Pobres têm hábitos alimentares?

Pobres têm hábitos alimentares?

O projeto Alimentos para Todos, elaborado pela prefeitura de São Paulo, a partir da sanção da Lei 16.704/2017 intitulada Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos tem dado o que falar. Pesquisadoras/es, professoras/es, nutricionistas e pessoas implicadas nas temáticas de alimentação, nutrição e direitos humanos tem se manifestado sobre o assunto afirmando o retrocesso que essa iniciativa representa nas lutas de combate à fome e desenvolvimento social.

Em Milão, na Itália, o prefeito defende o projeto e menciona que as pessoas contrárias a essa ação se colocam como tal por falta de conhecimento. Também, como lembrado pela vereadora paulistana Sâmia Bonfim há um episódio do programa Aprendiz com João Dória em que ele questiona um dos participantes do reality show se pobre tem hábitos alimentares. O prefeito tenta minimizar a repercussão do vídeo dizendo que é uma fala tirada de seu contexto.

Veja aqui o momento exato do episódio:

 

Eu fui atrás do programa na íntegra, você pode vê-lo aqui. Após assistir o episódio é possível perceber que, não somente o contexto de sua fala é o mesmo: trabalhar com pessoas em situação de rua e/ou em condições vulneráveis socioeconômicas; como sua ação em relação a essa situação não se modificou. Tanto os questionamentos se pessoas pobres possuem hábitos alimentares, quanto a defesa de um programa como o Alimentos para Todos revelam o distanciamento do João e seus apoiadores do que significa hábitos alimentares e todas as conquistas alcançadas pelos movimentos sociais ligados às questões do direito humano à alimentação adequada.

Se o Dória estivesse perguntando para mim: “Bruna, você acha que pobres têm hábitos alimentares?”, prontamente eu responderia: “SIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!”.

Primeiro, porque não podemos confundir hábitos com situação que ocorre com frequência ou rotina. Eu sei, parece que estamos falando da mesma coisa, mas não estamos. Genericamente, existe essa compreensão de que um hábito é uma coisa que acontece na nossa rotina e é uma coisa que acontece com frequência. Logo, se eu sou pobre, moro na rua e não tenho acesso a alimentos eu não tenho hábitos alimentares. Isso é um raciocínio lógico, porém incoerente e insuficiente para pensar as questões de justiça social e políticas públicas.

Pensar em hábitos vai para além de pensar frequência. Pierre Bourdieu foi um sociólogo francês que estudou a fundo sobre o conceito de habitus (sim, é com u mesmo). O que é e/ou como se forma um hábito? Para o autor, habitus é o que vincula uma pessoa ao espaço social que ela integra. Habitus é um elo entre uma estrutura estruturada e uma estrutura estruturante. Eu não vou aqui entrar em explicações muito profundas sobre isso porque não sou socióloga, sou uma nutricionista interessada em olhar para a sociedade com lentes que apoiem minhas compreensões. Se escrevo sobre essas aprendizagens e formas pessoais de entender a vida e situações como essa da ração humana é porque acredito que podemos conversar e entender as relações sociais de uma forma fraterna e leve, uma conversa.

Assim, para entender o conceito de habitus precisamos nos aproximar de mais dois conceitos: estrutura estruturada e estrutura estruturante. Bourdieu apresenta como estrutura estruturada as convenções, crenças, regras, dogmas e todo um sistema de comportamento que moldam a sociedade desde antes do nosso nascimento. Nós já nascemos em relações sociais pré estabelecidas. Escolas, faculdades, quartéis, igrejas, organizações sociais, empresas, academias… tudo isso pode ser considerado como estruturas estruturadas.

Uma estrutura estruturante seríamos nós enquanto integrantes destas estruturas sociais que para nos sentirmos pertencente a um lugar reproduzimos, fortalecemos e dessa modo que seguimos consolidando essas estruturas. Dessa forma, quando a gente fala de hábitos alimentares estamos falando das práticas que integram a alimentação de grupamentos humanos. Estamos falando de fluxos que vão da produção ao desperdício, da terra ao prato e, posteriormente, ao lixo. Refletir sobre hábitos alimentares a luz desse autor nos permite ampliar nosso olhar para as estruturas sociais que dão base para construção desses hábitos alimentares.

Não existe pessoa dentro de uma sociedade que não possua hábitos alimentares, nós possuímos hábitos alimentares e estamos inseridos na sociedade de diversas formas. Podemos estar inseridos na média da população, podemos estar num lugar de privilégio, podemos estar inseridos à margem do que é socialmente aceito, do que é medianamente vivido. Todos e todas estamos inseridos/as dentro de sociedade que diferencia os hábitos alimentares conforme o lugar que ocupamos nela.

O conceito de Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) é muito importante ser trazido nessa conversa. O DHAA é um dos consensos internacionais registrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre eles está a alimentação como um direito fundamental para a manutenção da vida humana. Eles são universais, indivisíveis, interdependentes e interrelacionados.

Eu entendo que pobres ou pessoas que estão inseridas na sociedade de uma maneira marginalizada possuem hábitos alimentares, não possuem a garantia do DHAA (e outros também…), eles e elas não possuem o acesso aos alimentos. Isso não significa que uma pessoa em situação de rua não nasceu numa família e que essa família não traz em si uma bagagem cultural, um acúmulo vivencial que dá tom e forma para seus hábitos alimentares.

Dizer que pobres não têm hábitos alimentares é negligenciar o DHAA, é negligenciar que existe sim pessoas que não tem acesso ao um alimento em quantidade e qualidade suficiente, garantia prevista para que ela exerça o seu direito fundamental de vida. Falar de DHAA é falar do direito à vida e de ter dignidade para viver. Todos nós precisamos de alimentos que sejam suficientes para garantir a nossa vida. Pessoas pobres, pessoas com pouco acesso a dinheiro para comprar ou a terra para produzir são pessoas que tem o seu direito à alimentação violado, um direito – como eu já disse – fundamental.

Considerando mais um elemento “equivocado” do projeto que apresenta como “solução para a erradicação da fome” a profusão de um alimento ultraprocessado à população. Concordo com o emprego da expressão ração humana, não só pelo aspecto, mas pela própria natureza desse produto que é destituído de identidade, de acúmulos culturais e construções sociais populares. Todos e todas nós temos heranças socioculturais, todos e todas temos histórias alimentares. Esse projeto se coloca como um mecanismo que destitui de um ser humano parte do que o constitui simplesmente pelo seu não acesso a recursos materiais para comer, vestir e morar.

Essa iniciativa de alimentos para todos é infundada e fracassada desde sua gênese por não considerar as dimensões culturais e simbólicas que todo o ser humano tem. Não somente por isso, mas porque coloca em xeque o que que entendemos por alimentos: eu entendo por alimento uma cápsula? Um suplemento alimentar? Eu restrinjo o alimento a uma massa de nutrientes para dar conta da minha manutenção energética, manutenção fisiológica? Ou eu penso no alimento como base estruturante das nossas histórias, vivências e das nossas culturas sociais?

Respeitar o outro na sua singularidade é não aceitar a afirmação que pessoas pobres não têm hábitos alimentares, é não aceitar que em função de uma vulnerabilidade socioeconômica as pessoas precisam estar agradecidas ou aceitarem qualquer tipo de alimento. Pensar nisso é importantíssimo, pra vida, e especialmente gestores/as públicos/as que executam políticas públicas. É fundamental existir uma gestão pública que perceba as múltiplas dimensões que formam as esculturas sociais de um município, estado ou país. Como os governos se relacionam com as cidadãs e cidadãos dos territórios brasileiros?

Para não acabar esse texto nem pessimista, nem tão reflexiva vou dizer para vocês que São Paulo PULSA de atividades que contribuem para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada! Caberia a gestão municipal olhar para essas iniciativas e identificar como fortalecer os diferentes e numeroso projetos que trabalham com uma alimentação socialmente justa e ambientalmente saudável.

Pessoas de São Paulo são infinitamente mais qualificadas para indicar espaços para serem conhecidos, vou compartilhar alguns que conheço por amigos e que podem ser portas para todo mundo que quiser fortalecer as ações que já existem e contribuem para a segurança alimentar e nutricional da população paulistana. =)

Quebrada Sustentável: ponto de cultura socioambiental Educativo, trabalhando com Permacultura e Agroecologia, co-gerimos o Viveiro Escola União de Vila Nova, subprefeitura de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo.

Cidades Comestíveis: projeto de cidade que visa estimular uma rede colaborativa de compartilhamento de recursos, conhecimentos e trabalho entre pessoas interessadas em cultivar hortas comunitárias e caseiras.

MUDA SP: movimento da sociedade civil, prefeitura de São Paulo e entidades sem fins lucrativos para incentivar a produção de alimentos sem agrotóxicos na metrópole; ocupar os espaços públicos e resgatar o contato com a natureza; difundir a alimentação saudável e sem desperdícios; devolvendo ao cidadão o direito de cultivar e preparar sua própria comida.

Referência base:

BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Lisboa, 1989. Disponível online.

 

Texto publicado no dia 21/10/2017 no site PorQueNão? – Mídia Interdependente

FOMES DO MUNDO

FOMES DO MUNDO

O título desse texto é uma afirmação e uma provocação. Existem mais formas de manifestação da fome do que o senso comum nos ensina. Você já pensou sobre isso?

Se afirmamos que a maioria das pessoas no globo passam fome hoje, você acreditaria? Por um lado você pode concordar, pensando que fome é sinônimo de apetite e/ou vontade de comer, todo mundo tem fome todos os dias. Este é um tipo de fome, a definimos como fome aguda. Ok, até aí, tudo certo. Quando estamos com fome, abrimos a geladeira de casa ou vamos à uma padaria e saciamos nossa vontade.

Precisamos lembrar que não são todas as pessoas que possuem recursos para adquirir seu alimento. Nesse sentido, se uma pessoa fica com fome por muito tempo e/ou não sacia em quantidade suficiente seu apetite e necessidades biológicas de manutenção de vida, essa fome é chamada crônica. Existe ainda uma terceira hipótese com duas situações: eu tenho algum recurso para comprar comida, mas não o suficiente para consumir várias opções, ou; eu tenho recursos para comprar a comida que eu quiser e opto por consumir alimentos que não tomem muito do pouco tempo de uma rotina agitada e estressante em uma metrópole. Essas duas histórias contam com um elemento em comum: uma alimentação não saudável. Hábitos alimentares monótonos e/ou em quantidade insuficiente para suprir necessidades nutricionais de uma pessoa gera o que estudiosos chamam de fome oculta. As fomes oculta e crônica são estados nutricionais que se desdobram na desnutrição, que ainda pode se expressar em subnutrição ou obesidade.

Três fotografias de um mesmo fenômeno, três fotografias que retratam as fomes do mundo. Quem dera que as lutas de combate à fome ocorressem apenas no âmbito da fome aguda! Assim, entramos em um “diálogo perigoso” como diria Josué de Castro, médico profeta que teve a ousadia de marcar a sociedade com seus estudos sobre fome no Brasil. Há 70  anos, em sua obra Geografia da fome, Josué demonstrou a influência dos fatores socioeconômicos sobre os fatores biológicos da nossa população, através da deficiência alimentar e da predominância de interesses privados sob os coletivos.  

A fome não se limita a uma enfermidade biológica, mas sim é uma doença social fruto da má distribuição de alimentos no globo; do sistema agroalimentar super mecanizado e dependente de agroquímicos, e; de uma indústria alimentícia preocupada no excessivo consumo de seus produtos, muitas vezes, não saudáveis. Em suma, a fome é um desdobramento social da forma como a cadeia de produção de alimentos opera hoje, embasada nos princípios do capitalismo corporativista, sistema político econômico que consome nossos dias.

É importante ressaltar que ambos os quadros (obesidade e desnutrição) são graves e evocam múltiplos olhares para o planejamento e execução de estratégias que em uma primeira instância os reduzam e em melhores perspectivas efetive sua devida erradicação. Esse adoecimento generalizado é gerado em decorrência de inúmeros fatores, tais como o ultra processamento de alimentos pela indústria alimentícia, o uso excessivo de agrotóxicos e as monoculturas que massificam e monotonizam a alimentação das pessoas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization) estima que cerca de 805 milhões de pessoas são cronicamente subnutridas entre os anos de 2012 e 2014. É um número expressivo, mas está dentro de uma tendência de redução. Este número é de 100 milhões menos que na última década e 209 milhões menos que na década de 90. Estudiosos apontam que, inversamente proporcional está à prevalência de sobrepeso e obesidade na população mundial e brasileira, cresce a cada década alcançando todas as faixas etárias.

Esses problemas sociais colocados sob o plano de fundo global parecem possuir um peso de impossibilidade em sua resolução. No entanto, ações locais e suas devidas articulações regionais podem ser potentes possibilidades de minimizar os impactos que uma má alimentação geradora de efeitos em sujeitos e seus contextos tanto numa condição abundante de alimentos como também na falta destes. São as potencialidades encontradas no encontro e na convergência de saberes e práticas sustentáveis que nos fortalecem para seguir os passos de tantas pessoas no combate às fomes do mundo.

Referências usadas.

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. The State of Food Insecurity on the World – Strengthening the enabling environment for food security and nutrition. Rome, 2014.

MONTEIRO, C. A. A dimensão da pobreza, da desnutrição e da fome no Brasil. Estudos Avançados. São Paulo, 2003.

Aventuras em Todmorden | Parte 1

Aventuras em Todmorden | Parte 1

E aí, queridezas? Tudo tranquilinho? =)

Inicio essa postagem agradecendo a assistente de redação do site hypeness, Mariana Dutra, que em junho de 2015 escreveu uma linda matéria sobre a experiência de agricultura urbana na cidade britânica de Todmorden. De verdade, Mari, se algum dia você ler esse texto, saiba que nutro uma gratidão eterna pela tua pessoa e por essa matéria! <3

Para quem ainda não leu, não deixe de conferir a reportagem “Os segredos da cidade onde todo mundo planta, colhe e consegue ter uma alimentação saudável”. Foi lendo este texto que eu conheci e me apaixonei pelo projeto Incredible Edible! Eu compartilhei com “uma pá” de amigos o link e internalizei: “ Um dia eu vou pra lá!”. A verdade é: quem que trabalhando com agroecologia e permacultura não sonharia em conhecer esse projeto? Deus ou o destino, considerem o que julgarem melhor (pra mim foi God! #valeuGod o/), juntou seus pauzinhos para atender o meu singelo sonho.

Durante o ano de 2015, participei do programa de embaixadores do Thought For Food Challenge. O TFF foi o desafio que oportunizou a criação do Other Food, onde, após você participar integrando alguma equipe, pode seguir articulado ao desafio na modalidade de embaixador. Se você desenvolver as funções de um TFF Ambassador de maneira eficiente, há grandes chances de receber recursos para participar do Global Summit, conferência anual promovida pelo TFF Fundatiton como culminação do desafio. Com muita alegria, eu e parte da equipe do Other fomos contempladas com os recursos para participar de mais essa edição do evento que, neste ano de 2016, foi em Zurique, na Suíça.   

Muuuuuuita alegria e emoção! Iríamos novamente participar de uma conferência importante na temática de Empreendedorismo Jovem e Segurança Alimentar e Nutricional. Respiraríamos novamente os charmosos ares europeus (leia sobre a primeira viagem aqui na matéria “De repente… Lisboa!”) e, por último mas não menos importante, seria possível ir à Todmorden! Sim! Ao receber o e-mail de que iríamos viajar, no mesmo instante tive a certeza de entrar em contato com o pessoal do Incredible Edible. Vasculhando o site do projeto descobrimos o link para outra iniciativa chamada Incredible Farm, que recebia voluntários dentro de um projeto chamado WWOOF. Eu sei, são muitas siglas diferentes, mas eu explico:

World Wide Opportunities on Organic Farms – WWOOF | No português seria algo como “ampla oportunidade mundial em fazendas orgânicas”. É uma rede de fazendas que possuem produção orgânica de alimentos e, por isso, recebem voluntários para trabalhar e aprender sobre essa realidade. As fazendas oferecem hospedagem e alimentação e os voluntários mão de obra e entusiasmo. Não é demais? Tem um site de fazendas orgânicas aqui no Brasil, ele está em inglês, mas vale a pena conferir!

Todmorden é uma cidadezinha de aproximadamente 15 mil habitantes ao norte da Inglaterra, perto de grandes cidades como Manchester e Liverpool. Passamos 7 dias de vivência na fazenda do casal Nick e Helena. Como descrever experiência em uma palavras? INCRÍÍÍÍÍÍÍÍVEL! Não vou me ater na descrição do Incredible Edible, porque como já disse, está bem registrado na matéria que despertou nosso interesse. Como posso contribuir para ampliar as informações sobre esse projeto para os leitores brasileiros? Andreza e eu contribuiremos com nosso relato de experiência desses sete dias que atestam de forma muito vívida e animada a realidade daquele lugar que parece cenário de filme!

Lindo, né? <3

Ela é um vale na província de Yorkshire. Tínhamos uma linda vista do nosso quarto. Chegamos no início da primavera, mas o clima ainda estava bastante frio. Nossas vivências aconteceram na fazenda e no centro da cidade. O projeto Incredible Edible iniciou em 2007 e com sua expansão no território, os integrantes do projeto entenderam que era preciso avançar. Assim surgiram duas iniciativas: Incredible Farm e Incredible Edible Aqua Garden.

A fazenda foi projetada a partir dos princípios da permacultura: definição das zonas de trabalho de 0 a 4; a localização de três estufas ao sul do terreno para otimizar a captação de calor do sol; a existência de um sistema de captação de água da chuva; o banheiro ecológico tendo como “descarga” serragem, palha e folhas secas. Nas estufas, são produzidas hortaliças, muitas delas podemos dizer que são PANC. A captação de calor nesses espaços oportuniza a criação de um micro clima favorável para a produção de alimentos o ano inteiro. Outro detalhe importante, ainda nas estufas é a altura dos canteiros, que por serem elevados, permitem a organização dos reservatórios que recebem água da chuva e facilitam o manejo das plantas que crescem em altura favorável para o trabalho de uma jovem de estatura mediana como eu.

Restaurantes da cidade são clientes da fazenda. Além da venda de vegetais já selecionados (necessitando apenas da higienização devida), o pessoal também vende mudas de árvores frutíferas e produtos como compotas e molhos.

Sentimos na pele o peso da vida na fazenda! Já disse que lá era frio, certo? Quem é da região sul aqui do país, tem uma noção de frio, mas ainda sim, não podemos comparar. É FRIO DE RENGUEAR CUSCO! A época e o clima permitiam apenas que iniciássemos os preparativos dos canteiros para receber as mudas em momento propício e ajudássemos em atividades de manutenção dos espaços da fazenda. Na nossa segunda manhã de vivência tivemos a notícia que uma das vacas da propriedade havia dado a luz a um bezerrinho. Esse acontecimento também gerou uma série de tarefas para manter a nova mamãe e seu bebê confortáveis. Carregamos muita palha, muita palha, mas muita palha mesmo! hahahahaha De vários pontos da fazenda a outros lugares onde sua presença fosse importante. Muitos carrinhos de mão, muita enxada e muita força.  

Fomos muitíssimo bem recebidas e acolhidas em todos os dias. Não possuímos um inglês avançado e, mesmo assim, isso não impediu a comunicação e aprendizagens dos processos. Pelo contrário, aprendemos várias palavras e expressões novas na língua, juntamente com a noção de quanto trabalho é necessário para manter uma fazenda em pé.

Vamos falar das nossas queridonas? Gente, a quantidade de PANC que existem naquela cidade não está no gibi! Serralhas, Dentes-de-leão, Amor-Perfeito, Alho silvestre. Eram muitas, eram lindas e não somente estavam espalhadas pelas ruas, muros e pastos, como são reconhecidas e consumidas pelas pessoas da cidade. A verdade, é que o termo cunhado pelo professor Kinupp não pode ser utilizado lá, já que as plantas são comestíveis, mas seu consumo é convencional na região. Eles as chamam de plantas selvagens ou silvestres, reconhecem que há pequena ou nula produção ordenada desse alimentos mas os consomem conforme a natureza lhes fornecem. Nós mesmas fomos no domingo em que a fazenda é aberta à comunidade colher algumas plantinhas que comporiam o cardápio do almoço coletivo.

Conhecemos pessoas incríveis durante esses dias. Nick e Helena são um casal acolhedor, que reconhecem na permacultura e na juventude fortes elementos para tornar o mundo um lugar melhor. Foram fundadores do projeto Incredible Edible e criaram a Incredible Farm justamente para ser mais um bom exemplo dos benefícios e efetividades concretas que a produção orgânica gera numa realidade. Também, conhecemos Millie, Thursen e Rod, três voluntários oriundos da Austrália, França e Inglaterra respectivamente. Jovens como nós, implicados com a causa da permacultura que encontraram nesse espaço um lugar para desenvolver suas competências, aplicar seus conhecimentos e agregar com a experiência de Nick.

Ainda não terminei esse relato, mas deixarei o restante para outra postagem porque, reconheço que objetividade não é o meu forte e eu já escrevi demais por hoje!

 

 

Um resumão sobre as PANC

Um resumão sobre as PANC

Esse texto estava guardadinho na gaveta (mentira, na nuvem! kkkkk) aguardando um momento oportuno para ser publicado. =) Foi o primeiro texto que escrevi com um grande amigo, Guilherme Raniere que é meu amado “guru” PANC. Gestor Ambiental, também está na vida de mestrado como eu e é dono do blog Matos de Comer. Esperamos que apreciem esse resumão que vai ajudar iniciantes nas aprendizagens sobre as PANC. <3

Começando pelo começo

Elas podem estar em qualquer lugar: calçadas de ruas, pelas praças, ruelas, rachas de muros, canteiros de estacionamento ou terrenos baldios. Você passa por elas e nem as percebe, contudo, elas poderiam estar na sua geladeira compondo as opções vegetais das suas refeições!

Afinal, será que consumimos todas as plantas que temos à disposição, pensando na enorme biodiversidade alimentar que nosso país contém? Quando falamos sobre biodiversidade, pensamos em todas as plantas comestíveis que existem, sejam folhas para saladas, frutos saborosos, sementes, castanhas, cereais, ou ainda plantas produtoras de essências, de óleos comestíveis, de açúcares e até mesmo de seivas potáveis.

Para essa biodiversidade alimentar que poderíamos utilizar mas não utilizamos, há um termo bastante usado desde 2007, PANC – plantas alimentícias não convencionais. O termo “alimentícias” entra com um sentido diferente de “comestíveis”, porque comestível é tudo aquilo que consumimos diretamente, enquanto alimentícias são coisas que derivam em alimentos. Por exemplo, plantas que dão origem a óleos, farinhas, essências, açúcares ou chás não são necessariamente comestíveis in natura, mas consumimos derivados delas.

Quando usamos o termo planas comestíveis ou PANC nos referimos a plantas ou partes de plantas que entraram em desuso na alimentação das populações por inúmeros fatores, principalmente por não serem produzidas com o fim de comercialização em grande escala. Dessa forma, estamos nos referindo a plantas, muitas vezes, difíceis de serem encontradas em um mercado ou feira, mas que podem ser adquiridas em caminhadas, parques e até mesmo diretamente com o produtor. Já pensou colher sua salada no caminho de casa?

Temos partes de plantas conhecidas, como as folhas da beterraba, da batata doce e da cenoura, mas ainda a banana verde, que rende polpa e farinha, o mamão verde, consumo como chuchu, e até mesmo os brotos da abóbora e do chuchuzeiro, consumidos como couve ou espinafre. Porém, existem muitas plantas que são pouco conhecidas ou consumidas apenas em certas regiões, como o mangarito, a taioba, o ora-pro-nobis, o ariá, a bertalha e a serralha.

 

Plantas ruderais

Muitas dessas plantas por fim, são chamadas ruderais ou espontâneas, ou seja, são aquelas que surgem sem serem cultivadas, trazidas pelo solo, pela chuva, pelos pássaros ou mesmo por outros humanos. Muitas dessas plantas que surgem em jardins calçadas e plantações e são consideradas daninhas ou matos são, na verdade, plantas comestíveis, nutritivas e deliciosas, que poderíamos consumir, mas jogamos fora. Para facilitar o entendimento do termo ruderais ou espontâneas, pense o seguinte: você já viu um pé de alface nascendo sozinho, sem ter sido semeado? Um pé de couve nascendo no meio da rua? Provavelmente nunca, né? Isso porque são plantas que dependem do homem e de condições específicas para se desenvolverem. Já esses matos comestíveis, não, nascem em qualquer lugar e de forma espontânea.

Essa nomenclatura de “ruderais” refere-se a espécies adaptadas a muitos ambientes,  apresentando capacidade de crescer em condições adversas. Desta forma, pode-se pensar que muitas plantas comestíveis são ruderais; entretanto, nem toda a ruderal é comestível, havendo muitas ruderais não comestíveis e até mesmo tóxicas.

As plantas comestíveis ruderais são plantas encontradas em diversos locais devido a sua reprodução espontânea e grande adaptação. Por essa capacidade que as elas possuem de crescer em condições adversas, são consideradas pelos agricultores como tolerantes a estresses e mais resistentes à seca e a solos pobres, ajudando os agricultores a diversificar sua produção e pensar em espécies mais resistentes em relação aos riscos das alterações climáticas e possível perda da produtividade. Em último lugar, mas não menos importante, destacam-se suas potencialidades nutricionais! Conforme estudos bioquímicos indicam, muitas dessas plantas apresentam teores de nutrientes, como vitaminas e minerais, muito superiores aos das plantas comestíveis disponíveis.

 

Diferentes nomenclaturas

No mundo, desde o final dos anos 1990, autores como Eyzaguirre et al. (1999) e IPGRI (1996), utilizavam termos como espécies subutilizadas e espécies negligenciadas (NUS – Neglect and Underutilized Species). NUS é uma expressão abrangente, podendo incluir qualquer animal ou vegetal que seja comestível. A Bioversity International em uma nota informativa menciona que NUS são “também conhecidas como culturas menores ou ‘órfãs’, que podem ajudar a lidar com problemas globais tais como a redução da fome e da pobreza, e as alterações climáticas” (tradução nossa).

No mundo, existem ainda outras nomenclaturas, como por exemplo “edible weeds” (matos comestíveis), “unconventional food plants” (plantas alimentícias não-convencionais), “quelites” (termo genérico para “folhas comestíveis silvestres”), “wild food plants” (plantas comestíveis não-cultivadas) e “malezas comestibles” (daninhas comestíveis). Dessa forma, existem muitas nomenclaturas aceitas internacionalmente, e PANC é uma delas, mais comum no Brasil.

O termo e seu acrônimo, PANC, foram criados por um pesquisador brasileiro em 2007, unificando diversos termos que se referiam à mesma categoria de plantas. Essas plantas são, por definição, “plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício mesmo que não sejam comuns, não sejam corriqueiras, não sejam do dia a dia de grande parte da população de uma região, de um país”.  Contempla, assim, “todas as plantas que tem uma ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas ou cultivadas”.

Em função dessa ampla abrangência conceitual, o critério para considerar uma PANC é muito subjetivo: vegetais em sua maioria de reprodução espontânea e que não exigem esforços para seu cultivo, não estão inseridas na cadeia produtiva e não apresentam interesse comercial às empresas de sementes, fertilizantes ou agroquímicos – é o que nos orienta o Manual de hortaliças não convencionais, elaborado em 2010 pelo Ministério da Agricultura. Vale lembrar que, caso uma espécie passe a ser produzida, comercializada e conhecida pela população, passando a ser tão comum como a banana, a alface, o feijão ou a cebola, ela deixa de ser considerada uma planta não convencional, deixando de ser chamada de PANC para ser chamada de espécie convencional. Isso é ruim? Não, isso é ótimo, significando que muitas pessoas tem acesso a ela e que ela está finalmente chegando à mesa dos brasileiros.

 

Pra fechar a prosa

Estamos falando de muitas, muitas espécies! Na realidade, estamos falando de tudo aquilo que é comestível, mas não está a venda. Existem algumas iniciativas que contribuem para que elas voltem a ser conhecidas e consumidas já que estas plantas trazem muitos benefícios para a saúde das pessoas e podem ser preparadas de diversas formas. Muito mais que uma tendência gastronômica, as PANC também podem ser uma ação estratégica para complementação alimentar de pessoas que ainda hoje não tem acesso contínuo e permanente a alimentos de qualidade e que fazem bem à saúde. Uma saída para transpor a fome, uma saída para inclusão social por meio de geração de trabalho e renda.

 

Espero que com a sessão Tudo Mato eu possa te ajudar a  reconhecer algumas delas, conhecer um pouco da história delas na alimentação humanas e também saber segredinhos de como prepará-las. Tudo isso para provar que outra alimentação é possível e não somente isso, para mostrar que alternativas de combate as fomes do mundo são possíveis com o cultivo e consumo dessas lindezas!  Se você leu até aqui, não custa nada compartilhar esse texto, né? Conte para todo mundo sobre essa novidade revolucionária de tornar o mundo mais nutrido, solidário e sustentável! 🙂

Sustentabilidade é o fim.

Sustentabilidade é o fim.

A explicação mais usual e enxuta para definir o termo sustentabilidade afirma que é um processo para satisfazer as necessidades de uma geração sem diminuir as perspectivas das gerações futuras de fazer o mesmo. O entendimento geral sobre o tema, o conhecido “senso comum” expresso em propagandas das empresas e organizações, textos em blogs e sites, bem como demais espaços que trabalham nessa temática podem fortalecer em nós a ideia que sustentabilidade é um meio para alcançar um mundo melhor (senão melhor, com recursos naturais o suficiente) para nós e os próximos que virão. Bem, quero compartilhar com vocês sobre a recente descoberta que fiz onde, na verdade, a sustentabilidade é o fim de múltiplos processos na teia da vida.

A expressão “Teia da Vida” não é minha, ela dá o título de um dos livros escritos pelo físico Fritjof Capra publicado no ano de 1996. Colando parte da sinopse do livro: “A Teia da Vida apresenta novas e estimulantes perspectivas sobre a natureza da vida e abre caminho para a autêntica interdisciplinaridade”. É verdade! Essa leitura está sendo muito importante e por isso que nesse no texto, trarei as ideias de dois capítulos deste livro, Alfabetização Ecológica e Ecologia Profunda, relacionando-os com um conceito que também estou aprendendo nesses dias que é o Ecofeminismo.

Dando um passo atrás para traçar nossa linha de raciocínio eu questiono: Por que a sustentabilidade pode ser considerado fim e não meio? Quando ouvimos alguém dizer: “precisamos nos reconectar com a natureza”, o que isso significa? Qual o sentido dessa reconexão? O que é estar conectado? O paradigma da Ecologia Profunda nos sugere que essa “reconexão” é o reconhecimento que integramos a natureza em sua totalidade, que não estamos alheios ou a parte dos ecossistemas que formam nosso planeta, somos integrantes intrínsecos de todos os fenômenos naturais da Terra. Querendo ou não, percebendo ou não, desde que nascemos, crescemos, nos desenvolvemos e morremos estamos conectados e aí caí por terra pensar que precisamos nos “reconectar”.

Essa percepção sobre profundidade (Ecologia Profunda) diz respeito não há uma análise rasa, ou seja, centrada nas relações humanas com o meio ambiente; mas sim, na rede de processos que estão fundamentalmente conectados e dependentes entre si. Do microrganismo que vive no solo ou no oceano até sua escolha por uma marca ou outra de sabonete líquido existem fios conectores, que se relacionam e geram desdobramentos para o sistema global. Apesar da crescente “onda ambientalista” nas sociedades, ainda estamos vivendo uma ecologia rasa que se expressa na visão de mundo e no modo de vida das pessoas centradas em si mesmas e achando que devem “salvar o mundo das cáries” (ou da poluição). A visão de mundo da nossa sociedade contemporânea é construída por valores fundamentais que orientam e norteiam práticas individuais e coletivas, retroalimentando um ciclo descompassado com os ciclos e padrões da natureza. Os impactos e prejuízos desse anticiclo são experienciados todos os dias com a destruição da biodiversidade de fauna e flora dos biomas, as catástrofes climáticas, as crises energéticas, o excesso de resíduos e toxicidades nos solos e oceanos… você pode pensar em muitos mais problemas do que os citados aqui.

Um exemplo aleatório: só aprendemos a ler e escrever quando entramos em contato com as letras, as sílabas; quando nos apresentam sentidos que cada conjunto de fonemas representa; quando nos orientam que o conjunto de vários códigos combinados formam uma gramática, um instrumento de comunicação que permite que essas formas de linguagens se manifestem. Na lógica de ampliar nossa compreensão de pertencimento à natureza não é diferente, precisamos ser alfabetizados, precisamos aprender a forma como os elementos da natureza interagem e geram seus fluxos e constroem a vida. A metáfora da teia que nos acompanha neste caminho, se desenvolve a partir de múltiplas relações humanas e não humanas que formam comunidades ecológicas. Essas comunidades, especialmente as não humanas tem muito a nos ensinar, a sabedoria vinda da natureza “é a essência da eco-alfabetização”, afirma Capra.

Esse caminho de leitura da natureza pressupõe uma aproximação de alguns princípios básicos da ecologia, como por exemplo, a interdependência, a reciclagem, a parceria e a diversidade. Até aqui, trouxemos bastante o princípio da interdependência existente entre as relações de vida na teia. Abordar cada um dos princípios deixaria meu texto muito extenso e teremos muito tempo para compartilhar bastante sobre cada um deles em outros momentos. Assim, destacarei mais um dos princípio citados que considero pertinente neste contexto da escrita, o da reciclagem. Os processos da natureza são cíclicos são formados por seres vivos e suas ligações, estas ligações são pontos da rede. Os seres vivos vão gerando produtos e resíduos que são consumidos por outros seres em outros pontos da rede, jogando para outro ponto em seguida e assim nosso planeta foi produzindo vida há milhares e milhares de anos. Essa reciclagem de matéria orgânica e inorgânica formam e reformam os relevos, as paisagens e a vida em sua totalidade, é um sistema que pode ser considerado fechado.

A humanidade, especialmente com o advento da industrialização e do consumo de combustíveis fósseis, por exemplo, pratica há décadas sistemas abertos de produção e reprodução da vida. Chama-se sistema aberto porque são processos unilaterais, geram resíduos que mesmo chegando em outro ponto da rede não seguem o fluxo de ciclagem, não são consumidos por outros pontos da rede, se estocam pelas realidades. Não são reformados mas formam, contribuem na construção de espaços inóspitos, difíceis de reproduzir diversidade biológica, outro princípio importante para manutenção da vida.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque percebo que a narrativa de sustentabilidade que temos hoje é rasa. Existem inúmeras empresas que querem te atrair como consumidora em nome da sustentabilidade; existem inúmeros sites, blogs e programas de televisão que te ensinam ações práticas em nome da sustentabilidade. Minha intenção neste texto é encorajar as leitoras a pensar além disso. É para além do consumo de A ou B, é sobre a forma como isso é produzido. Não é sobre fazer uma horta ou um shampoo natural, é sobre de onde vem os insumos para realização da minha horta ou confecção do meu produto de higiene pessoal. E não é somente sobre todas as coisas que eu uso, mas sobre os resíduos que os meus usos geram nos ecossistemas que eu integro. Não estou dizendo que devemos voltar a idade da pedra, ser coletores e usar pele de animais como roupas. Mas estou sim, dizendo que precisamos questionar nossas práticas e, de maneira dialética, transformar tanto nossas ações quanto nossa forma de ver as dinâmicas da natureza e como as integramos. Para viver os princípios da ecologia que tem como fruto a sustentabilidade, precisamos questionar, precisamos nos eco-alfabetizar.

Por último, mas não menos importante, quero trazer brevemente as contribuições do ecofeminismo para fechar nosso pensamento. Existe um texto muito completo sobre o tema publicado em 2006 na Revista Espaço Acadêmico. Ele traz não somente quais foram as fases desse movimento até aqui, como faz uma contextualização histórica (bem antiga lá dos povos Celtas, Wikings, etc e tal) sobre a construção do gênero feminino e sua relação com a natureza e como essa relação foi distorcida e banalizada, bem como ambas as partes integradas (mulheres e meio ambiente) foram subjugadas e dominadas pelo capitalismo e o patriarcado. Há divergências em relação às abordagens e análises entre as fases do ecofeminismo. O fato é que a mulher, historicamente ocupa um papel fundamental na preservação da biodiversidade natural, no cuidado com a terra e os seres vivos, sejam eles animais, plantas ou prole. O ecofeminismo, em suma, busca a mobilização e articulação das mulheres pelo fim da inferiorização da mulher em relação ao homem e pelo fim da destruição da natureza através de guerras, poluição e reprodução dos processos anticíclicos já mencionados. Inclusive, Capra afirma que se os homens desenvolvessem, minimamente, as competências e a práxis das mulheres no cuidado com a Terra, não estaríamos nesse colapso socioambiental que nos encontramos.

Eu prefiro acreditar que, felizmente, as mulheres têm em si essa tendência autodidata à eco-alfabetização. Me alegro em pensar que sim, são as mulheres que não só geram vida como também possuem a potencialidade de preservá-la, guardá-la e cuidá-la. Obviamente não estou dizendo com isso que homens não tenham suas responsabilidades e dívidas históricas com Gaia, o que estou fazendo é valorizando uma práxis que foi protagonizada por mulheres ao longo do tempo que colocam algum saldo positivo na balança da humanidade. Queridas, se você não se achava feminista porque “só queria cuidar do meio ambiente” ou “lutar pela liberdade animal” ou “ combater a fome no mundo” ou “salvar as água do rio x ou z” saiba que você é sim uma revolucionária feminista, no campo ou na cidade. É essa alfabetização ecológica, e não somente ecológica, mas profundamente ecológica (sim, escreverei três vezes a mesma palavra em um parágrafo kkkkkk) totalmente perpassada pelo ecofeminismo que gerará a sustentabilidade que tanto buscamos.

Não salvaremos o meio ambiente, precisamos apenas entrar nos ciclos, viver os princípios das comunidades ecológicas. Sim, eles estão bagunçados. Nós os bagunçamos porque somos analfabetos. Sim, levará um bom tempo para o sistema conseguir reencontrar seu equilíbrio e retomar seus fluxos de forma não degradada. Isso é reparação, não é sustentabilidade, a sustentabilidade é um fim, mesmo que constantemente dinâmico e fluído na busca do equilíbrio em meio ao caos (que também é constante /o\), é um estado de bem viver sistêmico da Terra que, por acaso, nós humanos estamos incluídos.

Referências:

CAPRA, F. A Teia da Vida. Editora Cultrix. São Paulo, 1996.

ANGELIN. R. Gênero e meio ambiente: a atualidade do ecofeminismo. Revista Espaço Acadêmico. 2006. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/058/58angelin.htm>. Acesso: 29/12/16.