas daninhas comestíveis”, “ervas comestíveis”, “plantas alimentícias alternativas”, “plantas comestíveis silvestres”, entre outros termos e/ou expressões pouco chamativos ou convidativos. Além de muito limitantes geograficamente e/ou em relação às partes com usos alimentícias (e.g., segregando frutas, hortaliças, plantas aromáticas, condimentares e miscelâneas com usos alimentícios de difícil categorização, e.g., sucedâneas de produtos diversos, tais como sal, açúcar, corantes, água,…). Mesmo expressões um pouco mais técnica tinham restrições em relação a grande diversidade que deve ou deveria compor nossa alimentação cotidiana, e.g., “hortaliças não convencionais” (HNC); “hortaliças tradicionais” (HT) ou “hortaliças regionais” (HR) e estes acrônimos sem vogais e/ou muito curtos não tiveram e não têm muito chamariz e apelo.

Eu mesmo nos meus primeiros textos e títulos de resumos ou palestras e minicursos por um tempo usei o nome pouco informativo ou limitado e que podia ser interpretado de forma errada (“plantas alimentícias alternativas”). O acrônimo seria “PAA” que eu saiba nunca foi utilizado neste sentido e não cairia no gosto popular. Atualmente é o acrônimo do Programa de Aquisição de Alimentos. Programa interessante, mas que ainda deixa a desejar nas diferentes regiões do país, pois a lista a ser adquirida é um pouco fechada e, em geral, não contempla ou não aceita alimentos não convencionais devido ao desconhecimento ou da falta em escala de ingredientes das PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Aqui cabe destacar que muitos autores e pesquisadores usam ainda o termo comestíveis ao invés de alimentícias, daí falam e/ou escrevem “plantas comestíveis alternativas” ou “plantas comestíveis silvestres”. Além dos acrônimos não ficarem eufônicos, o termo “comestíveis” é limitado, pois literalmente não incluiria os alimentos líquidos ou pastosos que são bebidos (“bebíveis”) e não comidos.  A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) tem no seu nome “alimentação” e define como plantas alimentícias (“food plants”). E “alternativas” e “silvestres” também tem suas limitações e restrições bem explicitado na introdução do livro PANC.

O que são plantas alimentícias?

 

Conforme a FAO e outras fontes referenciadas no livro PANC, este é o conceito que adotamos na minha Tese e no livro: plantas alimentícias sensu lato são aquelas que possuem uma ou mais partes (e ou derivados destas partes) que podem ser utilizados na alimentação humana, tais como: raízes tuberosas, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes ou ainda látex, resina e goma, ou que são usadas para obtenção de óleos e gorduras alimentícios. Inclui-se neste conceito também as especiarias, substâncias condimentares e aromáticas, assim como plantas que são utilizadas como substitutas do sal, como edulcorantes (adoçantes), amaciantes de carnes, corantes alimentícios e aquelas utilizadas no fabrico de bebidas, tonificantes e infusões.

O que são as PANC?

 

PANC nada mais é do que um acrônimo para tentar contemplar as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício citada(s) antes que não são comuns, não são corriqueiras, não são do dia a dia da grande maioria da população de uma região, de um país ou mesmo do planeta, já que temos atualmente uma alimentação básica muito homogênea, monótona e globalizada. Não estamos usando plural, pois apesar do uso corrente e comum do ’s e/ou do s (e.g., PANCs ou PANC’s; SAFs ou SAF’s; PFNMs ou PFNM’s, só para citar alguns acrônimos comuns no meio agronômico, florestal e agora gastronômico-nutricional), pois pelo que nos consta não é correto no português clássico. Neste caso, o plural faz-se com o artigo (e.g., a PANC ou as PANC). Facilita a fala e a grafia, enfim a comunicação.

O conceito PANC é o mais adequado e o mais amplo e por isso mesmo caiu no gosto popular e hoje até as crianças brincam e falam, além permitir trocadilhos diversos. O termo PANC contempla todas as plantas que têm uma parte ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas, ruderais ou cultivadas. Inclusive espécies alimentícias convencionais, mas que possuem partes, porções e/ou produtos alimentícios não convencionais também pelo meu conceito amplo são consideradas PANC. Logo, o acrônimo contempla a bananeira (e.g., uso do coração e do palmito); mamoeiro (com uso da medula, dos frutos verdes, sementes e/ou flores) e chuchu (e.g., uso das raízes tuberosas e folhas/talos) e outras espécies que têm formas usos e partes de usos alimentícios potenciais, mas pouco ortodoxos e mal conhecidos ou desconhecidos pela maioria esmagadora da população. Estas espécies não podem ficar de fora, pois um dos objetivos da popularização das PANC é apresentar opções de plantas ou partes destas que possam ser consumidas, trazendo à tona, à baila espécies negligenciadas e subutilizadas.

Como “nasceram” as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

 

Antes preciso contextualizar como eu nasci, onde e como vivi e depois como eu vivo. Eu nasci em 1976 na zona rural (São Sebastião do Paraíba, município de Cantagalo/RJ). Este distrito (Arraial) fica à margem do rio Paraíba do Sul na divisa do Rio de Janeiro (RJ) com Minas Gerais (MG). Nasci de parto natural em casa. Sou o sétimo de nove irmãos (seis homens e três mulheres). Meus pais eram agricultores e toda a família trabalhava na roça como colono numa propriedade rural bem distante e com condições bem limitantes, inclusive sem luz elétrica e sem água encanada. Quando eu tinha aproximadamente 1,5 ano minha família mudou-se para outro sítio bem afastado no distrito de Amparo, Nova Friburgo/RJ para trabalhar como caseiro cuidando da propriedade. Neste sítio também sem energia elétrica vivi até os 19 anos. Desde muito pequeno participava das atividades na roça, seja levando comida ou ajudando nas lidas diárias de roçagens, capinas, manejos em geral, cuidando das criações, plantios, colheitas e na cozinha preparando comidas. Estudei à luz de lamparinas a querosene e/ou velas até o atual Ensino Médio morando e trabalhando no sítio.

Aos 19 anos fui aprovado no Vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para Ciências Biológicas e então mudei (1996) radicalmente do Sudeste para o Sul do Brasil e do interior para uma das maiores cidades da região Sul do país. A UEL foi uma experiência formidável e inesquecível e lá iniciei meus estudos botânicos de modo formal e me apaixonei ainda mais pelas plantas que eu comia, cozinhava e usava como forrageiras para os coelhos e porcos desde a infância. Durante a graduação tive muitas oportunidades de estágio e vivências e viagens pelo Brasil. Sempre coletando e herborizando plantas e comendo/inventando receitas com aquelas espécies que já conhecia ou tomava conhecimento serem alimentícias. Conheci superficialmente a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e o Cerrado, além da Mata Atlântica do Sul e a Mata com Araucária e campos nas disciplinas e viagens para cursos de campo e congressos durante a graduação.

No início de 2000 já com a faculdade concluída faltando apenas a colação de grau fiz estágio com o icônico Agrônomo-Botânico e autor dos didáticos e aprazíveis livros de Botânica da Editora Plantarum, Harri Lorenzi. Em 2000 mudei para Manaus/AM para fazer Mestrado na Botânica do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) onde ampliei meus conhecimentos botânicos e tive oportunidade de conhecer parte da rica flora amazônica, notadamente aquelas de interesse alimentício, sempre experimentando novos sabores nos trabalhos de campo e nas incursões às feiras e mercados locais.

Em 2002 me mudei para Porto Alegre/RS onde em poucos meses consegui uma vaga como Professor Substituto no Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Nesta oportunidade conheci grandes botânicos, colegas desta universidade e de outras instituições deste estado que tem uma grande tradição nos estudos botânicos e que muito contribuiu e contribui para a Botânica Nacional. Trabalhando com diversas disciplinas, entre elas: Botânica Econômica e “Trabalho de Campo”, pude focar na minha grande paixão que é comer! E comer comida, especialmente, feita com ingredientes inusitados ou não convencionais. E a melhor das comidas é aquela comida da “mão para a boca”, ou seja, frutos, folhas, flores e miscelâneas que podes ser coletados e consumidos in natura, uma questão de sobrevivência ou de bem-estar (saciar a fome e/ou a sede e entreter) no dia a dia nas andanças e trabalhos nas roças, nas florestas, nos campos e mesmo pelas cidades.

A partir destas disciplinas e de contatos com colegas que direta ou indiretamente pesquisavam plantas diferenciadas que podiam ser consumidas começou a gerado as ideias e os ideais que levariam mais tarde a criação e popularização da expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Um dos focos fortes na disciplina de Botânica Econômica era o potencial alimentício subutilizado ou negligenciado da flora nativa e das exóticas cultivadas ou naturalizadas com visitas a feiras, agricultores e apresentação de seminários sobre a temática, além provarmos receitas com estes ingredientes até então raros ou desconhecidos para a grande maioria, senão todos da turma. E nas expedições de campo aos finais de semana íamos identificando plantas nas constantes paradas ao longo das rodovias, falando dos seus potenciais e já consumindo aquelas que podia ser consumidas cruas e estavam no ponto de coleta.

Além disso, era comum levar o excedente e aquelas que precisavam de processamento e/ou eram mais saborosas quando processadas (notadamente cozidas, fritas ou assadas) para preparar à noite nos alojamentos. E as mais abundantes eram trazidas inclusive para minha casa para o preparo saladas, pratos salgados diversos e as frutas para sucos, frisantes, geleias e licores. Assim começaram a surgir receitas e formas de aproveitamento inusitadas que geralmente eram compartilhadas com os colegas e estudantes nas semanas seguintes. Desta forma as pessoas começaram a conhecer e apreciar espécies até então desconhecidas como alimento.

Neste período conheci diversos professores que muito contribuíram para minha formação e consolidação das pesquisas e do conhecimento botânico e etnobotânicos. Cabe destacar o querido e já falecido Prof. Dr. Bruno Edgar Irgang que sempre deu um apoio moral e aportes de informações preciosas, além de ter me apresentado a sua então orientanda de doutorado, Andréia Maranhão Carneiro, que tinha como tema geral o estudo de plantas comestíveis espontâneas. Ela me indicou e/ou emprestou as referências bibliográficas mais básicas sobre plantas com usos alimentícios para que eu iniciasse uma leitura mais aprofundada e técnica sobre aquilo que já gostava de comer porque tinha aprendido com alguém ou em outras fontes e experimentações, mas sempre embasadas em conhecimentos botânicos e noções de Quimiotaxonomia prévios.

Mais adiante o B.E. Irgang me apresentaria a minha futura orientadora de doutorado. Deste período destaca-se também os colegas professores Dr. Paulo Brack e João André Jarenkow, com os quais aprendi muito da vegetação e flora gaúchas. Com este último, aprendi a comer os brotinhos tenros das pontas dos ramos da araucária, hoje imortalizado e difundido para o mundo, tornado de domínio público, no livro PANC. Logo em seguida tive a oportunidade de conhecer o célebre pesquisador argentino, Prof. Dr. Eduardo Hugo Rapoport (falecido em 15/05/2016 e a quem o livro PANC é dedicado), coorientador da A.M. Carneiro na pesquisa anteriormente mencionada. Ele proferiu uma agradável e pitoresca palestra no XI Encontro de Botânicos do RS (Santa Cruz do Sul – UNISC, 2002) sobre as “Malezas Comestibles”. No dia seguinte a palestra, passeamos juntos pelos terrenos baldios e ruas de Santa Cruz do Sul/RS observando, comendo e coletando algumas plantas alimentícias. Daí nasceu boa amizade e colaborações. Ele me indicou posteriormente bibliografias importantes e compartilhou seus artigos e livros. Como fruto desta parceria eu fui ministrar palestras e oficinas de campo e cozinha com ele em duas oportunidades na Argentina, perfazendo quatro províncias e ele veio proferir palestra no Congresso de Botânica em Curitiba/PR (2005) e na Reunião da SBPC em Manaus/AM (2009), realizando o sonho de conhecer a Amazônia brasileira.

No ano de 2004 eu apresentei o primeiro resumo expandido sobre o tema (mas, usando “plantas alimentícias alternativas”) no então II Congresso Nacional de Agroecologia em Porto Alegre/RS e ministrei uma oficina de identificação destas plantas e preparo de receitas nas dependências do Jardim Botânico de Porto Alegre, em parceria com A.M. Carneiro. A oficina foi um estrondo de público com mais de 70 participantes entre inscritos e curiosos que abarrotaram a cozinha para ver as plantas coletadas amontoadas e degustar as inéditas receitas. A partir daí até então não parei mais de participar de eventos públicos ou privados com palestras e cursos de campo e cozinha, ajudando sobremaneira a formar ou ao menos instigar outras pessoas a pesquisarem mais e a olharem com outros olhos e outra boca as plantas e ir ao campo, bem como às feiras e aos mercados com olhos clínicos em busca do diferente, do não convencional.

Ainda por volta do ano 2002 apresentei a proposta ao Botânico H. Lorenzi para fazermos um livro com fotos e receitas destas plantas alimentícias desconhecidas pela maior parte da população. Ele ponderou e questionou muito, mas topou o desafio, o qual entre a proposta inicial e sua publicação demandou cerca de 12 anos. Em 2004 iniciei o doutorado na Faculdade de Agronomia/UFRGS, no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, sob a orientação da Profa. Dra. Ingrid B.I. de Barros e juntos e com muitos amigos e parceiros tanto desta universidade quanto de outras instituições, bem como agricultores e feirantes e notadamente os parceiros do Sítio Capororoca (www.sitiocapororoca.com.br), onde as pesquisas de campo e muitas experiências de culinária e de comercialização na feira foram feitas.

A tese envolveu um trabalho extenuante de campo (coletas, preparo de área/plantios, manejos, viagens, fotografias), de cozinha, de laboratório com as análises de composição centesimal e os preparos para as análises minerais de dezenas de espécies. Bem como o intenso trabalho de revisão bibliográfica e de sistematização dos dados das 312 espécies listadas como tendo potencial alimentício na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). A tese foi defendida no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária/UFRGS no dia 14/11/2007 com eclética banca e o processo foi intenso e longo. Creio que se iniciou às 14:00 horas e terminou completamente por volta das 19:00 horas. Pela minha experiência em defesas dos colegas como plateia e também a bastante tempo participando de bancas diversas Brasil afora como membro de banca avaliadora, a minha defesa teve um público recorde, com mais de 70 participantes e a grande maioria ficou até o final. Soube recentemente que um dos membros da banca, o conhecido e querido Prof. Dr. Lin Chau Ming (também agricultor e entusiasta das PANC), tarimbado pesquisador costuma falar que nunca participou de banca com plateia tão volumosa. Isto não é (só) exibicionismo, mas é um fato histórico e muito gratificante para demonstrar que em 2007, o tema já atraía muitos interessados. Inclusive um membro da plateia pediu autorização para gravar todo ritual de defesa. Salienta-se claro que ao final tinha vários pratos com incorporação destas espécies feitos principalmente por alguns então estudantes de Gastronomia e equipe do Capororoca entusiasmados com estes ingredientes diferenciados.

A versão final da Tese foi entregue no início de janeiro de 2008 tanto a versão impressa (562 p.) quanto a versão em PDF que está desde então disponível para acesso e download no LUME (Banco Digital de Teses e Dissertações) – http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12870,  sendo hoje provavelmente a Tese mais acessada de toda a história da Faculdade de Agronomia (28.236 downloads e 41.240 acessos – http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12870/stats). E, felizmente, tem servido de subsídios e estímulos para diversos outros trabalhos, monografias, dissertações, teses, artigos, cartilhas, livros, documentários/vídeos, além de estímulos para agricultores repensarem e diversificarem seus cultivos. E não somente no Brasil, a tese tem sido baixada em diversos países do mundo nos diferentes continentes, conforme mostra o site de estatística do UFRGS citado.

Defendida e entregue a tese, alguns meses depois (14/04/2008) comecei a trabalhar como concursado da área de Agroecologia da então Escola Agrotécnica Federal de Manaus, atual IFAM-CMZL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste), onde sou docente. Agroecologia e PANC têm tudo a ver e uma das lacunas dos sistemas agroecológicos é a efetiva incorporação aos agroecossistemas das frutas e hortaliças sensu lato PANC, diversificando as matrizes agrícolas locais e incorporando paulatinamente aos cardápios familiares e dos restaurantes ingredientes inusitados.

Por incrível que pareça o acrônimo PANC citado já aqui desde o título e timidamente ao longo do texto, pois é muito difícil atualmente se referir a esta categoria de plantas sem utilizar o “PANC”, nunca foi utilizado nem no título nem nas 562 páginas da minha. Não sei como, mas passou despercebido e não me ocorreu o acrônimo nos títulos e falas das palestras e nem na tese e sempre foi usada a expressão longa. Minha orientadora e nem mesmo os membros da banca sugeriram.

Este nome foi cunhado e começou a ser utilizado durante a execução do projeto coordenado pela Nutricionista Irany Arteche, promovido pela Superintendência da CONAB/PNUD (Companhia Nacional de Abastecimento/ Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Este projeto foi realizado em assentamentos e acampamentos do MST no RS (Nova Santa Rita e entorno).  E tornado público a partir da disponibilização online de um documentário (vídeo) gravado por uma dupla de jornalistas do Coletivo Catarse. Na época, final de 2008, o YouTube não aceitava vídeos longo e eles dividiram em quatro partes os cerca de 34 minutos do vídeo, as quais tiveram milhares de acesso cada uma. Agora o vídeo está online em um único vídeo e já foi acessado por milhares de pessoas (64.654 visualizações até 05/03/2018 – https://www.youtube.com/watch?v=iieB_jhhaC0). Pelo que me consta é o vídeo mais assistido deste Coletivo, além ser gravado e bastante projetado em aulas e eventos relacionados à temática Brasil afora.

É um “termo” fácil de falar e bem eufônico. O conceito representado pelo acrônimo PANC é mais amplo e flexível para tentar categorizar este grupo de plantas subutilizadas ou negligenciadas pelo grande público. Maiores detalhes sobre PANC são discutidos na introdução do livro PANC. Este “movimento PANC” nasceu no RS e espalhou-se para o Brasil timidamente a partir 2003 com minhas palestras e cursos de campo e cozinha e intensificou-se a partir disponibilização da tese online a partir de janeiro de 2008; atingiu um público eclético a partir dos vídeos do projeto PANC anteriormente citado. E vem atingindo proporções históricas a partir da publicação do que chamamos “Livro PANC” – Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas (Editora Plantarum – www,plantarum.com.br). Este livro em coautoria com H. Lorenzi virou o best-seller da Editora e desde seu lançamento em 2014 a tiragem já atingiu 35.000 exemplares. Naturalmente, que este número poderia aumentar muito se o livro estivesse efetivamente exposto em pilhas nas entradas boas livrarias do país, especialmente em livrarias de aeroportos para pronta-entrega.

Por uma feliz e grata coincidência o livro foi concluído em 2014, ano que FAO/ONU decretou o Ano Internacional da Agrobiodiversidade e PANC têm tudo a ver com esta diversificação das espécies agrícolas de interesse para a alimentação humana. E também fomos convidados a participar do Mesa Tendência daquele ano, cujo tema também tinha tudo a ver com as PANC (Conexão Essencial – Agricultor e Cozinha) para divulgar a pesquisa e fazer um pré-lançamento do livro neste consagrado evento da Gastronomia brasileira. Muitos cozinheiros e chefs renomados e talentosos, além de jovens estudantes de Gastronomia e demais interessados na Nutrição e Ciências dos Alimentos e boa comida puderam adquirir a obra autografada pelos autores no evento (04/11/2014). Logo em seguida ocorreu o lançamento oficial no bucólico e didático Jardim Botânico Plantarum em Nova Odessa/SP (www.plantarum.org.br). Ocorreu um Workshop com diversas palestras sobre as PANC com agrônomos, biólogos e cozinheiros. E as PANC foram incorporadas em todos os pratos do almoço para cerca de 300 participantes e teve grande aceitabilidade.

Desde então o tema e o livro têm sido contemplados em diversos programas de TV, matérias de jornais e revistas impressos e online no Brasil e no exterior, sites diversos, blogs e páginas no Facebook com muitos seguidores com a disponibilização de receitas ricas e rebuscadas. Muitos programas de culinária também têm abordados o tema PANC e usados ingredientes de PANC em suas receitas, e,g., Bela Cozinha, Vida + Bela e MasterChef, bem como já abordado em quadros do Fantástico e do Globo Rural.

E 30/03/2018 tivemos o Globo Repórter das PANC com a participação dos principais autores, atores e sujeitos que estudam, produzem, processam, cozinham, vendem, divulgam, compram e, enfim, que comem as PANC. Este é um dos programas mais bem produzidos da televisão aberta brasileira e com grande impacto na sociedade e que atinge um público heterogêneo e muito grande. Espera-se que seja um divisor de água e o acrônimo e a expressão sejam cada vez mais difundidos e popularizados e que as PANC mais comuns, abundantes, de fácil extrativismo/cultivo/processamento sejam melhor incorporadas nas lavouras, hortas e jardins e que cheguem efetivamente à mesa dos brasileiros tanto nas residências, em nossas refeições diárias, como nos restaurantes comerciais e institucionais,  seja como aperitivos, pratos de entradas, pratos principais, bebidas diversas, nas sobremesas e digestivos.

Para a isso conscientização, a informação e formação de tomadores de decisão sejam políticas e/ou de empreendedorismo são essenciais. Especialmente os refeitórios das creches, escolas e universidades, os famosos Restaurantes Universitários (RU), deveriam ser restaurantes didáticos e pedagógicos, ou seja, os estudantes desde a mais tenra idade até a graduação e a pós-graduação deveriam ter acesso verduras, legumes, condimentos, frutas diversos, especialmente os locais, sazonais e mais adaptados e de fácil em cada bioma do Brasil.

Mas, com a simplificação, a quimificação e a crescente urbanização nossa alimentação passou ser cada mais monótona e repetitiva ao longo dos 365 do ano. Monotonia no prato é reflexo de mentes monótonas e da monotonia no campo (i.e., da monocultura baseada em moto-mecanização pesada; insumos industrializados diversos – agrotóxicos, adubos sintéticos; espécies transgênicas e poucas cultivares). Logo, se você leitor(a) ousar comprar ingredientes diferenciados (não convencionais) nas feiras e mercados e deixar de comprar ou minimizar a aquisição de espécies e ingredientes sabidamente pobres em nutrientes e/ou ricos em resíduos de agrotóxicos e/ou que gaste muita energia para ser produzido e/ou transportado até o destino final já estará contribuindo para estimular a Agricultura Agroecológica e para a mudança de paradigma em relação aos ditos “matos” porque não estão nos pratos.

A expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais e o acrônimo PANC comemoraram 10 anos em 2018. Um forte indicador do uso e incorporação deste acrônimo pelo meio científico e acadêmico brasileiro é plataforma do currículo Lattes do CNPq:

Apenas pessoas com Doutorado:

  • PANC – 80 currículos cadastrados;
  • PANCs (com s minúsculo – eu mesmo usava no início e não recomendo mais) – 70 CV cadastrados e muito provavelmente a maioria diferente do anterior;
  • Plantas alimentícias não convencionais – 204 currículos.
  • Demais pesquisadores (Mestres, Graduados, Estudantes, Técnicos etc.):
  • PANC – 154 currículos cadastrados;
  • PANCs – 123 currículos cadastrados e muito provavelmente a maioria diferente do anterior;
  • Plantas alimentícias não convencionais – 282 currículos.

Logo, se considerarmos todos os profissionais para o PANC (234); PANCs (193) e a expressão completa – Plantas alimentícias não convencionais (486) profissionais cadastrados na Plataforma Lattes até 05/03/2018 (http://lattes.cnpq.br/).

Ainda estamos muito longe da utopia e, especialmente, da eutopia, que é encontrarmos cardápios e Buffet com a incorporação de PANC e também encontrarmos produtos prontos ou processados como sorvetes, sucos, geleias, licores, cervejas e pães com adição de folhas, frutos/frutas e/ou batatas de PANC. Mas, já existe alguns restaurantes e outros estabelecimentos pioneiros no Brasil com PANC nos pratos, e.g., vitória-régia, taioba, chaia, picão-preto, ora-pro-nóbis, moringa, serralha, minipepinos nativos, flores e frutas diversas, dentre algumas outras espécie. Mas, as PANC é um mundo a parte para ser mais bem pesquisado nos laboratórios, no campo e na cozinha.  Mas como escrevemos na introdução do livro PANC a expectativa é de uma Revolução Gastronômica. Este livro já vem sendo adotado e muito utilizado nas faculdades públicas e privadas de Gastronomia, Engenharia e Ciências de Alimentos, Nutrição, Biologia, Agronomia, entre outras. Logo, estes novos profissionais já adentrarão ao mundo do trabalho com visões mais holísticas e quem sabe comecem a criar demandas por ingredientes não convencionais.

Atualmente, este interesse tem crescido muito na Gastronomia e Nutrição, mas ainda precisa ser muito repensado nas clássicas escolas de Agronomia, onde diversas disciplinas tradicionais precisam ser adequadas às novas demandas por ingredientes não convencionais, locais, sazonais, com a menor liberação de carbono para atmosfera. Assim, o escopo das disciplinas de Fruticultura e Olericultura, por exemplo, precisa ser revisto para enquadrar como frutas e hortaliças, respectivamente, espécies até então tratadas como mato, invasoras, infestantes, nocivas ou daninhas.

Neste período de 10 anos, o “bebê” recém-nascido precisava de cuidados especiais, começou a engatinhar, fazer caretas e gracinhas e a cair no gosto das pessoas. Agora é um pré-adolescente que quer alçar voos próprios. Portanto, a expectativa é que daqui a 10 anos (2028) tenhamos muitos mais ingredientes nativos (autóctones) e os exóticos adaptados aos diferentes biomas brasileiros incorporados às lavouras, pomares, hortas, quintais e jardins, nos sistemas agrícolas rurais e urbanos.

E assim, além das PANC continuarem saindo pelas bocas das pessoas durante as conversas, aulas, palestras e programas de TV cada vez com mais frequência e naturalidade, espera-se que continue e amplie a frequência, a constância e a diversidade de entrada das PANC pela boca, ou seja, sua ingestão como alimento seja cada vez comum na nossa culinária do dia a dia. Afinal, a biodiversidade alimentícia que não entra pela boca não tem valor real e fica apenas no campo da retórica abstrata, não gerando calorias, nutrientes, bem-estar, bem-viver, saúde e conservação da natureza, além de poder contribuir para geração de emprego, trabalho e renda. O uso real das PANC é um campo vasto e muito promissor para setores diversos, como turismo rural, gastronomia e até para indústria alimentícia com incorporação de ingredientes inusitados nas pousadas, hotéis, restaurantes e também nos produtos alimentícios processados.

Todos nós temos que fazer nossas partes, especialmente como comensais que somos, selecionando e valorizando os alimentos locais. Bem como valorizando e valorando melhor o profissional mais importante do mundo que é quem coloca comida em nossas mesas, o agricultor. Afinal “Somos Agro”, mas temos a muito esquecido nosso lado de agricultor e poucos querem trabalhar efetivamente no campo. Eu felizmente consegui retornar ao campo, uma volta às origens que relatei anteriormente e voltei a ser agricultor. Atualmente, vivo e cultivo diversas espécies de PANC para autoconsumo e já forneço para alguns restaurantes. O pequeno sítio onde moro chama-se “Sítio PANC”.

Alimento e água são as coisas mais importantes do mundo e um não se dissocia do outro. As PANC adaptadas aos diferentes ambientes do planeta têm grande potencial para incrementar as matrizes agrícolas mundiais, diversificar cardápios, minimizar a fome real e a fome oculta e contribuir para a conservação dos solos, das águas e dos recursos naturais em geral.

Valdely Kinupp | valkinupp@yahoo.com.br ou val@ifam.edu.br

Doutor em Fitotecnia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM-CMZL) e Fundador-Curador do Herbário EAFM deste instituto. Autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi.