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Revolução Ecológica JÁ!

Revolução Ecológica JÁ!

Por Kellen Vieira

“Se quando está quente chamamos de aquecimento global, quando está frio fora do normal como se chama?”

Bom, que tal chamar de mudanças climáticas para não alimentar a dúvidas daqueles que ainda acreditam que tudo isso é balela?

Para essas pessoas que ainda não acreditam nas mudanças climáticas, o sexto relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) divulgado em é bem enfático: não serão as pequenas mudanças que irão amenizar essa realidade não, são aquelas mudanças RADICAIS mesmo.

A primeira alteração a que temos que aderir, se tratando de mudanças climáticas, é pararmos  de falar das possíveis consequências caóticas que tais mudanças podem gerar, como se fossem acontecer no futuro: está tudo acontecendo hoje, aqui e AGORA.

O aquecimento global não é mais uma perspectiva, ele é uma realidade dura e difícil que já impacta nossas vidas. 

Já não há mais tempo, nem motivo, para debater se a causa das mudanças climáticas é um fenômeno cíclico e natural da terra, ou causado por ação humana. Já temos uma resposta, com base em evidências científicas: a causa é ação humana. A avidez completa e desmedida por consumo, lucro, produção e competição são alguns dos fatores estruturantes no modelo econômico vigente que causam a destruição dos recursos naturais e ecossistemas.

Para solucionar os problemas, e evitar catástrofes ainda maiores, nós temos que avançar com propostas reais. Se, como diz o jingle famoso, “o futuro já começou”, nós não começamos nada bem. 

No acordo de Paris, em 2015, foi acordado que deveríamos tentar controlar esse aumento da temperatura em, no máximo, 2ºC, sendo o ideal apenas 1.5ºC. Um dos principais pontos citados no relatório foi o aumento geral da temperatura da terra em 1.1ºC  no período de 2011 a 2015, em comparação à segunda metade do século 19. Mudança essa que afetou diretamente diversos biomas e, como temos visto, a vida de muitos e muitas.

Segundo o relatório, uma das soluções possíveis está diretamente ligada ao investimento em tecnologias sustentáveis, além do monitoramento constante dos nossos avanços e retrocessos sobre o assunto. Outro ponto importante é a identificação de áreas que ainda não estão tratando as mudanças climáticas como prioridade, com o objetivo de  fomentar a priorização desse assunto nessas regiões. 

Ou seja, você pode substituir falar de voto impresso, desfile de carros de guerra e armar a população, por falar sobre as queimadas na Amazônia, pantanal e cerrado, a crise hídrica e elétrica e a desertificação dos nossos biomas, por exemplo.

Não sei se avisaram o agronegócio, mas eles vão precisar de chuva para continuar plantando esse tanto de soja e criando esse tanto de gado.

Esse é o momento para pensarmos em âmbito global, deixando diferenças de lado. Não se trata de um problema urbano ou rural, doméstico ou internacional, é um problema que engloba a humanidade e cada um dos indivíduos que compõem esta. Temos que pensar em uma trajetória daqui para frente focada em solucionar esses problemas que já estão acontecendo e nos afetando.

As mudanças climáticas são um fenômeno sistêmico, transgeracional, e previsível. Isso significa que as soluções para os problemas terão de ser coletivas, com planejamento e execução de curto, médio e longo prazo, e com base em evidências científicas.

Como solução para o mundo, nós da Crioula alimentamos o discurso sobre a revolução ecológica, uma revolução gentil que nos garante sobrevivência através do conhecimento e práticas possíveis seja no campo ou na cidade. Para saber mais e ter acesso ao nosso conteúdo especial de assinantes, faça parte do nosso clube de assinaturas, econtribua com essa revolução!

Conflitos no campo

Conflitos no campo

Por Kellen Vieira

Temos direito à terra. Em um modo literal esse direito se faz presente em constituição, onde diz que a terra deveria cumprir um papel social, econômico e ecológico de preservação e produção. Inclusive, também consta em lei que o interesse social da sua utilização pode prevalecer o individual. Ou seja, o interesse coletivo para a utilização ou aproveitamento da terra sobrepõe interesses individuais, isso é considerado principalmente quando se trata de desapropriação para reforma agrária, ou no “uso capião”, por exemplo.

 

Compreender o papel social da terra, não se trata apenas de sua produtividade em um sentido numérico de produção em larga escala, mas também como um local de permanência e cultivo de raízes, que vão além da mandioca: As raízes culturais e ancestrais de um povo, a forma de viver e ver o mundo. O papel social da terra trata de sociabilização, cultura, ancestralidade, diversidade e pertencimento. 

 

No Brasil temos uma distribuição fundiária que privilegia aqueles que têm maior poder econômico e político. Na prática, isso quer dizer que aqueles que detém a maioria de terras, não as têm de maneira produtiva. E quando as possuem, esses grandes produtores são responsáveis pela monocultura das chamadas commodities (soja, milho, cana de açúcar, algodão e carnes) destinadas para a exportação.

Dessa forma, além da produção em larga escala não ser responsável pela alimentação da sociedade brasileira, ela só se torna possível por meio da monocultura, que faz parte do ciclo do agronegócio, é responsável pela degradação da terra e de biomas naturais, e compromete a biodiversidade natural e alimentar, que afetam a nossa soberania alimentar.

 

Os grandes latifundiários aumentam suas fronteiras agrícolas através da especulação imobiliária em novas fronteiras. Essa especulação, aumenta a desigualdade de acesso à terra, uma vez que supervaloriza os preços – e dessa forma, somente pessoas muito ricas viabilizam a compra –  e alimenta o êxodo rural. Ela também diminui o acesso à terra, o que culmina em um ciclo de violências no campo, envolvendo posseiros, ambientalistas e grandes fazendeiros.

 

A especulação imobiliária é um dos diversos fatores que estão presentes nas raízes dos conflitos no campo. Todavia, este não é um problema que se limita ao meio rural. Aqui, no ambiente urbano das grandes cidades, vemos um déficit habitacional enorme, com diversas pessoas em situação de rua contrastando com uma imensa disponibilidade de imóveis vazios . O aumento no preço de aluguéis, e compra de imóveis para especulação, faz com que as pessoas se afastem de certas áreas, até mesmo consideradas nobres, e vão procurar as chamadas ocupações, sejam elas as favelas ou a reapropriação de imóveis abandonados.

Um resultado que evidencia a necessidade da reforma agrária. O mesmo documento define ligação entre interesses empresariais e conflitos, sendo o grupo denominado de “ grandes fazendeiros” o principal responsável pela violência no campo, seguidos de empresários.

Temos Orgulho!

Temos Orgulho!

Esse mês trouxe algumas reflexões sobre o que são essas diversas letrinhas que compõem a sigla LGBTQIAP+. Críticos dizem que são muitas letras, que já se perdeu nesse “alfabeto”. Mas essas pessoas mal sabem que a ideia é AGREGAR e, que muito mais do que o mês do pink money para as empresas, falar sobre orgulho LGBTQIAP+ é falar sobre luta, sobre quebra de paradigmas e sobre respeito.

Eu poderia também falar sobre amor. Mas o amor é muito mais complexo do que uma normatividade, ele é muito mais plural do que o relacionamento romântico e erótico. O amor é muito individual para eu ter que explicar sobre o que é e sobre como ele pode ser empregado dentro da vida de vocês. Mas já deixo aqui a minha vontade de que as pessoas se amem mais.

Falar de escolhas quando se trata dessa realidade parece incabível, mas tem gente que ainda aposta nisso. Afinal, quem escolheria sofrer inúmeras violências e silenciamentos? A morte é o final, a última das violências. Mas no meio do caminho tem a coação, o bullying, a expulsão de casa… tem a VERGONHA

Somos o país que mais mata LGBTQIAP+. Acredite ou não, essa é uma das poucas estatísticas em que o Brasil segue sendo o líder. Somos um país intolerante, apesar de não sermos juridicamente intolerantes. E é nesse vácuo entre leis e o dia a dia que mais um corpo LGBTQIAP+ é encontrado no chão. 

Esse mês representa um dos vários acontecimentos que marcam a luta LGBTQIAP+ por reconhecimento de suas liberdades individuais. A revolta de Stonewall foi o estopim para o reconhecimento e estabelecimento de um movimento, que já estava por se consolidar.

As pessoas LGBTQIAP+ não foram inventadas junto com a internet, aliás, essas pessoas não foram inventadas, nada disso é um complô do governo para o pecado, e não existe nenhum plano de ditadura “gayzista”.

A luta pelo reconhecimento de DIREITOS dessas pessoas fala sobre liberdade individual. É sobre poder se casar, mas, além disso, é sobre ter a integridade física e emocional respeitadas.

Ao aumentar a abrangência de direitos, garantimos dignidade e condições melhores de vida a um maior número de pessoas. Isso não significa que vão ser tirados os direitos de ninguém, mas sim que terão mais pessoas sendo respeitadas, mais pessoas se amando, e mais pessoas sem medo.

E, ao falar “se amando”, quero abrir para falarmos de amor próprio também. Viver com medo dói. Para fechar esse mês de orgulho, eu peço, não acreditem que é melhor morrer do que ser assim. Falar de orgulho, é falar sobre não se esconder e não ter medo de ser quem se é. Tenha orgulho de você!

Por Kellen Vieira

Sistema alimentar brasileiro durante a ditadura

Sistema alimentar brasileiro durante a ditadura

Por Kellen Vieira

No dia 31 de março de 1964 foi o início de um dos piores momentos históricos do Brasil. A ditadura militar brasileira foi uma das ditaduras que durou mais tempo na América Latina, e foi um período de terror, marcado por censura e violência. A ditadura também foi o período do suposto “milagre econômico” que levou o Brasil à falência a partir da década de 70. E tudo teve início com a questão da reforma agrária.

Ao assumir o poder após a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart colocou a reforma agrária no centro do embate político brasileiro. A reforma era mais do que esperada, segundo dados do IBGE da época dos 79,8 milhões de brasileiros, 33 milhões viviam em área rural, em situações de extrema pobreza. Mesmo com uma grande população rural, a produção agrícola era escassa e os latifúndios inúmeros. Importante salientar que esses latifúndios em sua maioria eram improdutivos.

O movimento a favor da reforma agrária era orquestrado pelas Ligas Camponesas e pelo Partido Comunista Brasileira (PCB). Em contrapartida os grandes proprietários de terras, que se opunham à reforma, eram parlamentares.

Mesmo com a tomada de poder pelos militares, a pressão camponesa pela reforma agrária induziu o presidente da época, General Castelo branco a assinar o Estatuto da Terra (Lei Nº 4.504/64) em 30 de novembro de 1964, vigente até hoje. De modo geral, a ditadura foi a principal responsável por estancar o movimento da reforma agrária nos anos 60 e 70, com uma reforma que está apenas no papel.

Em teoria o Estatuto da Terra pensa a estrutura agrária brasileira de acordo com as necessidades econômicas e sociais. É importante enfatizar que a reforma agrária está diretamente ligada ao acesso e produção da alimentação, sendo assim um dos pontos estratégicos para a garantia da Segurança e Soberania Alimentar e Nutricional para toda a população.

Mesmo passados 57 anos o estatuto ainda não cumpriu seu papel em totalidade apesar de alguns avanços pontuais como: a indenização por desapropriação de terras, a legalização das relações trabalhistas no campo, a apropriação sustentável dos recursos naturais para produção, entre outros. O Estatuto também criou dois órgãos para sua execução: o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária e o Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário.

As limitações em torno dessa lei são expressivas, pois os dispositivos de desenvolvimento agrícola que são dominados por uma política conservadora que não possibilita uma reforma agrária abrangente. Com a constante reeleição de famílias que são latifundiárias, que integram a bancada ruralista, também chamada de Bancada BBB ( bala, boi e bíblia) que usam a máquina pública em favor de seus interesses, a reforma agrária vai se estendendo como um sonho cada vez mais distante.

E, apesar da volta da força do movimento agrícola como o MST na década de 80 esse impasse da reforma agrária persiste até hoje, assim como os conflitos sangrentos e perversos no campo que são motivados essencialmente pelos problemas sociais e abuso de poder dos latifundiários, e coronelistas brasileiros.

O período também foi marcado por um grande, e falso crescimento econômico, que deu início ao aumento da desigualdade no país, ao mesmo tempo que fazia o Brasil atingir níveis de inflação acima de 60% ao ano. Com a estratégia econômica do dito “arrocho salarial” para conter a crise, os salários tinham reajustes abaixo dos níveis de inflação, o que deu certo por um tempo. Porém em 1980, nós tivemos a chamada “década perdida”, e essa situação se estendeu até a implementação do plano real, em 1994.

Com a variação diária da inflação, os preços dos alimentos, e outros itens, eram alterados diariamente, e até mais de uma vez por dia. Como estratégia para lidar com essa instabilidade, os brasileiros passaram a fazer todas as suas compras uma vez por mês. Dessa forma, era possível fugir do aumento de preço do dia seguinte e garantir o acesso à alimentação. Esta época foi tão marcante que incorporamos esta medida em hábitos culturais e ela perdura até hoje.

Porém o resultado disso após a estabilização da economia é um consumo exagerado que resulta em um desperdício, por brasileiro, de aproximadamente meio quilo de alimentos por dia, o que equivale a 10% de todo desperdício de alimentos no Brasil, segundo a organização banco de alimentos. Nesse estudo foi constatado que “na colheita, o desperdício é de 10%. Durante o transporte e armazenamento, a cifra é de 30%. No comércio e no varejo, a perda é de 50%”. O resultado disso é que o Brasil é um dos 10 países que mais desperdiçam alimentos no mundo. Esse desperdício está combinado com um alto nível de pobreza e insegurança alimentar.

A ditadura foi um marco da história brasileira que retrata um passado sangrento e que deixou marcas irreparáveis na sociedade. Ver isso sendo comemorado em plenário, ou por pessoas com o pretexto do crescimento econômico e combate a corrupção é infundado e mentiroso, pois como vimos, os políticos continuaram governando esse país com ainda mais liberdades e interferências na vida das pessoas. E mesmo que esse discurso fosse verdadeiro, as atrocidades cometidas e a privação da liberdade não devem ser colocadas à prova em favorecimento ao capital.

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FONTES:

– https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45960213
– https://www.brasildefato.com.br/2019/11/30/lei-da-ditadura-que-estabeleceu-funcao-social-da-propriedade-completa-55-anos
– http://lemad.fflch.usp.br/node/5280
– https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2014/03/24/1964-pouco-antes-do-golpe-reforma-agraria-esteve-no-centro-dos-debates-no-senado
– https://www.ocomuniqueiro.com.br/2018/09/09/por-que-fazemos-a-compra-do-mes-no-supermercado/
– https://www.ecycle.com.br/3007-desperdicio-de-alimentos.html

Como ajudar pessoas em situação de rua em tempos de covid-19? | Vamos nos cuidar sem pânico?

Como ajudar pessoas em situação de rua em tempos de covid-19? | Vamos nos cuidar sem pânico?

Por: Bruna de Oliveira*

Na foto, viaduto Otávio Rocha | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Quem não tem casa se isola onde? Você já parou para pensar nas pessoas em situação de rua no meio da pandemia que está acontecendo?

Em Porto Alegre, cerca de 4.000 pessoas vivem em situação de rua. Eles e elas precisam ser cuidados pelo Estado, via políticas públicas de assistência e saúde, mas também pela solidariedade e os princípios cooperativos que nos movem enquanto sociedade civil. Em tempos de pandemia, essas pessoas estão em um dos grupos de risco em relação ao novo Coronavírus (Covid-19).

Preocupado com a saúde física e mental dessa população o Grupo Suprapartidário para Combate da Pandemia do Covid-19 junto a População de Rua de Porto Alegre reuniu-se na última quinta-feira (19) e organizou uma série de orientações para quem quiser ajudar. A nutricionista social Ana Mattos, que colabora com o grupo, explica que essa iniciativa “envolve tanto o Poder Público quanto a sociedade civil num esforço solidário e responsável.”

Entre as ações encaminhadas, foram estabelecidos três pontos de coleta de doações que podem ser realizadas por tele-entrega. As doações são recebidas, higienizadas e distribuídas por equipes de saúde qualificadas para estas atividades. “A população de rua é um grupo de risco, então não levem o vírus até eles. Tem uma corrente de pessoas querendo ir ajudar, mas a ajuda deve ser dada a distância. Não procurem o pessoal, pois eles também estão sendo encaminhados para isolamento”, recomenda Ana que também é pesquisadora e defensora dos direitos para pessoas em situação de rua.

O que e como doar:

Água potável, sabão ou sabonetes, bombonas de água vazias, álcool gel, máscaras faciais, luvas, lenços umedecidos, toalhas de papel, atilhos, sucos ou bebidas em embalagens individuais e alimentos não perecíveis estão sendo recebidos nos pontos de coleta que funciona de segunda a sexta, das 9h às 15h.

Confira os endereços dos lugares de coleta:

Escola de Porto Alegre – EPA
Rua Washington Luiz, 203 – Centro Histórico

OSC Misturaí
Rua Luiz Manoel, 229 – Vila Planetário

AMURT-AMURTEL
Juca Batista, 6841 – Ponta Grossa

Albergues e Restaurantes Comunitários são outras estratégias de acolhimento e cuidado. Além dos pontos de coleta, Porto Alegre possui um abrigo temporário a partir desde a última segunda-feira, dia 23, para acolher pessoas em situação de rua durante a pandemia do Coronavírus. O prédio será o da Organização Irmandade Nossa Senhora dos Navegantes, na zona norte da capital. O acolhimento oferecerá cuidados de higiene, alimentação e estadia, sempre a partir das 19h.

O espaço, localizado na Rua Praça Navegantes, 41, possui três andares, quartos coletivos arejados e refeitório. “O objetivo é garantir o isolamento da população em situação de rua. Nossas equipes estão preparando o espaço para receber as pessoas a partir do início da semana”, explicou a presidente da Fasc, Vera Ponzio em matéria publicada no site da prefeitura.

Rede de Serviços (atendimento das 19h às 7h):

Albergue Acolher 1
Endereço: Rua João Simplício nº 38, Vila Jardim
Telefone: 3737.2279

Albergue Acolher 2
Endereço: Rua 7 de Abril, n º 315, bairro Floresta
Telefone: 3737.2118

Albergue Dias da Cruz
Endereço: Avenida Azenha, 366 – Bairro Azenha
Telefone: 3223.1938

Prato Alegre | Restaurante Comunitários:

Atualmente existem dois restaurantes comunitários na cidade que compõem o programa Prato Alegre. Estes equipamentos sociais atendem pessoas em situação de rua, idosos vulneráveis e famílias em pobreza e extrema pobreza. As refeições são subsidiadas integralmente pela prefeitura de Porto Alegre e o requisito para acessar os restaurantes é o Cadastro Único do Sistema Único de Assistência Social – SUAS. Em conversa telefônica com a nutricionista da Unidade de Segurança Alimentar e Nutrição Sustentável – USANS, Vanusa, em função da pandemia, os restaurantes estão abertos para toda a população em situação de vulnerabilidade socioeconômica e/ou em situação de rua.

“Servimos 300 refeições no restaurante do Centro e 150 refeições no restaurante da Cruzeiro. Houve um aumento significativo da procura por alimentação pela pandemia.” declara a nutricionista que também informa sobre as ações de prevenção que estão sendo tomadas: filas com distanciamento entre os comensais para entrada no refeitório com, no máximo, 4 pessoas sentadas por mesa. Pessoas que possuem domicílio estão recebendo marmitas para serem consumidas em casa e não gerar aglomeração nos espaços.

Os restaurantes dos bairros Centro e Cruzeiro começam suas operações a partir das 11h30min até atingir o número máximo de refeições preparadas.

Endereços dos restaurantes:

CENTRO – Rua Garibaldi, 461.
CRUZEIRO – Rua Dona Otília, 210.

Você pode entrar em contato com esses espaços para receber mais informações sobre como contribuir com doações. Lembrando que Porto Alegre está há oito dias publicando diferentes decretos que regulamentam a ampliação do distanciamento social para frear o contágio da doença e salvar vidas.

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*A sistematização dessas informações foi realizada por Bruna de Oliveira, nutricionista, comunicadora popular e sócia-fundadora da Crioula | Curadoria Alimentar. “Vamos nos cuidar sem pânico!” é uma série de reportagens com informações que nos nutram a criar dinâmicas sociais de solidariedade e cooperação durante (e após) a pandemia do Covid-19.

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Seguimos. 🌻

 

Fomes do Brasil: expressões sociais de uma doença global

Fomes do Brasil: expressões sociais de uma doença global

Bruna de Oliveira | 22 de julho de 2019

A declaração presidencial na última sexta feira, 20 de julho, é chocante mas não surpreendente. “Não se vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”, foi uma das afirmações de Bolsonaro em café da manhã com jornalistas. Não é uma surpresa o despreparo teórico e prático da atual gestão federal brasileira. Também, não é surpresa a ignorância de representações políticas sobre desigualdades sociais, especialmente na área da alimentação. Exemplo disso, foi a declaração do prefeito de São Paulo em 2017 que pessoas pobres não possuem hábitos alimentares.

| Leia também: Pobres têm hábitos alimentares? |

O título desse texto é uma afirmação e uma provocação. Existem mais formas de manifestação da fome do que o senso comum nos ensina. Assim como, fome não se restringe a falta de acesso de alimentos em corpos esqueléticos perambulando pelas ruas. Mais uma vez, o senso comum (e preconceituoso) se coloca como empecilho para avanços em políticas públicas de alimentação e nutrição na garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada – DHAA. 

Esta é uma tese que eu defendo com firmeza: todo mundo passa fome no mundo. Não é preciosismo ou discurso populista a diferenciação das diversas fomes que pintam cenas alimentares dos povos no mundo. Você já pensou sobre isso?

Se afirmamos que a maioria das pessoas no globo passam fome hoje, você acreditaria? Por um lado você pode concordar, pensando que fome é sinônimo de apetite e/ou vontade de comer, todo mundo tem fome todos os dias. Este é um tipo de fome, é definido como fome aguda. Ok, até aí, tudo certo. Quando estamos com fome, abrimos a geladeira de casa ou vamos à uma padaria e saciamos nossa vontade.

Precisamos lembrar que não são todas as pessoas que possuem recursos para adquirir seu alimento. Nesse sentido, se uma pessoa fica com fome por muito tempo e/ou não sacia em quantidade suficiente seu apetite e necessidades biológicas de manutenção da vida, essa fome é chamada crônica. Existe ainda uma terceira hipótese com duas situações: eu tenho algum recurso para comprar comida, mas não o suficiente para consumir várias opções, ou; eu tenho recursos para comprar a comida que eu quiser e opto por consumir alimentos que não tomem muito do pouco tempo de uma rotina agitada e estressante em uma metrópole.

Essas duas histórias contam com um elemento em comum: uma alimentação não adequada. Hábitos alimentares monótonos e/ou em quantidade insuficiente para suprir necessidades nutricionais de uma pessoa gera o que estudiosos chamam de fome oculta. As fomes oculta e crônica são estados nutricionais que se desdobram tanto por um viés da desnutrição, quanto pode se expressar em subnutrição ou obesidade.

Três fotografias de um mesmo fenômeno, três fotografias que retratam as fomes do mundo. Quem dera que as lutas de combate à fome ocorresse apenas no âmbito da fome aguda! Assim, entramos em um “diálogo perigoso” como diria Josué de Castro, médico profeta que teve a ousadia de marcar a sociedade com seus estudos sobre fome no Brasil. Há 72 anos, em sua obra Geografia da fome, Josué demonstrou a influência dos fatores socioeconômicos sobre os fatores biológicos da nossa população, através da deficiência alimentar e da predominância de interesses privados sob os coletivos.  

A fome não se limita a uma enfermidade biológica, mas sim é uma doença social fruto da má distribuição de alimentos no globo; do sistema agroalimentar super mecanizado e dependente de agroquímicos, e; de uma indústria alimentícia preocupada no excessivo consumo de seus produtos, muitas vezes, não saudáveis. Em suma, a fome é um desdobramento social da forma como a cadeia de produção de alimentos opera hoje, embasada nos princípios do capitalismo corporativista, sistema político econômico que consome nossos dias.

É importante ressaltar que ambos os quadros (obesidade e desnutrição) são graves e evocam múltiplos olhares para o planejamento e execução de estratégias que em uma primeira instância os reduzam e – em melhores perspectivas – efetivem sua devida erradicação. Esse adoecimento generalizado é gerado em decorrência de inúmeros fatores, tais como o processamento de alimentos pela indústria alimentícia, o uso excessivo e descontrolável de agrotóxicos na agricultura e as monoculturas que massificam e monotonizam a alimentação das pessoas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization) estima que cerca de 820 milhões de pessoas em todo o mundo não tiveram acesso suficiente a alimentos em 2018, frente a 811 milhões no ano anterior, no terceiro ano consecutivo de aumento (versão em inglês). Especialmente na América Latina e no Caribe, estima-se que a fome afeta 42,5 milhões de pessoas

Queda livre

Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization). Isso significa que menos de 5% da população brasileira ainda encontraram-se com seu direito ainda violado. Você pode entender como políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA; Política Nacional de Alimentação Escolar – PNAN; e, o fortalecimento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA desde sua retomada em 2003 e posterior extinção neste ano. Acesse aqui o relatório que descreve as iniciativas brasileiras para combate à fome consideradas relevantes e replicáveis para outros países. Isso não é pouca coisa, ta okey? 

Lamentavelmente, em 2018, retornamos a esse diagrama que apresenta o prognóstico não positivo para a Segurança Alimentar e Nutricional deste paí. 5,2 milhões de brasileiros e brasileiras não tem o que comer todos os dias segundo este relatório.   

| Leia também: ‘Sem merenda: quando férias escolares significam fome no Brasil’ – BBC |

Preciso pegar um fôlego para continuar… são tantos elementos que explicitam a imensidão de direitos violados não somente de acesso à alimentos, mas em diferentes elos do sistema alimentar atual suprimidos pela avalanche da bancada ruralista e os defensores do agronegócio brasileiro.

Em 200 dias, o governo Bolsonaro autorizou o uso de mais de 239 agrotóxicos no mercado, isso é mais do que países europeus autorizaram ao longo de 8 anos. Há muitas pesquisas que apresentam os difíceis enredos enfrentados por agricultores familiares, trabalhadores rurais, povos e comunidades tradicionais. Depois do Dossiê Abrasco, a publicação mais recente que denunciam o impacto dos agrotóxicos no país é o Atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, de autoria da pesquisadora Larissa Lambardi. Os agrotóxicos fazem parte de um pacote tecnológico que mata diariamente, seja no campo, seja na cidade; seja a fome que for: pela falta ou pela contaminação; pela escassez ou pelo excesso artificial que passa deixando resíduos no organismo humano e planetário.

Todos passamos fome. Tão drástica quanto a inanição biológica é a cabeça vazia de uma consciência comunitária mínima que abre margem para práticas tão perversas este governo tem feito a este país.