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PANC: 10 anos do acrônimo no Brasil | Autobiografia de Valdelly Kinnup

PANC: 10 anos do acrônimo no Brasil | Autobiografia de Valdelly Kinnup

Valdelly Kinnup

O Brasil é o país da megafitodiversidade, contudo, utiliza pouco da sua vasta riqueza botânica para o consumo corriqueiro nas nossas triviais três grandes refeições diárias. Os ingredientes diferenciados mesmo na dita Alta Gastronomia ou Alta Cozinha são utilizados de forma incipiente. Mesmo restaurantes mais refinados e com pegadas inovadoras de valorização dos ingredientes locais, regionais ou nacionais ainda deixam muito a desejar em termos de usos reais e de forma mais intensa e constante, nos cardápios fixos ou mesmo nos cardápios diários ou sazonais. E muitos dos que tem feito isso nos últimos anos, na maioria das vezes, fazem de uma forma um pouco equivocada, pois utilizam os ingredientes inusitados em quantidades muito pequenas e/ou apenas os utilizam na finalização de pratos e, muitas vezes, apenas como elemento decorativo.

Naturalmente, que um dos gargalos para o uso mais efetivo e real destes ingredientes não convencionais é a falta da matéria-prima, ou seja, não tem produtores e fornecedores com regularidade e/ou quantidade/qualidade. Mas, a demanda gera a oferta e a oferta atrelada a informação advinda dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão podem também gerar a demandas. A célebre frase: “Não vende porque não tem e não tem (nas feiras, restaurantes,…) porque não vende” (i.e., não tem procura dos clientes e comensais).

Diante deste grande potencial alimentício da flora brasileira, desde os tempos coloniais, diferentes naturalistas e autores de áreas diversas do conhecimento vem tentando sistematizar a catalogar a diversidade de plantas com potenciais para a alimentação humana. Contudo, era algo feito de forma bem acadêmica e com circulação mais restrita, seja pelo escopo da obra seja pelas limitações gráficas, de divulgação e circulação consequência dos longínquos mais de 300 anos de colonização fechada do Brasil.

Mesmo, no século XX as poucas publicações disponíveis no Brasil sobre plantas com potenciais alimentícios eram muito escassas e de pouca envergadura, abordando em geral poucas espécies, sem receitas ou receitas sem as devidas ilustrações e/ou fotografias que não instigava tanto a comunidade acadêmica e nem os comensais em geral. Além disso, não tinha uma expressão ou sigla/abreviatura/acrônimo eufônico e midiático que congregasse esta temática de pesquisa, ensino e extensão e atualmente uma área de engajamento profissional e de empreendedorismo com facetas múltiplas.

Muitos destes trabalhos (livros, cartilhas, Dissertações ou Teses) tinham no título palavras como “plantas ruderais”, “ervas espontâneas”, “frutas indígenas”, “pomalogia”, “plantas úteis”, “alimentos regionais”, “ervas daninhas comestíveis”, “ervas comestíveis”, “plantas alimentícias alternativas”, “plantas comestíveis silvestres”, entre outros termos e/ou expressões pouco chamativos ou convidativos. Além de muito limitantes geograficamente e/ou em relação às partes com usos alimentícias (e.g., segregando frutas, hortaliças, plantas aromáticas, condimentares e miscelâneas com usos alimentícios de difícil categorização, e.g., sucedâneas de produtos diversos, tais como sal, açúcar, corantes, água,…). Mesmo expressões um pouco mais técnica tinham restrições em relação a grande diversidade que deve ou deveria compor nossa alimentação cotidiana, e.g., “hortaliças não convencionais” (HNC); “hortaliças tradicionais” (HT) ou “hortaliças regionais” (HR) e estes acrônimos sem vogais e/ou muito curtos não tiveram e não têm muito chamariz e apelo.

Eu mesmo nos meus primeiros textos e títulos de resumos ou palestras e minicursos por um tempo usei o nome pouco informativo ou limitado e que podia ser interpretado de forma errada (“plantas alimentícias alternativas”). O acrônimo seria “PAA” que eu saiba nunca foi utilizado neste sentido e não cairia no gosto popular. Atualmente é o acrônimo do Programa de Aquisição de Alimentos. Programa interessante, mas que ainda deixa a desejar nas diferentes regiões do país, pois a lista a ser adquirida é um pouco fechada e, em geral, não contempla ou não aceita alimentos não convencionais devido ao desconhecimento ou da falta em escala de ingredientes das PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Aqui cabe destacar que muitos autores e pesquisadores usam ainda o termo comestíveis ao invés de alimentícias, daí falam e/ou escrevem “plantas comestíveis alternativas” ou “plantas comestíveis silvestres”. Além dos acrônimos não ficarem eufônicos, o termo “comestíveis” é limitado, pois literalmente não incluiria os alimentos líquidos ou pastosos que são bebidos (“bebíveis”) e não comidos.  A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) tem no seu nome “alimentação” e define como plantas alimentícias (“food plants”). E “alternativas” e “silvestres” também tem suas limitações e restrições bem explicitado na introdução do livro PANC.

O que são plantas alimentícias?

 

Conforme a FAO e outras fontes referenciadas no livro PANC, este é o conceito que adotamos na minha Tese e no livro: plantas alimentícias sensu lato são aquelas que possuem uma ou mais partes (e ou derivados destas partes) que podem ser utilizados na alimentação humana, tais como: raízes tuberosas, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes ou ainda látex, resina e goma, ou que são usadas para obtenção de óleos e gorduras alimentícios. Inclui-se neste conceito também as especiarias, substâncias condimentares e aromáticas, assim como plantas que são utilizadas como substitutas do sal, como edulcorantes (adoçantes), amaciantes de carnes, corantes alimentícios e aquelas utilizadas no fabrico de bebidas, tonificantes e infusões.

O que são as PANC?

 

PANC nada mais é do que um acrônimo para tentar contemplar as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício citada(s) antes que não são comuns, não são corriqueiras, não são do dia a dia da grande maioria da população de uma região, de um país ou mesmo do planeta, já que temos atualmente uma alimentação básica muito homogênea, monótona e globalizada. Não estamos usando plural, pois apesar do uso corrente e comum do ’s e/ou do s (e.g., PANCs ou PANC’s; SAFs ou SAF’s; PFNMs ou PFNM’s, só para citar alguns acrônimos comuns no meio agronômico, florestal e agora gastronômico-nutricional), pois pelo que nos consta não é correto no português clássico. Neste caso, o plural faz-se com o artigo (e.g., a PANC ou as PANC). Facilita a fala e a grafia, enfim a comunicação.

O conceito PANC é o mais adequado e o mais amplo e por isso mesmo caiu no gosto popular e hoje até as crianças brincam e falam, além permitir trocadilhos diversos. O termo PANC contempla todas as plantas que têm uma parte ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas, ruderais ou cultivadas. Inclusive espécies alimentícias convencionais, mas que possuem partes, porções e/ou produtos alimentícios não convencionais também pelo meu conceito amplo são consideradas PANC. Logo, o acrônimo contempla a bananeira (e.g., uso do coração e do palmito); mamoeiro (com uso da medula, dos frutos verdes, sementes e/ou flores) e chuchu (e.g., uso das raízes tuberosas e folhas/talos) e outras espécies que têm formas usos e partes de usos alimentícios potenciais, mas pouco ortodoxos e mal conhecidos ou desconhecidos pela maioria esmagadora da população. Estas espécies não podem ficar de fora, pois um dos objetivos da popularização das PANC é apresentar opções de plantas ou partes destas que possam ser consumidas, trazendo à tona, à baila espécies negligenciadas e subutilizadas.

Como “nasceram” as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

 

Antes preciso contextualizar como eu nasci, onde e como vivi e depois como eu vivo. Eu nasci em 1976 na zona rural (São Sebastião do Paraíba, município de Cantagalo/RJ). Este distrito (Arraial) fica à margem do rio Paraíba do Sul na divisa do Rio de Janeiro (RJ) com Minas Gerais (MG). Nasci de parto natural em casa. Sou o sétimo de nove irmãos (seis homens e três mulheres). Meus pais eram agricultores e toda a família trabalhava na roça como colono numa propriedade rural bem distante e com condições bem limitantes, inclusive sem luz elétrica e sem água encanada. Quando eu tinha aproximadamente 1,5 ano minha família mudou-se para outro sítio bem afastado no distrito de Amparo, Nova Friburgo/RJ para trabalhar como caseiro cuidando da propriedade. Neste sítio também sem energia elétrica vivi até os 19 anos. Desde muito pequeno participava das atividades na roça, seja levando comida ou ajudando nas lidas diárias de roçagens, capinas, manejos em geral, cuidando das criações, plantios, colheitas e na cozinha preparando comidas. Estudei à luz de lamparinas a querosene e/ou velas até o atual Ensino Médio morando e trabalhando no sítio.

Aos 19 anos fui aprovado no Vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para Ciências Biológicas e então mudei (1996) radicalmente do Sudeste para o Sul do Brasil e do interior para uma das maiores cidades da região Sul do país. A UEL foi uma experiência formidável e inesquecível e lá iniciei meus estudos botânicos de modo formal e me apaixonei ainda mais pelas plantas que eu comia, cozinhava e usava como forrageiras para os coelhos e porcos desde a infância. Durante a graduação tive muitas oportunidades de estágio e vivências e viagens pelo Brasil. Sempre coletando e herborizando plantas e comendo/inventando receitas com aquelas espécies que já conhecia ou tomava conhecimento serem alimentícias. Conheci superficialmente a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e o Cerrado, além da Mata Atlântica do Sul e a Mata com Araucária e campos nas disciplinas e viagens para cursos de campo e congressos durante a graduação.

No início de 2000 já com a faculdade concluída faltando apenas a colação de grau fiz estágio com o icônico Agrônomo-Botânico e autor dos didáticos e aprazíveis livros de Botânica da Editora Plantarum, Harri Lorenzi. Em 2000 mudei para Manaus/AM para fazer Mestrado na Botânica do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) onde ampliei meus conhecimentos botânicos e tive oportunidade de conhecer parte da rica flora amazônica, notadamente aquelas de interesse alimentício, sempre experimentando novos sabores nos trabalhos de campo e nas incursões às feiras e mercados locais.

Em 2002 me mudei para Porto Alegre/RS onde em poucos meses consegui uma vaga como Professor Substituto no Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Nesta oportunidade conheci grandes botânicos, colegas desta universidade e de outras instituições deste estado que tem uma grande tradição nos estudos botânicos e que muito contribuiu e contribui para a Botânica Nacional. Trabalhando com diversas disciplinas, entre elas: Botânica Econômica e “Trabalho de Campo”, pude focar na minha grande paixão que é comer! E comer comida, especialmente, feita com ingredientes inusitados ou não convencionais. E a melhor das comidas é aquela comida da “mão para a boca”, ou seja, frutos, folhas, flores e miscelâneas que podes ser coletados e consumidos in natura, uma questão de sobrevivência ou de bem-estar (saciar a fome e/ou a sede e entreter) no dia a dia nas andanças e trabalhos nas roças, nas florestas, nos campos e mesmo pelas cidades.

A partir destas disciplinas e de contatos com colegas que direta ou indiretamente pesquisavam plantas diferenciadas que podiam ser consumidas começou a gerado as ideias e os ideais que levariam mais tarde a criação e popularização da expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Um dos focos fortes na disciplina de Botânica Econômica era o potencial alimentício subutilizado ou negligenciado da flora nativa e das exóticas cultivadas ou naturalizadas com visitas a feiras, agricultores e apresentação de seminários sobre a temática, além provarmos receitas com estes ingredientes até então raros ou desconhecidos para a grande maioria, senão todos da turma. E nas expedições de campo aos finais de semana íamos identificando plantas nas constantes paradas ao longo das rodovias, falando dos seus potenciais e já consumindo aquelas que podia ser consumidas cruas e estavam no ponto de coleta.

Além disso, era comum levar o excedente e aquelas que precisavam de processamento e/ou eram mais saborosas quando processadas (notadamente cozidas, fritas ou assadas) para preparar à noite nos alojamentos. E as mais abundantes eram trazidas inclusive para minha casa para o preparo saladas, pratos salgados diversos e as frutas para sucos, frisantes, geleias e licores. Assim começaram a surgir receitas e formas de aproveitamento inusitadas que geralmente eram compartilhadas com os colegas e estudantes nas semanas seguintes. Desta forma as pessoas começaram a conhecer e apreciar espécies até então desconhecidas como alimento.

Neste período conheci diversos professores que muito contribuíram para minha formação e consolidação das pesquisas e do conhecimento botânico e etnobotânicos. Cabe destacar o querido e já falecido Prof. Dr. Bruno Edgar Irgang que sempre deu um apoio moral e aportes de informações preciosas, além de ter me apresentado a sua então orientanda de doutorado, Andréia Maranhão Carneiro, que tinha como tema geral o estudo de plantas comestíveis espontâneas. Ela me indicou e/ou emprestou as referências bibliográficas mais básicas sobre plantas com usos alimentícios para que eu iniciasse uma leitura mais aprofundada e técnica sobre aquilo que já gostava de comer porque tinha aprendido com alguém ou em outras fontes e experimentações, mas sempre embasadas em conhecimentos botânicos e noções de Quimiotaxonomia prévios.

Mais adiante o B.E. Irgang me apresentaria a minha futura orientadora de doutorado. Deste período destaca-se também os colegas professores Dr. Paulo Brack e João André Jarenkow, com os quais aprendi muito da vegetação e flora gaúchas. Com este último, aprendi a comer os brotinhos tenros das pontas dos ramos da araucária, hoje imortalizado e difundido para o mundo, tornado de domínio público, no livro PANC. Logo em seguida tive a oportunidade de conhecer o célebre pesquisador argentino, Prof. Dr. Eduardo Hugo Rapoport (falecido em 15/05/2016 e a quem o livro PANC é dedicado), coorientador da A.M. Carneiro na pesquisa anteriormente mencionada. Ele proferiu uma agradável e pitoresca palestra no XI Encontro de Botânicos do RS (Santa Cruz do Sul – UNISC, 2002) sobre as “Malezas Comestibles”. No dia seguinte a palestra, passeamos juntos pelos terrenos baldios e ruas de Santa Cruz do Sul/RS observando, comendo e coletando algumas plantas alimentícias. Daí nasceu boa amizade e colaborações. Ele me indicou posteriormente bibliografias importantes e compartilhou seus artigos e livros. Como fruto desta parceria eu fui ministrar palestras e oficinas de campo e cozinha com ele em duas oportunidades na Argentina, perfazendo quatro províncias e ele veio proferir palestra no Congresso de Botânica em Curitiba/PR (2005) e na Reunião da SBPC em Manaus/AM (2009), realizando o sonho de conhecer a Amazônia brasileira.

No ano de 2004 eu apresentei o primeiro resumo expandido sobre o tema (mas, usando “plantas alimentícias alternativas”) no então II Congresso Nacional de Agroecologia em Porto Alegre/RS e ministrei uma oficina de identificação destas plantas e preparo de receitas nas dependências do Jardim Botânico de Porto Alegre, em parceria com A.M. Carneiro. A oficina foi um estrondo de público com mais de 70 participantes entre inscritos e curiosos que abarrotaram a cozinha para ver as plantas coletadas amontoadas e degustar as inéditas receitas. A partir daí até então não parei mais de participar de eventos públicos ou privados com palestras e cursos de campo e cozinha, ajudando sobremaneira a formar ou ao menos instigar outras pessoas a pesquisarem mais e a olharem com outros olhos e outra boca as plantas e ir ao campo, bem como às feiras e aos mercados com olhos clínicos em busca do diferente, do não convencional.

Ainda por volta do ano 2002 apresentei a proposta ao Botânico H. Lorenzi para fazermos um livro com fotos e receitas destas plantas alimentícias desconhecidas pela maior parte da população. Ele ponderou e questionou muito, mas topou o desafio, o qual entre a proposta inicial e sua publicação demandou cerca de 12 anos. Em 2004 iniciei o doutorado na Faculdade de Agronomia/UFRGS, no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, sob a orientação da Profa. Dra. Ingrid B.I. de Barros e juntos e com muitos amigos e parceiros tanto desta universidade quanto de outras instituições, bem como agricultores e feirantes e notadamente os parceiros do Sítio Capororoca (www.sitiocapororoca.com.br), onde as pesquisas de campo e muitas experiências de culinária e de comercialização na feira foram feitas.

A tese envolveu um trabalho extenuante de campo (coletas, preparo de área/plantios, manejos, viagens, fotografias), de cozinha, de laboratório com as análises de composição centesimal e os preparos para as análises minerais de dezenas de espécies. Bem como o intenso trabalho de revisão bibliográfica e de sistematização dos dados das 312 espécies listadas como tendo potencial alimentício na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). A tese foi defendida no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária/UFRGS no dia 14/11/2007 com eclética banca e o processo foi intenso e longo. Creio que se iniciou às 14:00 horas e terminou completamente por volta das 19:00 horas. Pela minha experiência em defesas dos colegas como plateia e também a bastante tempo participando de bancas diversas Brasil afora como membro de banca avaliadora, a minha defesa teve um público recorde, com mais de 70 participantes e a grande maioria ficou até o final. Soube recentemente que um dos membros da banca, o conhecido e querido Prof. Dr. Lin Chau Ming (também agricultor e entusiasta das PANC), tarimbado pesquisador costuma falar que nunca participou de banca com plateia tão volumosa. Isto não é (só) exibicionismo, mas é um fato histórico e muito gratificante para demonstrar que em 2007, o tema já atraía muitos interessados. Inclusive um membro da plateia pediu autorização para gravar todo ritual de defesa. Salienta-se claro que ao final tinha vários pratos com incorporação destas espécies feitos principalmente por alguns então estudantes de Gastronomia e equipe do Capororoca entusiasmados com estes ingredientes diferenciados.

A versão final da Tese foi entregue no início de janeiro de 2008 tanto a versão impressa (562 p.) quanto a versão em PDF que está desde então disponível para acesso e download no LUME (Banco Digital de Teses e Dissertações) – http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12870,  sendo hoje provavelmente a Tese mais acessada de toda a história da Faculdade de Agronomia (28.236 downloads e 41.240 acessos – http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12870/stats). E, felizmente, tem servido de subsídios e estímulos para diversos outros trabalhos, monografias, dissertações, teses, artigos, cartilhas, livros, documentários/vídeos, além de estímulos para agricultores repensarem e diversificarem seus cultivos. E não somente no Brasil, a tese tem sido baixada em diversos países do mundo nos diferentes continentes, conforme mostra o site de estatística do UFRGS citado.

Defendida e entregue a tese, alguns meses depois (14/04/2008) comecei a trabalhar como concursado da área de Agroecologia da então Escola Agrotécnica Federal de Manaus, atual IFAM-CMZL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste), onde sou docente. Agroecologia e PANC têm tudo a ver e uma das lacunas dos sistemas agroecológicos é a efetiva incorporação aos agroecossistemas das frutas e hortaliças sensu lato PANC, diversificando as matrizes agrícolas locais e incorporando paulatinamente aos cardápios familiares e dos restaurantes ingredientes inusitados.

Por incrível que pareça o acrônimo PANC citado já aqui desde o título e timidamente ao longo do texto, pois é muito difícil atualmente se referir a esta categoria de plantas sem utilizar o “PANC”, nunca foi utilizado nem no título nem nas 562 páginas da minha. Não sei como, mas passou despercebido e não me ocorreu o acrônimo nos títulos e falas das palestras e nem na tese e sempre foi usada a expressão longa. Minha orientadora e nem mesmo os membros da banca sugeriram.

Este nome foi cunhado e começou a ser utilizado durante a execução do projeto coordenado pela Nutricionista Irany Arteche, promovido pela Superintendência da CONAB/PNUD (Companhia Nacional de Abastecimento/ Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Este projeto foi realizado em assentamentos e acampamentos do MST no RS (Nova Santa Rita e entorno).  E tornado público a partir da disponibilização online de um documentário (vídeo) gravado por uma dupla de jornalistas do Coletivo Catarse. Na época, final de 2008, o YouTube não aceitava vídeos longo e eles dividiram em quatro partes os cerca de 34 minutos do vídeo, as quais tiveram milhares de acesso cada uma. Agora o vídeo está online em um único vídeo e já foi acessado por milhares de pessoas (64.654 visualizações até 05/03/2018 – https://www.youtube.com/watch?v=iieB_jhhaC0). Pelo que me consta é o vídeo mais assistido deste Coletivo, além ser gravado e bastante projetado em aulas e eventos relacionados à temática Brasil afora.

É um “termo” fácil de falar e bem eufônico. O conceito representado pelo acrônimo PANC é mais amplo e flexível para tentar categorizar este grupo de plantas subutilizadas ou negligenciadas pelo grande público. Maiores detalhes sobre PANC são discutidos na introdução do livro PANC. Este “movimento PANC” nasceu no RS e espalhou-se para o Brasil timidamente a partir 2003 com minhas palestras e cursos de campo e cozinha e intensificou-se a partir disponibilização da tese online a partir de janeiro de 2008; atingiu um público eclético a partir dos vídeos do projeto PANC anteriormente citado. E vem atingindo proporções históricas a partir da publicação do que chamamos “Livro PANC” – Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas (Editora Plantarum – www,plantarum.com.br). Este livro em coautoria com H. Lorenzi virou o best-seller da Editora e desde seu lançamento em 2014 a tiragem já atingiu 35.000 exemplares. Naturalmente, que este número poderia aumentar muito se o livro estivesse efetivamente exposto em pilhas nas entradas boas livrarias do país, especialmente em livrarias de aeroportos para pronta-entrega.

Por uma feliz e grata coincidência o livro foi concluído em 2014, ano que FAO/ONU decretou o Ano Internacional da Agrobiodiversidade e PANC têm tudo a ver com esta diversificação das espécies agrícolas de interesse para a alimentação humana. E também fomos convidados a participar do Mesa Tendência daquele ano, cujo tema também tinha tudo a ver com as PANC (Conexão Essencial – Agricultor e Cozinha) para divulgar a pesquisa e fazer um pré-lançamento do livro neste consagrado evento da Gastronomia brasileira. Muitos cozinheiros e chefs renomados e talentosos, além de jovens estudantes de Gastronomia e demais interessados na Nutrição e Ciências dos Alimentos e boa comida puderam adquirir a obra autografada pelos autores no evento (04/11/2014). Logo em seguida ocorreu o lançamento oficial no bucólico e didático Jardim Botânico Plantarum em Nova Odessa/SP (www.plantarum.org.br). Ocorreu um Workshop com diversas palestras sobre as PANC com agrônomos, biólogos e cozinheiros. E as PANC foram incorporadas em todos os pratos do almoço para cerca de 300 participantes e teve grande aceitabilidade.

Desde então o tema e o livro têm sido contemplados em diversos programas de TV, matérias de jornais e revistas impressos e online no Brasil e no exterior, sites diversos, blogs e páginas no Facebook com muitos seguidores com a disponibilização de receitas ricas e rebuscadas. Muitos programas de culinária também têm abordados o tema PANC e usados ingredientes de PANC em suas receitas, e,g., Bela Cozinha, Vida + Bela e MasterChef, bem como já abordado em quadros do Fantástico e do Globo Rural.

E 30/03/2018 tivemos o Globo Repórter das PANC com a participação dos principais autores, atores e sujeitos que estudam, produzem, processam, cozinham, vendem, divulgam, compram e, enfim, que comem as PANC. Este é um dos programas mais bem produzidos da televisão aberta brasileira e com grande impacto na sociedade e que atinge um público heterogêneo e muito grande. Espera-se que seja um divisor de água e o acrônimo e a expressão sejam cada vez mais difundidos e popularizados e que as PANC mais comuns, abundantes, de fácil extrativismo/cultivo/processamento sejam melhor incorporadas nas lavouras, hortas e jardins e que cheguem efetivamente à mesa dos brasileiros tanto nas residências, em nossas refeições diárias, como nos restaurantes comerciais e institucionais,  seja como aperitivos, pratos de entradas, pratos principais, bebidas diversas, nas sobremesas e digestivos.

Para a isso conscientização, a informação e formação de tomadores de decisão sejam políticas e/ou de empreendedorismo são essenciais. Especialmente os refeitórios das creches, escolas e universidades, os famosos Restaurantes Universitários (RU), deveriam ser restaurantes didáticos e pedagógicos, ou seja, os estudantes desde a mais tenra idade até a graduação e a pós-graduação deveriam ter acesso verduras, legumes, condimentos, frutas diversos, especialmente os locais, sazonais e mais adaptados e de fácil em cada bioma do Brasil.

Mas, com a simplificação, a quimificação e a crescente urbanização nossa alimentação passou ser cada mais monótona e repetitiva ao longo dos 365 do ano. Monotonia no prato é reflexo de mentes monótonas e da monotonia no campo (i.e., da monocultura baseada em moto-mecanização pesada; insumos industrializados diversos – agrotóxicos, adubos sintéticos; espécies transgênicas e poucas cultivares). Logo, se você leitor(a) ousar comprar ingredientes diferenciados (não convencionais) nas feiras e mercados e deixar de comprar ou minimizar a aquisição de espécies e ingredientes sabidamente pobres em nutrientes e/ou ricos em resíduos de agrotóxicos e/ou que gaste muita energia para ser produzido e/ou transportado até o destino final já estará contribuindo para estimular a Agricultura Agroecológica e para a mudança de paradigma em relação aos ditos “matos” porque não estão nos pratos.

A expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais e o acrônimo PANC comemoraram 10 anos em 2018. Um forte indicador do uso e incorporação deste acrônimo pelo meio científico e acadêmico brasileiro é plataforma do currículo Lattes do CNPq:

Apenas pessoas com Doutorado:

  • PANC – 80 currículos cadastrados;
  • PANCs (com s minúsculo – eu mesmo usava no início e não recomendo mais) – 70 CV cadastrados e muito provavelmente a maioria diferente do anterior;
  • Plantas alimentícias não convencionais – 204 currículos.
  • Demais pesquisadores (Mestres, Graduados, Estudantes, Técnicos etc.):
  • PANC – 154 currículos cadastrados;
  • PANCs – 123 currículos cadastrados e muito provavelmente a maioria diferente do anterior;
  • Plantas alimentícias não convencionais – 282 currículos.

Logo, se considerarmos todos os profissionais para o PANC (234); PANCs (193) e a expressão completa – Plantas alimentícias não convencionais (486) profissionais cadastrados na Plataforma Lattes até 05/03/2018 (http://lattes.cnpq.br/).

Ainda estamos muito longe da utopia e, especialmente, da eutopia, que é encontrarmos cardápios e Buffet com a incorporação de PANC e também encontrarmos produtos prontos ou processados como sorvetes, sucos, geleias, licores, cervejas e pães com adição de folhas, frutos/frutas e/ou batatas de PANC. Mas, já existe alguns restaurantes e outros estabelecimentos pioneiros no Brasil com PANC nos pratos, e.g., vitória-régia, taioba, chaia, picão-preto, ora-pro-nóbis, moringa, serralha, minipepinos nativos, flores e frutas diversas, dentre algumas outras espécie. Mas, as PANC é um mundo a parte para ser mais bem pesquisado nos laboratórios, no campo e na cozinha.  Mas como escrevemos na introdução do livro PANC a expectativa é de uma Revolução Gastronômica. Este livro já vem sendo adotado e muito utilizado nas faculdades públicas e privadas de Gastronomia, Engenharia e Ciências de Alimentos, Nutrição, Biologia, Agronomia, entre outras. Logo, estes novos profissionais já adentrarão ao mundo do trabalho com visões mais holísticas e quem sabe comecem a criar demandas por ingredientes não convencionais.

Atualmente, este interesse tem crescido muito na Gastronomia e Nutrição, mas ainda precisa ser muito repensado nas clássicas escolas de Agronomia, onde diversas disciplinas tradicionais precisam ser adequadas às novas demandas por ingredientes não convencionais, locais, sazonais, com a menor liberação de carbono para atmosfera. Assim, o escopo das disciplinas de Fruticultura e Olericultura, por exemplo, precisa ser revisto para enquadrar como frutas e hortaliças, respectivamente, espécies até então tratadas como mato, invasoras, infestantes, nocivas ou daninhas.

Neste período de 10 anos, o “bebê” recém-nascido precisava de cuidados especiais, começou a engatinhar, fazer caretas e gracinhas e a cair no gosto das pessoas. Agora é um pré-adolescente que quer alçar voos próprios. Portanto, a expectativa é que daqui a 10 anos (2028) tenhamos muitos mais ingredientes nativos (autóctones) e os exóticos adaptados aos diferentes biomas brasileiros incorporados às lavouras, pomares, hortas, quintais e jardins, nos sistemas agrícolas rurais e urbanos.

E assim, além das PANC continuarem saindo pelas bocas das pessoas durante as conversas, aulas, palestras e programas de TV cada vez com mais frequência e naturalidade, espera-se que continue e amplie a frequência, a constância e a diversidade de entrada das PANC pela boca, ou seja, sua ingestão como alimento seja cada vez comum na nossa culinária do dia a dia. Afinal, a biodiversidade alimentícia que não entra pela boca não tem valor real e fica apenas no campo da retórica abstrata, não gerando calorias, nutrientes, bem-estar, bem-viver, saúde e conservação da natureza, além de poder contribuir para geração de emprego, trabalho e renda. O uso real das PANC é um campo vasto e muito promissor para setores diversos, como turismo rural, gastronomia e até para indústria alimentícia com incorporação de ingredientes inusitados nas pousadas, hotéis, restaurantes e também nos produtos alimentícios processados.

Todos nós temos que fazer nossas partes, especialmente como comensais que somos, selecionando e valorizando os alimentos locais. Bem como valorizando e valorando melhor o profissional mais importante do mundo que é quem coloca comida em nossas mesas, o agricultor. Afinal “Somos Agro”, mas temos a muito esquecido nosso lado de agricultor e poucos querem trabalhar efetivamente no campo. Eu felizmente consegui retornar ao campo, uma volta às origens que relatei anteriormente e voltei a ser agricultor. Atualmente, vivo e cultivo diversas espécies de PANC para autoconsumo e já forneço para alguns restaurantes. O pequeno sítio onde moro chama-se “Sítio PANC”.

Alimento e água são as coisas mais importantes do mundo e um não se dissocia do outro. As PANC adaptadas aos diferentes ambientes do planeta têm grande potencial para incrementar as matrizes agrícolas mundiais, diversificar cardápios, minimizar a fome real e a fome oculta e contribuir para a conservação dos solos, das águas e dos recursos naturais em geral.

Valdely Kinupp | valkinupp@yahoo.com.br ou val@ifam.edu.br

Doutor em Fitotecnia. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM-CMZL) e Fundador-Curador do Herbário EAFM deste instituto. Autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi.

Os artigos deste editorial foram contribuições de pesquisadores e pesquisadoras concedida ao Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares – OBHA para a 5ª edição temática da sessão Fome de Saber que foi lançada em 2018. O OBHA é um projeto do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura – Palin da Gerência Regional de Brasília da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Brasília.

Famílias quilombolas do território Kalunga apresentam alimentos da Sociobiodiversidade do Bioma Cerrado em lançamento de produtos ecossociais

Famílias quilombolas do território Kalunga apresentam alimentos da Sociobiodiversidade do Bioma Cerrado em lançamento de produtos ecossociais

Instituto ATÁ e a Cooperativa Central do Cerrado convidam para o lançamento da linha de produtos ecossociais Kalunga no próximo sábado, 13 de abril em São Paulo.

O lançamento é uma das etapas da execução do Projeto Baunilha do Cerrado do Instituto Ata que desenvolve processos de cultivo, pesquisa e aplicações culinárias para a Baunilha do Cerrado que integra o bioma Cerrado onde está localizado o território quilombola dos Kalunga.

Desde de 2004 este projeto é desenvolvido na região com famílias que aceitaram compor essa equipe de reconhecimento e difusão de alimentos tradicionais da região. Famílias do Vão de Almas, uma das comunidades do maior quilombo da América Latina, participam da iniciativa cultivando a orquídea silvestre que dá origem à fava da baunilha.

Com o objetivo de contribuir no desenvolvimento local desta localidade e reconhecendo a baunilha como um produto de alto valor agregado para a gastronomia, o fortalecimento das cadeias de produção, escoamento e comercialização revelam-se importantes oportunidades de transformação social e popularização de alimentos da sociobiodiversidade do Cerrado.

Neste sábado, a partir das 11 horas da manhã no BOX  29 – Central do Cerrado no Mercado Municipal de Pinheiro, venha conhecer os produtos ecossociais produzidos pelas famílias do Vão de Almas, Quilombo Kalunga, no estado de Goiás, Brasil.

Representantes das famílias Kalunga estarão cozinhando juntamente com o chef de cozinha Raul Godoy.

Serão lançados 6 produtos

 

Farinha de Mandioca

2 variedades de Arroz de Pilão

Farinha de Mesocarpo de coco babagú

Gergelim

Pimenta de Macaco

Todos os produtos serão comercializados nos pontos de vendas da Central e parceiros. Em breve serão publicados os locais em que os produtos estarão disponíveis. Venha fortalecer essa rede cidadã agroalimentar que oportuniza janelas de transformação social e promoção à saúde humana e ambiental no campo e na cidade!

SERVIÇO

Degustação + Lançamento Produtos Ecossociais Kalunga no Mercado Municipal de Pinheiros, São Paulo.

DATA: 13.abril – sábado
HORÁRIO: das 11h às 16h
LOCAL: Rua Pedro Cristi, 89 – BOX 28
Mercado Municipal de Pinheiros

Para mais informações acompanhe as atualizações no link do evento.

 

Foto e texto: Bruna de Oliveira

Publicação realizada para a Cooperativas de produtos ecossociais Central do Cerrado

As PANC no programa Conexão | Novas formas de alimentação

As PANC no programa Conexão | Novas formas de alimentação

Estive – via vídeo chamada – com a Eliane Benício, apresentadora do programa Conexão do Canal Futura conversando sobre as PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Novas formas de alimentação foi o tema do programa que contou com a participação – em estúdio – de outras iniciativas maravilhosas como a Tatiana Dutra Perez, fundadora da comunidade Comida da Gente, que existe a 4 anos! =)

O programa foi ao ar no dia 09 de março e está disponível por meio deste link.

A proposta do programa, segunda a editoria, foi apresentar as novas formas de alimentação, incluindo dietas inovadoras, estilo de vida moderno, e principalmente, o “Wellness” ou “Bem-Estar”, que chegam a gerar mais de 16 milhões de posts nas redes sociais.

O Conexão é um espaço dedicado a entrevistas com foco na prestação de serviços e na análise crítica e contextualizada de assuntos de interesse público, parte da agenda nacional e das principais discussões do universo digital.

Dicas de outro para quem busca alimentos “diferentões”.

Dicas de outro para quem busca alimentos “diferentões”.

Plantas Alimentícias Não Convencionais | Dicas de ouro da Bru!

Você já parou para pensar que existe comida para além dos espaços onde as compramos? Você sabia que comemos menos de 1% das 30 mil possibilidades alimentares que temos pelo mundo? Onde estão os outros 99% de alimentos no mundo? Então, elas estão pelas ruas, praças e ruelas das cidades disfarçadas de mato ou nas hortas e espaços de produção agrícolas intituladas erva daninha ou inço. Há muito o que conhecer, atualmente um conceito muito trabalhado tem sido o das Plantas Alimentícias Não Convencionais, as PANC!

PANC é um termo usado para categorizar muitos tipos de plantas e suas respectivas partes com alguma funcionalidade alimentar para o ser humano. Serralha, beldroega, trapoeraba, picão branco, mangará, dente de leão, caruru, celósia, espinafre indiano, malvavisco, ora pro nóbis são exemplos desses recursos alimentares que abrem um universo de possibilidade para diferentes sabores na nossa alimentação.

As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) estão ganhando a boca do povo! Dos lugares mais inusitados, estão aparecendo em programas de televisão, revistas de grande circulação, textos em sites e blogs e vlogs como o que está no canal do PQN?! Eu já escrevi um texto fazendo um resumão sobre elas. Hoje eu quero compartilhar algumas dicas práticas para você se sentir mais seguro na hora de reconhecer, coletar ou plantar e cozinhar essas lindas! =)

Dica 1 | Não tenha medo de nomes científicos

Para saber se uma planta é alimentícia ou não você precisa investir tempo estudando as características de folhas, frutos, flores, sementes, caule. Memorizar não somente os nomes populares como também seu nome científico é importante para não confundir espécies que podem ser parecidas mas não iguais. Existem gêneros ou famílias de plantas que possuem espécies comestíveis e outras tóxicas, é sempre bom estar seguro para reconhecer um planta para consumir. Uma mesma planta pode ter vários nomes populares, ou, um nome popular pode servir para mais de uma planta. Um exemplo é a Major Gomes, esse é um nome popular (também é chamada de Maria Gorda ou Beldroegão ou Cariru ou Bênção de Deus….) para pelo menos 2 espécies diferentes, a Talinum paniculatum e a Talinum triangulare.

 

Talinum triangulare

Talinum triangulare

Talinum paniculatum

Talinum paniculatum

 

No início você pode ficar inseguro em reconhecê-las, mas isso diminui com o tempo e, acredite, nossa mente tem a capacidade de armazenar muitas informações. Desbrave as possibilidades em aprender mais sobre botânica e taxonomia (os amigos e amigas biólogos agradecem!).

Quer links legais para saber como estudar as estruturas das PANC e seus nomes científicos?

Dica 2 | Onde posso encontrar?

Já existem muitas feiras agroecológicas onde agricultores e agricultoras familiares comercializam esses alimentos. Também têm horta comunitárias onde elas são cultivadas ou nascem espontaneamente por animais polinizadores. Essas são boas formas de conhecer plantas novas sem os riscos de identificar errado ou coletar em lugar insalubre (com a presença de cocô ou xixi alheios, microrganismos de esgoto ou excesso de poluição dos carros em grandes vias).

  • Você pode saber se existe uma feira perto de você no Mapa de Feiras Orgânicas produzido pelo IDEC. =)
  • Existe um mapa colaborativo que você pode identificar o local e a PANC que você encontrou para outras pessoas, o nome desse aplicativo é Ka’a-eté. Só fazer o cadastro, já tem vários “pins” indicando lugares em que queridezas sinalizaram a existência dessas plantas.

Dica 3 | Na dúvida não coma!

Não coma nada que você não tenha certeza que é comestível! Meu pai fala que tudo é comestível uma vez na vida pelo menos. Brincadeiras a parte, existem plantas tóxicas que precisamos evitar ingerir obviamente, como também, existem aquelas que precisam passar por algum procedimento prévio de preparo para serem consumidas. Isso não é um privilégio PANC, lembremos de alimentos “comuns” como o feijão que deixamos de molho e precisamos cozinhar por muito tempo ou do espinafre que recomenda-se consumir sempre refogado ou cozido. Por isso que a dica 1 é tão importante!

Dica 4 | Na dúvida, cozinhe!

Se você sabe que algo é comestível mas nunca comeu, prefira consumir em pouca quantidade e depois de refogar, fritar, cozinhar de maneira geral. Ninguém sabe algo que possa ter no alimento que nos causa alguma reação. Parcimônia e paciência nos ajudam a comer cada vez mais alimentos novos com segurança e tranquilidade.

Quer fazer receitas com PANC?

  • O livro Mais que Receitas é uma publicação do projeto Ideias Na Mesa e tem uma sessão dedicada às PANC;
  • Tem um achado antigão de receitas PANC nesse link aqui.

Posso dar um conselho? D-E-S-B-R-A-V-E! Se você tem medo de reconhecer as PANC sozinho, junte um grupo de amigos e caminhe por aí. Se você não quer coletar em lugares públicos porque tem medo de contaminação, vá às feiras e converse com agricultores e agricultoras para eles e elas te ajudarem. Se você tem medo de se queimar ou fazer algum processo errado na corrida, corra para a casa da avó e relembre com ela as receitas que ela fazia e/ou ainda faz mas poucas pessoas apreciam. Você não precisa ser refém das gôndolas do supermercado, você não precisa consumir apenas o que está envolvido numa embalagem plástica colorida. Existe comida em todo o lugar, basta alinharmos nosso olhar com a bela diversidade da natureza!

Eu sou suspeita para falar porque sou apaixonada por essa temática. Falar em agrobiodiversidade é falar numa imensidão de possibilidade, é falar de emancipação humana e é falar sobre respeito a natureza que somos nós. Esse não será o último texto que escrever sobre isso e você também pode acompanhar meus experimentos culinários pelo meu perfil no Instagram ou pela página do projeto que faço parte chamado ReFazenda. É sempre um prazer compartilhar saberes e sabores por aí, espero que essas dicas ajudem na sua aproximação nesse assunto que é muito amor! <3

Para saber mais acesse aqui.

Texto escrito para o site do PorQueNão? – Mídia Interdependente

Um resumão sobre as PANC

Um resumão sobre as PANC

Esse texto estava guardadinho na gaveta (mentira, na nuvem! kkkkk) aguardando um momento oportuno para ser publicado. =) Foi o primeiro texto que escrevi com um grande amigo, Guilherme Raniere que é meu amado “guru” PANC. Gestor Ambiental, também está na vida de mestrado como eu e é dono do blog Matos de Comer. Esperamos que apreciem esse resumão que vai ajudar iniciantes nas aprendizagens sobre as PANC. <3

Começando pelo começo

Elas podem estar em qualquer lugar: calçadas de ruas, pelas praças, ruelas, rachas de muros, canteiros de estacionamento ou terrenos baldios. Você passa por elas e nem as percebe, contudo, elas poderiam estar na sua geladeira compondo as opções vegetais das suas refeições!

Afinal, será que consumimos todas as plantas que temos à disposição, pensando na enorme biodiversidade alimentar que nosso país contém? Quando falamos sobre biodiversidade, pensamos em todas as plantas comestíveis que existem, sejam folhas para saladas, frutos saborosos, sementes, castanhas, cereais, ou ainda plantas produtoras de essências, de óleos comestíveis, de açúcares e até mesmo de seivas potáveis.

Para essa biodiversidade alimentar que poderíamos utilizar mas não utilizamos, há um termo bastante usado desde 2007, PANC – plantas alimentícias não convencionais. O termo “alimentícias” entra com um sentido diferente de “comestíveis”, porque comestível é tudo aquilo que consumimos diretamente, enquanto alimentícias são coisas que derivam em alimentos. Por exemplo, plantas que dão origem a óleos, farinhas, essências, açúcares ou chás não são necessariamente comestíveis in natura, mas consumimos derivados delas.

Quando usamos o termo planas comestíveis ou PANC nos referimos a plantas ou partes de plantas que entraram em desuso na alimentação das populações por inúmeros fatores, principalmente por não serem produzidas com o fim de comercialização em grande escala. Dessa forma, estamos nos referindo a plantas, muitas vezes, difíceis de serem encontradas em um mercado ou feira, mas que podem ser adquiridas em caminhadas, parques e até mesmo diretamente com o produtor. Já pensou colher sua salada no caminho de casa?

Temos partes de plantas conhecidas, como as folhas da beterraba, da batata doce e da cenoura, mas ainda a banana verde, que rende polpa e farinha, o mamão verde, consumo como chuchu, e até mesmo os brotos da abóbora e do chuchuzeiro, consumidos como couve ou espinafre. Porém, existem muitas plantas que são pouco conhecidas ou consumidas apenas em certas regiões, como o mangarito, a taioba, o ora-pro-nobis, o ariá, a bertalha e a serralha.

 

Plantas ruderais

Muitas dessas plantas por fim, são chamadas ruderais ou espontâneas, ou seja, são aquelas que surgem sem serem cultivadas, trazidas pelo solo, pela chuva, pelos pássaros ou mesmo por outros humanos. Muitas dessas plantas que surgem em jardins calçadas e plantações e são consideradas daninhas ou matos são, na verdade, plantas comestíveis, nutritivas e deliciosas, que poderíamos consumir, mas jogamos fora. Para facilitar o entendimento do termo ruderais ou espontâneas, pense o seguinte: você já viu um pé de alface nascendo sozinho, sem ter sido semeado? Um pé de couve nascendo no meio da rua? Provavelmente nunca, né? Isso porque são plantas que dependem do homem e de condições específicas para se desenvolverem. Já esses matos comestíveis, não, nascem em qualquer lugar e de forma espontânea.

Essa nomenclatura de “ruderais” refere-se a espécies adaptadas a muitos ambientes,  apresentando capacidade de crescer em condições adversas. Desta forma, pode-se pensar que muitas plantas comestíveis são ruderais; entretanto, nem toda a ruderal é comestível, havendo muitas ruderais não comestíveis e até mesmo tóxicas.

As plantas comestíveis ruderais são plantas encontradas em diversos locais devido a sua reprodução espontânea e grande adaptação. Por essa capacidade que as elas possuem de crescer em condições adversas, são consideradas pelos agricultores como tolerantes a estresses e mais resistentes à seca e a solos pobres, ajudando os agricultores a diversificar sua produção e pensar em espécies mais resistentes em relação aos riscos das alterações climáticas e possível perda da produtividade. Em último lugar, mas não menos importante, destacam-se suas potencialidades nutricionais! Conforme estudos bioquímicos indicam, muitas dessas plantas apresentam teores de nutrientes, como vitaminas e minerais, muito superiores aos das plantas comestíveis disponíveis.

 

Diferentes nomenclaturas

No mundo, desde o final dos anos 1990, autores como Eyzaguirre et al. (1999) e IPGRI (1996), utilizavam termos como espécies subutilizadas e espécies negligenciadas (NUS – Neglect and Underutilized Species). NUS é uma expressão abrangente, podendo incluir qualquer animal ou vegetal que seja comestível. A Bioversity International em uma nota informativa menciona que NUS são “também conhecidas como culturas menores ou ‘órfãs’, que podem ajudar a lidar com problemas globais tais como a redução da fome e da pobreza, e as alterações climáticas” (tradução nossa).

No mundo, existem ainda outras nomenclaturas, como por exemplo “edible weeds” (matos comestíveis), “unconventional food plants” (plantas alimentícias não-convencionais), “quelites” (termo genérico para “folhas comestíveis silvestres”), “wild food plants” (plantas comestíveis não-cultivadas) e “malezas comestibles” (daninhas comestíveis). Dessa forma, existem muitas nomenclaturas aceitas internacionalmente, e PANC é uma delas, mais comum no Brasil.

O termo e seu acrônimo, PANC, foram criados por um pesquisador brasileiro em 2007, unificando diversos termos que se referiam à mesma categoria de plantas. Essas plantas são, por definição, “plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício mesmo que não sejam comuns, não sejam corriqueiras, não sejam do dia a dia de grande parte da população de uma região, de um país”.  Contempla, assim, “todas as plantas que tem uma ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas ou cultivadas”.

Em função dessa ampla abrangência conceitual, o critério para considerar uma PANC é muito subjetivo: vegetais em sua maioria de reprodução espontânea e que não exigem esforços para seu cultivo, não estão inseridas na cadeia produtiva e não apresentam interesse comercial às empresas de sementes, fertilizantes ou agroquímicos – é o que nos orienta o Manual de hortaliças não convencionais, elaborado em 2010 pelo Ministério da Agricultura. Vale lembrar que, caso uma espécie passe a ser produzida, comercializada e conhecida pela população, passando a ser tão comum como a banana, a alface, o feijão ou a cebola, ela deixa de ser considerada uma planta não convencional, deixando de ser chamada de PANC para ser chamada de espécie convencional. Isso é ruim? Não, isso é ótimo, significando que muitas pessoas tem acesso a ela e que ela está finalmente chegando à mesa dos brasileiros.

 

Pra fechar a prosa

Estamos falando de muitas, muitas espécies! Na realidade, estamos falando de tudo aquilo que é comestível, mas não está a venda. Existem algumas iniciativas que contribuem para que elas voltem a ser conhecidas e consumidas já que estas plantas trazem muitos benefícios para a saúde das pessoas e podem ser preparadas de diversas formas. Muito mais que uma tendência gastronômica, as PANC também podem ser uma ação estratégica para complementação alimentar de pessoas que ainda hoje não tem acesso contínuo e permanente a alimentos de qualidade e que fazem bem à saúde. Uma saída para transpor a fome, uma saída para inclusão social por meio de geração de trabalho e renda.

 

Espero que com a sessão Tudo Mato eu possa te ajudar a  reconhecer algumas delas, conhecer um pouco da história delas na alimentação humanas e também saber segredinhos de como prepará-las. Tudo isso para provar que outra alimentação é possível e não somente isso, para mostrar que alternativas de combate as fomes do mundo são possíveis com o cultivo e consumo dessas lindezas!  Se você leu até aqui, não custa nada compartilhar esse texto, né? Conte para todo mundo sobre essa novidade revolucionária de tornar o mundo mais nutrido, solidário e sustentável! 🙂

Bruna PANC – Como tudo começou.

Bruna PANC – Como tudo começou.

Minha aproximação com as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)  iniciou em meados da graduação na disciplina de Alimentos e Ambiente no ano de 2011 com uma professora que admiro muito, Signorá Konrad. O assunto não era difundido como hoje. As referências que eu tinha eram as publicações compartilhadas pela professora, os trabalhos de conclusão de curso que ela orientava na faculdade e as publicações do professor Valdely Kinupp, na época, sua tese de doutorado e um resumo expandido em um evento científico.

Claro, já existiam algumas referências internacionais, que referiam-se às PANC como NUS – Neglected and Underutilized Species (Espécies negligências e subutilizadas). Essa nomenclatura internacional era a adotada pela professora Sig nas aulas, ela apresentava uma abordagem político social que contemplava muito minhas motivações para ter ingressado na nutrição: o combate à fome e a mitigação da pobreza.

As PANC despertaram em mim um renovo para seguir na graduação e querer ser nutricionista. Iniciei um trabalho de educação alimentar e nutricional na ONG que trabalhava na Ilha das Flores, no município de Porto Alegre. Por cerca de 12 meses, fiz algumas trilhas de reconhecimento das PANC que eu conhecia com as crianças que participavam das atividades de contra turno oferecidas pela instituição; Busquei ajuda para iniciar e prospectar uma horta comunitária com cultivo dessas plantas no terreno do prédio; Fiz uma articulação com um grupo de extensão da UFRGS que trabalhava também com as PANC, ervas medicinais e fitoterápicos na Ilha da Pintada, também no bairro Arquipélogo, Porto Alegre/RS. Em parceria com esse grupo, que era supervisionado pela professora Gema, realizamos uma feira na sede da associação dos pescadores da região, levamos as PANC e trabalhos artesanais desenvolvidos pelas mães que participavam com seus filhos nos projetos da ONG.

Na universidade, compunha o escopo de práticas das disciplinas Alimentos e Ambiente e Tópicos Avançados a realização de feiras de trocas de sementes crioulas e biodiversidade. Participei ativamente dessas tarefas porque realmente me sentia contemplada pela abordagem trazida em relação a esses alimentos. As aprendizagens nas aulas somadas ao território que trabalhei contribuíram bastante para consolidar em mim que trabalhar com as PANC era (e é!) uma estratégia eficaz de combater a fome e a pobreza, pelo menos, ajudar em suas reduções.

O tempo passou e, em setembro de 2014, quando fui apresentada ao desafio internacional Thought For Food (TFF Challenge), que tem como objetivo estimular o empreendedorismo jovem na temática de segurança alimentar de forma a combater a fome do mundo, desenvolvendo projetos que busquem solucionar a questão: “Como alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050?”, reconhecendo os problemas hoje vividos no setor de alimentos. Não pensei duas vezes: as PANC eram (e são!) uma solução possível. Em dezembro do mesmo ano nascia o Other Food, projeto criado para participação neste desafio, com o objetivo de repopularizar as PANC tanto na produção quanto no consumo para combater as fomes do mundo. Sim, nós (porque o projeto não foi concebido apenas por mim) acreditamos que existem múltiplas expressões de fomes no mundo e com o endossamento de referências científicas, destacamos as fomes crônica e oculta como problemas societários que precisam ser transpostos.

Para felicidade do grupo, tivemos grandes conquistas enquanto movimento. Apesar de não ficarmos entre as equipes finalistas no desafio, foi-nos dada a oportunidade de participar do evento Global Summit Thought For Food em Portugal. Essa conferência era composta por workshops na temática de segurança alimentar e a etapa final do desafio com apresentação dos dez projeto finalistas onde os três melhores recebem prêmio em dinheiro para dar continuidade à iniciativa. Se existia dúvida que o Other Food continuaria, depois dessa experiência não havia mais nenhum resquício, nosso projeto seria algo para a vida.

2014 foi um ano importante para as PANC, houve o lançamento do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas, do professor Valdely Kinupp em parceria com o Harry Lorenzi da editora Plantarum. O lançamento ocorreu no final deste ano, quase que paralelo aos nossos (Other Food) primeiros passos nessa vida “pancqueira”. O livro, fruto de quase dez anos de pesquisa sobre as plantas, apresenta suas características morfológicas, composição nutricional, outros tópicos importantes de localização e forma de preparado.

Quando voltamos da experiência da conferência, os holofotes da universidade que estudávamos estavam voltados para o nosso projeto. Inicialmente, foi ótimo, precisávamos de visibilidade para encontrar parceiros que pudessem nos ajudar nas etapas para realização do projeto. Com o tempo, percebemos que era mais difícil do que parecia, trabalhar com desenvolvimento comunitário com o objetivo de combater fomes nos territórios onde o Other poderia estar presente sem receber o estigma de terceiro setor. A verdade era que nosso projeto possuía ambiciosos objetivos e ingenuidade nos atores que se propunham a executá-los. Mesmo em dificuldades, o projeto segue acontecendo por meio de atividades em escolas, oficinas culinárias, rodas de conversa e comercialização de produtos. Em outubro deste ano, o Other completa 3 anos de muitas aprendizagens e realizações.

Entre 2015 e 2016, ajudei no desenvolvimento de uma plataforma online para mapeamento das PANC. A inciativa, chamada Ka’ae´té, significa “mato verdadeiro” em Guarani e tem por missão (além do próprio mapeamento) criar uma base de conhecimento livre sobre plantas alimentícias não convencionais que incentive e resgate a cultura de consumo desses alimentos como uma estratégia para o combate a fome por meio de uma rede de conexão entre produtores e consumidores numa dinâmica de economia social e criativa.

Atualmente moro em Brasília e continuo esse trabalho de repopularização dessas plantas. Fui gentilmente acolhida em uma iniciativa local chamada ReFazenda, empreendimento criado por três mulheres do curso de Ciências Ambientais da UnB. Não somente “outra alimentação é possível” (slogan do Other Food), como “resgatando tradições, colhendo diversidade” passou a ser meu mais novo lema para as práticas de divulgação e formação coletiva sobre as PANC. Outra oportunidade maravilhosa que estou começando a viver são as aulas no mestrado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na Universidade de Brasília no campi de Planaltina. Pra mim está sendo duplamente significativo cursar essa pós graduação, uma porque desejo seguir na área da pesquisa e/ou ser docente em alguma universidade que aceite minhas maluquices; duas, porque seguirei nesse caminho de descobertas destas plantas na minha dissertação, com o foco nos usos e saberes culinários das PANC em território quilombola. Essa é um vislumbre inicial da escrita do projeto, com mais tempo poderei abordar melhor as questões e inquietações dessa pesquisa.

 

E esse é um breve resumo da minha história com essas queridas! Essa temática é tão especial pra mim que tem uma categoria própria de conteúdo no site, “Tudo Mato!”. Pra você que está lendo pela primeira vez e não entendeu muita coisa dessa sigla tão mencionada ao longo texto, não se preocupe que no decorrer das postagens eu explico tudo. Esse registro apresentou seis anos de descobertas minhas e tenho certeza que há ainda muito mais para aprender! Sigamos! <3