O título desse texto é uma afirmação e uma provocação. Existem mais formas de manifestação da fome do que o senso comum nos ensina. Você já pensou sobre isso?

Se afirmamos que a maioria das pessoas no globo passam fome hoje, você acreditaria? Por um lado você pode concordar, pensando que fome é sinônimo de apetite e/ou vontade de comer, todo mundo tem fome todos os dias. Este é um tipo de fome, a definimos como fome aguda. Ok, até aí, tudo certo. Quando estamos com fome, abrimos a geladeira de casa ou vamos à uma padaria e saciamos nossa vontade.

Precisamos lembrar que não são todas as pessoas que possuem recursos para adquirir seu alimento. Nesse sentido, se uma pessoa fica com fome por muito tempo e/ou não sacia em quantidade suficiente seu apetite e necessidades biológicas de manutenção de vida, essa fome é chamada crônica. Existe ainda uma terceira hipótese com duas situações: eu tenho algum recurso para comprar comida, mas não o suficiente para consumir várias opções, ou; eu tenho recursos para comprar a comida que eu quiser e opto por consumir alimentos que não tomem muito do pouco tempo de uma rotina agitada e estressante em uma metrópole. Essas duas histórias contam com um elemento em comum: uma alimentação não saudável. Hábitos alimentares monótonos e/ou em quantidade insuficiente para suprir necessidades nutricionais de uma pessoa gera o que estudiosos chamam de fome oculta. As fomes oculta e crônica são estados nutricionais que se desdobram na desnutrição, que ainda pode se expressar em subnutrição ou obesidade.

Três fotografias de um mesmo fenômeno, três fotografias que retratam as fomes do mundo. Quem dera que as lutas de combate à fome ocorressem apenas no âmbito da fome aguda! Assim, entramos em um “diálogo perigoso” como diria Josué de Castro, médico profeta que teve a ousadia de marcar a sociedade com seus estudos sobre fome no Brasil. Há 70  anos, em sua obra Geografia da fome, Josué demonstrou a influência dos fatores socioeconômicos sobre os fatores biológicos da nossa população, através da deficiência alimentar e da predominância de interesses privados sob os coletivos.  

A fome não se limita a uma enfermidade biológica, mas sim é uma doença social fruto da má distribuição de alimentos no globo; do sistema agroalimentar super mecanizado e dependente de agroquímicos, e; de uma indústria alimentícia preocupada no excessivo consumo de seus produtos, muitas vezes, não saudáveis. Em suma, a fome é um desdobramento social da forma como a cadeia de produção de alimentos opera hoje, embasada nos princípios do capitalismo corporativista, sistema político econômico que consome nossos dias.

É importante ressaltar que ambos os quadros (obesidade e desnutrição) são graves e evocam múltiplos olhares para o planejamento e execução de estratégias que em uma primeira instância os reduzam e em melhores perspectivas efetive sua devida erradicação. Esse adoecimento generalizado é gerado em decorrência de inúmeros fatores, tais como o ultra processamento de alimentos pela indústria alimentícia, o uso excessivo de agrotóxicos e as monoculturas que massificam e monotonizam a alimentação das pessoas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization) estima que cerca de 805 milhões de pessoas são cronicamente subnutridas entre os anos de 2012 e 2014. É um número expressivo, mas está dentro de uma tendência de redução. Este número é de 100 milhões menos que na última década e 209 milhões menos que na década de 90. Estudiosos apontam que, inversamente proporcional está à prevalência de sobrepeso e obesidade na população mundial e brasileira, cresce a cada década alcançando todas as faixas etárias.

Esses problemas sociais colocados sob o plano de fundo global parecem possuir um peso de impossibilidade em sua resolução. No entanto, ações locais e suas devidas articulações regionais podem ser potentes possibilidades de minimizar os impactos que uma má alimentação geradora de efeitos em sujeitos e seus contextos tanto numa condição abundante de alimentos como também na falta destes. São as potencialidades encontradas no encontro e na convergência de saberes e práticas sustentáveis que nos fortalecem para seguir os passos de tantas pessoas no combate às fomes do mundo.

Referências usadas.

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. The State of Food Insecurity on the World – Strengthening the enabling environment for food security and nutrition. Rome, 2014.

MONTEIRO, C. A. A dimensão da pobreza, da desnutrição e da fome no Brasil. Estudos Avançados. São Paulo, 2003.