Minha aproximação com as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)  iniciou em meados da graduação na disciplina de Alimentos e Ambiente no ano de 2011 com uma professora que admiro muito, Signorá Konrad. O assunto não era difundido como hoje. As referências que eu tinha eram as publicações compartilhadas pela professora, os trabalhos de conclusão de curso que ela orientava na faculdade e as publicações do professor Valdely Kinupp, na época, sua tese de doutorado e um resumo expandido em um evento científico.

Claro, já existiam algumas referências internacionais, que referiam-se às PANC como NUS – Neglected and Underutilized Species (Espécies negligências e subutilizadas). Essa nomenclatura internacional era a adotada pela professora Sig nas aulas, ela apresentava uma abordagem político social que contemplava muito minhas motivações para ter ingressado na nutrição: o combate à fome e a mitigação da pobreza.

As PANC despertaram em mim um renovo para seguir na graduação e querer ser nutricionista. Iniciei um trabalho de educação alimentar e nutricional na ONG que trabalhava na Ilha das Flores, no município de Porto Alegre. Por cerca de 12 meses, fiz algumas trilhas de reconhecimento das PANC que eu conhecia com as crianças que participavam das atividades de contra turno oferecidas pela instituição; Busquei ajuda para iniciar e prospectar uma horta comunitária com cultivo dessas plantas no terreno do prédio; Fiz uma articulação com um grupo de extensão da UFRGS que trabalhava também com as PANC, ervas medicinais e fitoterápicos na Ilha da Pintada, também no bairro Arquipélogo, Porto Alegre/RS. Em parceria com esse grupo, que era supervisionado pela professora Gema, realizamos uma feira na sede da associação dos pescadores da região, levamos as PANC e trabalhos artesanais desenvolvidos pelas mães que participavam com seus filhos nos projetos da ONG.

Na universidade, compunha o escopo de práticas das disciplinas Alimentos e Ambiente e Tópicos Avançados a realização de feiras de trocas de sementes crioulas e biodiversidade. Participei ativamente dessas tarefas porque realmente me sentia contemplada pela abordagem trazida em relação a esses alimentos. As aprendizagens nas aulas somadas ao território que trabalhei contribuíram bastante para consolidar em mim que trabalhar com as PANC era (e é!) uma estratégia eficaz de combater a fome e a pobreza, pelo menos, ajudar em suas reduções.

O tempo passou e, em setembro de 2014, quando fui apresentada ao desafio internacional Thought For Food (TFF Challenge), que tem como objetivo estimular o empreendedorismo jovem na temática de segurança alimentar de forma a combater a fome do mundo, desenvolvendo projetos que busquem solucionar a questão: “Como alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050?”, reconhecendo os problemas hoje vividos no setor de alimentos. Não pensei duas vezes: as PANC eram (e são!) uma solução possível. Em dezembro do mesmo ano nascia o Other Food, projeto criado para participação neste desafio, com o objetivo de repopularizar as PANC tanto na produção quanto no consumo para combater as fomes do mundo. Sim, nós (porque o projeto não foi concebido apenas por mim) acreditamos que existem múltiplas expressões de fomes no mundo e com o endossamento de referências científicas, destacamos as fomes crônica e oculta como problemas societários que precisam ser transpostos.

Para felicidade do grupo, tivemos grandes conquistas enquanto movimento. Apesar de não ficarmos entre as equipes finalistas no desafio, foi-nos dada a oportunidade de participar do evento Global Summit Thought For Food em Portugal. Essa conferência era composta por workshops na temática de segurança alimentar e a etapa final do desafio com apresentação dos dez projeto finalistas onde os três melhores recebem prêmio em dinheiro para dar continuidade à iniciativa. Se existia dúvida que o Other Food continuaria, depois dessa experiência não havia mais nenhum resquício, nosso projeto seria algo para a vida.

2014 foi um ano importante para as PANC, houve o lançamento do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas, do professor Valdely Kinupp em parceria com o Harry Lorenzi da editora Plantarum. O lançamento ocorreu no final deste ano, quase que paralelo aos nossos (Other Food) primeiros passos nessa vida “pancqueira”. O livro, fruto de quase dez anos de pesquisa sobre as plantas, apresenta suas características morfológicas, composição nutricional, outros tópicos importantes de localização e forma de preparado.

Quando voltamos da experiência da conferência, os holofotes da universidade que estudávamos estavam voltados para o nosso projeto. Inicialmente, foi ótimo, precisávamos de visibilidade para encontrar parceiros que pudessem nos ajudar nas etapas para realização do projeto. Com o tempo, percebemos que era mais difícil do que parecia, trabalhar com desenvolvimento comunitário com o objetivo de combater fomes nos territórios onde o Other poderia estar presente sem receber o estigma de terceiro setor. A verdade era que nosso projeto possuía ambiciosos objetivos e ingenuidade nos atores que se propunham a executá-los. Mesmo em dificuldades, o projeto segue acontecendo por meio de atividades em escolas, oficinas culinárias, rodas de conversa e comercialização de produtos. Em outubro deste ano, o Other completa 3 anos de muitas aprendizagens e realizações.

Entre 2015 e 2016, ajudei no desenvolvimento de uma plataforma online para mapeamento das PANC. A inciativa, chamada Ka’ae´té, significa “mato verdadeiro” em Guarani e tem por missão (além do próprio mapeamento) criar uma base de conhecimento livre sobre plantas alimentícias não convencionais que incentive e resgate a cultura de consumo desses alimentos como uma estratégia para o combate a fome por meio de uma rede de conexão entre produtores e consumidores numa dinâmica de economia social e criativa.

Atualmente moro em Brasília e continuo esse trabalho de repopularização dessas plantas. Fui gentilmente acolhida em uma iniciativa local chamada ReFazenda, empreendimento criado por três mulheres do curso de Ciências Ambientais da UnB. Não somente “outra alimentação é possível” (slogan do Other Food), como “resgatando tradições, colhendo diversidade” passou a ser meu mais novo lema para as práticas de divulgação e formação coletiva sobre as PANC. Outra oportunidade maravilhosa que estou começando a viver são as aulas no mestrado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na Universidade de Brasília no campi de Planaltina. Pra mim está sendo duplamente significativo cursar essa pós graduação, uma porque desejo seguir na área da pesquisa e/ou ser docente em alguma universidade que aceite minhas maluquices; duas, porque seguirei nesse caminho de descobertas destas plantas na minha dissertação, com o foco nos usos e saberes culinários das PANC em território quilombola. Essa é um vislumbre inicial da escrita do projeto, com mais tempo poderei abordar melhor as questões e inquietações dessa pesquisa.

 

E esse é um breve resumo da minha história com essas queridas! Essa temática é tão especial pra mim que tem uma categoria própria de conteúdo no site, “Tudo Mato!”. Pra você que está lendo pela primeira vez e não entendeu muita coisa dessa sigla tão mencionada ao longo texto, não se preocupe que no decorrer das postagens eu explico tudo. Esse registro apresentou seis anos de descobertas minhas e tenho certeza que há ainda muito mais para aprender! Sigamos! <3

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