Onde encontrar alimentos locais na cidade?

Onde encontrar alimentos locais na cidade?

O comemos muda o mundo! Saiba onde encontrar alimentos locais em diferentes cidades no Brasil.

 

Um jargão muito utilizado quando falamos de alimentação e saúde é: ”você é o que você come”, isso porque realmente a qualidade e quantidade dos alimentos que consumimos todos os dias contribui para a manutenção do nosso organismo e bem-estar. Acontece que alimentação não está restrita a essa relação biológica das nossas necessidades.

Alimentação é algo difícil de definir, ela é um processo biológico que faz a nutrição do nosso corpo; é um setor econômico que movimenta parte das relações de trabalho no mundo, como também, um fenômeno social com expressões culturais que dão identidade às refeições das sociedades. Alimentação é uma intensa marca da humanidade na natureza ao mesmo tempo que por meio dela somos marcados. Alimentação está tão arraigado no nosso dia-a-dia que esquecemos de pensar sobre esse ato.

Por isso, eu acredito que o mundo é o que comemos. Conhecer o caminho que acontece da semente ao prato é essencial para buscarmos saúde para nós mesmos e o ambiente. O consumo de alimentos locais é um ato de amor! Mesmo na cidade, nós urbanóides podemos contribuir para os impactos positivos que nosso planeta precisa e merece.

Alimentação local é aquela que utiliza alimentos que foram cultivados perto de onde moramos, e não pense que proximidade é sinônimo de restrição. Principalmente aqui no Brasil, onde todos os 5 biomas (Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Amazônia e Pampa) apresentam uma diversidade de comidas e culturas gigantesca. Cada bioma brasileiro é uma imensidão de cores, sabores e histórias de homens e mulheres que carregam essas paisagens em seus modos de vida e isso também se expressa na alimentação. Já aproveita e põe aí nos comentários a sua região e qual é o prato mais delicinha que você encontra só por aí!

No vídeo IDEIAS PARA MELHORAR O MUNDO: ALIMENTAÇÃO LOCAL, eu falo sobre os benefícios de uma alimentação local. Aqui no texto eu quero apresentar algumas iniciativas lindinhas que trabalham com alimentos da sociobiodiversidade brasileira. Conheça essas iniciativas e descubra quão perto de você podem estar esses alimentos bons, justos e limpos para quem produz e quem consome! <3

Feira do Produtor – CEASA/DF | Foto: Bruna de Oliveira

Feiras Orgânicas: as feiras agroecológicas são espaços onde muitos produtores e produtoras regionais comercializam suas colheitas e produtos beneficiados como geleias, compotas, queijos ou polpa de frutas. Aqui em Brasília existem muitas feiras nas quadras residenciais no plano piloto, tem também a CEASA-DF onde, aos sábados, tem a feira do produtor com vários stands de cooperativas de produção, assentamentos da reforma agrária, etc. Você pode conhecer feiras perto de vocês por meio de uma ferramenta chamada Mapa de Feiras Orgânicas, idealizada pelo Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, com objetivo de tornar os produtos orgânicos mais acessíveis aos consumidores e fomentar uma alimentação saudável em todo Brasil.

Empreendimentos de Economia Solidária: Eu não sei você, mas eu acredito que podemos inovar nas relações de trabalho e considero que os princípios da economia solidária estão muito alinhados às práticas comunitárias de trabalho. Existem associações, cooperativas e centrais de cooperativas empenhadas em potencializar a construção e o fortalecimento de mercados para produtos das mãos de comunidades tradicionais e campesinas.

  • Central do Cerrado: A Central do Cerrado é uma central de cooperativas sem fins lucrativos estabelecida por 35 organizações comunitárias de sete estados brasileiros que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado.
  • COPABASE: Com a missão de organizar e comercializar produtos artesanais e culturais da Região do Vale do Urucuia de maneira sustentável. A COPABASE é uma cooperativa que se dedica a agricultura familiar e a Economia Solidária, com sede em Arinos/MG no Vale do Urucuia. Sua atuação regional estende aos municípios de Arinos, Bonfinópolis de Minas, Buritis, Formoso, Pintópolis, Riachinho, Urucuia e Uruana de Minas.

Movimentos da Sociedade Civil: existem muitas pessoas se juntando para construir realidades mais ecológicas e amorosas por meio do setor de alimentos.

  • Movimento Slow Food Brasil: Esse movimento, que começou na Itália e se espraiou pelo mundo tem dado bons fruto aqui no Brasil também. Por meio do projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos tem ajudado muito nessa rede cidadã agroalimentar, sendo um eixo conector entre quem produz e quem consome. Você sabia que no site desse movimento existem as Fortalezas e Comunidades do Alimento separadas por região? Tem sido muito legal acompanhar as atividades do Slow Food nesse projeto, uma das etapas que aconteceu foi o Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na região Centro-Oeste, você pode saber o que rolou aqui.
  • App Responsa: O Responsa é fruto da parceria entre o Instituto Kairós e a cooperativa de trabalho EITA. Nele, você pode encontrar locais, iniciativas e grupos que adotam e fomentam práticas de responsabilidade na produção e consumo. Há iniciativas da economia solidária, grupos de consumo responsável, iniciativas de agroecologia, centrais de comercialização, pequenos produtores, cooperativas de trabalho, feiras orgânicas, restaurantes com produtos orgânicos, hortas comunitárias em todo o Brasil.

Produtores/as e consumidores/as em seminário sobre alimentação e sociobiodiversidade Slow Food. | Foto: Nzinga Bonne

Muitos desses produtos podem ser encontrados em restaurantes, empórios e lojas com princípios da sustentabilidade e agroecologia. Se você não conhece os alimentos locais da sua região, sugiro começar com o livro Alimentos Regionais Brasileiros, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em 2015. A publicação tem o objetivo de  favorecer o conhecimento acerca das mais variadas espécies de frutas, hortaliças, leguminosas, tubérculos, cereais, ervas, entre outras, existentes no Brasil.

Uma coisa é certa, precisamos fortalecer as redes entre quem produz e quem consome, abraçando os princípios ecológicos e da economia solidária. A sociobiodiversidade alimentar brasileira é formada por mulheres e homens do campo e da cidade, preocupados com o cuidado com o meio ambiente, com todos os seres que compõem a natureza e em como essas relações se estabelecem. E não menos importante, pelo sabor dos nossos pratos!

Estamos cada vez mais conectados com o mundo inteiro e todas as coisas boas que a diversidade global pode nos oferecer. Ao mesmo tempo, estamos cada vez mais desconectados de todas as coisas boas que também existem pertinho da gente. Bora botar em prática o bom e velho “pensar globalmente, agir localmente”. Acho que um ótimo jeito de começar é através da alimentação: uma coisa que todo mundo faz, todos os dias! Comer localmente pode beneficiar o mundo inteiro.

Ah, você pode me mandar um e-mail (contato@crioula.net) contando sobre lugares legais que você sabe que poderiam estar nesta postagem. Compartilho projetos que fazem parte do meu cotidiano, é sempre bom aprender e compartilhar informações! Vamos conversar!

Texto escrito para o site do PorQueNão? – Mídia Interdependente

As PANC no programa Conexão | Novas formas de alimentação

As PANC no programa Conexão | Novas formas de alimentação

Estive – via vídeo chamada – com a Eliane Benício, apresentadora do programa Conexão do Canal Futura conversando sobre as PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Novas formas de alimentação foi o tema do programa que contou com a participação – em estúdio – de outras iniciativas maravilhosas como a Tatiana Dutra Perez, fundadora da comunidade Comida da Gente, que existe a 4 anos! =)

O programa foi ao ar no dia 09 de março e está disponível por meio deste link.

A proposta do programa, segunda a editoria, foi apresentar as novas formas de alimentação, incluindo dietas inovadoras, estilo de vida moderno, e principalmente, o “Wellness” ou “Bem-Estar”, que chegam a gerar mais de 16 milhões de posts nas redes sociais.

O Conexão é um espaço dedicado a entrevistas com foco na prestação de serviços e na análise crítica e contextualizada de assuntos de interesse público, parte da agenda nacional e das principais discussões do universo digital.

Dicas de outro para quem busca alimentos “diferentões”.

Dicas de outro para quem busca alimentos “diferentões”.

Plantas Alimentícias Não Convencionais | Dicas de ouro da Bru!

Você já parou para pensar que existe comida para além dos espaços onde as compramos? Você sabia que comemos menos de 1% das 30 mil possibilidades alimentares que temos pelo mundo? Onde estão os outros 99% de alimentos no mundo? Então, elas estão pelas ruas, praças e ruelas das cidades disfarçadas de mato ou nas hortas e espaços de produção agrícolas intituladas erva daninha ou inço. Há muito o que conhecer, atualmente um conceito muito trabalhado tem sido o das Plantas Alimentícias Não Convencionais, as PANC!

PANC é um termo usado para categorizar muitos tipos de plantas e suas respectivas partes com alguma funcionalidade alimentar para o ser humano. Serralha, beldroega, trapoeraba, picão branco, mangará, dente de leão, caruru, celósia, espinafre indiano, malvavisco, ora pro nóbis são exemplos desses recursos alimentares que abrem um universo de possibilidade para diferentes sabores na nossa alimentação.

As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) estão ganhando a boca do povo! Dos lugares mais inusitados, estão aparecendo em programas de televisão, revistas de grande circulação, textos em sites e blogs e vlogs como o que está no canal do PQN?! Eu já escrevi um texto fazendo um resumão sobre elas. Hoje eu quero compartilhar algumas dicas práticas para você se sentir mais seguro na hora de reconhecer, coletar ou plantar e cozinhar essas lindas! =)

Dica 1 | Não tenha medo de nomes científicos

Para saber se uma planta é alimentícia ou não você precisa investir tempo estudando as características de folhas, frutos, flores, sementes, caule. Memorizar não somente os nomes populares como também seu nome científico é importante para não confundir espécies que podem ser parecidas mas não iguais. Existem gêneros ou famílias de plantas que possuem espécies comestíveis e outras tóxicas, é sempre bom estar seguro para reconhecer um planta para consumir. Uma mesma planta pode ter vários nomes populares, ou, um nome popular pode servir para mais de uma planta. Um exemplo é a Major Gomes, esse é um nome popular (também é chamada de Maria Gorda ou Beldroegão ou Cariru ou Bênção de Deus….) para pelo menos 2 espécies diferentes, a Talinum paniculatum e a Talinum triangulare.

 

Talinum triangulare

Talinum triangulare

Talinum paniculatum

Talinum paniculatum

 

No início você pode ficar inseguro em reconhecê-las, mas isso diminui com o tempo e, acredite, nossa mente tem a capacidade de armazenar muitas informações. Desbrave as possibilidades em aprender mais sobre botânica e taxonomia (os amigos e amigas biólogos agradecem!).

Quer links legais para saber como estudar as estruturas das PANC e seus nomes científicos?

Dica 2 | Onde posso encontrar?

Já existem muitas feiras agroecológicas onde agricultores e agricultoras familiares comercializam esses alimentos. Também têm horta comunitárias onde elas são cultivadas ou nascem espontaneamente por animais polinizadores. Essas são boas formas de conhecer plantas novas sem os riscos de identificar errado ou coletar em lugar insalubre (com a presença de cocô ou xixi alheios, microrganismos de esgoto ou excesso de poluição dos carros em grandes vias).

  • Você pode saber se existe uma feira perto de você no Mapa de Feiras Orgânicas produzido pelo IDEC. =)
  • Existe um mapa colaborativo que você pode identificar o local e a PANC que você encontrou para outras pessoas, o nome desse aplicativo é Ka’a-eté. Só fazer o cadastro, já tem vários “pins” indicando lugares em que queridezas sinalizaram a existência dessas plantas.

Dica 3 | Na dúvida não coma!

Não coma nada que você não tenha certeza que é comestível! Meu pai fala que tudo é comestível uma vez na vida pelo menos. Brincadeiras a parte, existem plantas tóxicas que precisamos evitar ingerir obviamente, como também, existem aquelas que precisam passar por algum procedimento prévio de preparo para serem consumidas. Isso não é um privilégio PANC, lembremos de alimentos “comuns” como o feijão que deixamos de molho e precisamos cozinhar por muito tempo ou do espinafre que recomenda-se consumir sempre refogado ou cozido. Por isso que a dica 1 é tão importante!

Dica 4 | Na dúvida, cozinhe!

Se você sabe que algo é comestível mas nunca comeu, prefira consumir em pouca quantidade e depois de refogar, fritar, cozinhar de maneira geral. Ninguém sabe algo que possa ter no alimento que nos causa alguma reação. Parcimônia e paciência nos ajudam a comer cada vez mais alimentos novos com segurança e tranquilidade.

Quer fazer receitas com PANC?

  • O livro Mais que Receitas é uma publicação do projeto Ideias Na Mesa e tem uma sessão dedicada às PANC;
  • Tem um achado antigão de receitas PANC nesse link aqui.

Posso dar um conselho? D-E-S-B-R-A-V-E! Se você tem medo de reconhecer as PANC sozinho, junte um grupo de amigos e caminhe por aí. Se você não quer coletar em lugares públicos porque tem medo de contaminação, vá às feiras e converse com agricultores e agricultoras para eles e elas te ajudarem. Se você tem medo de se queimar ou fazer algum processo errado na corrida, corra para a casa da avó e relembre com ela as receitas que ela fazia e/ou ainda faz mas poucas pessoas apreciam. Você não precisa ser refém das gôndolas do supermercado, você não precisa consumir apenas o que está envolvido numa embalagem plástica colorida. Existe comida em todo o lugar, basta alinharmos nosso olhar com a bela diversidade da natureza!

Eu sou suspeita para falar porque sou apaixonada por essa temática. Falar em agrobiodiversidade é falar numa imensidão de possibilidade, é falar de emancipação humana e é falar sobre respeito a natureza que somos nós. Esse não será o último texto que escrever sobre isso e você também pode acompanhar meus experimentos culinários pelo meu perfil no Instagram ou pela página do projeto que faço parte chamado ReFazenda. É sempre um prazer compartilhar saberes e sabores por aí, espero que essas dicas ajudem na sua aproximação nesse assunto que é muito amor! <3

Para saber mais acesse aqui.

Texto escrito para o site do PorQueNão? – Mídia Interdependente

Pobres têm hábitos alimentares?

Pobres têm hábitos alimentares?

O projeto Alimentos para Todos, elaborado pela prefeitura de São Paulo, a partir da sanção da Lei 16.704/2017 intitulada Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos tem dado o que falar. Pesquisadoras/es, professoras/es, nutricionistas e pessoas implicadas nas temáticas de alimentação, nutrição e direitos humanos tem se manifestado sobre o assunto afirmando o retrocesso que essa iniciativa representa nas lutas de combate à fome e desenvolvimento social.

Em Milão, na Itália, o prefeito defende o projeto e menciona que as pessoas contrárias a essa ação se colocam como tal por falta de conhecimento. Também, como lembrado pela vereadora paulistana Sâmia Bonfim há um episódio do programa Aprendiz com João Dória em que ele questiona um dos participantes do reality show se pobre tem hábitos alimentares. O prefeito tenta minimizar a repercussão do vídeo dizendo que é uma fala tirada de seu contexto.

Veja aqui o momento exato do episódio:

 

Eu fui atrás do programa na íntegra, você pode vê-lo aqui. Após assistir o episódio é possível perceber que, não somente o contexto de sua fala é o mesmo: trabalhar com pessoas em situação de rua e/ou em condições vulneráveis socioeconômicas; como sua ação em relação a essa situação não se modificou. Tanto os questionamentos se pessoas pobres possuem hábitos alimentares, quanto a defesa de um programa como o Alimentos para Todos revelam o distanciamento do João e seus apoiadores do que significa hábitos alimentares e todas as conquistas alcançadas pelos movimentos sociais ligados às questões do direito humano à alimentação adequada.

Se o Dória estivesse perguntando para mim: “Bruna, você acha que pobres têm hábitos alimentares?”, prontamente eu responderia: “SIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!”.

Primeiro, porque não podemos confundir hábitos com situação que ocorre com frequência ou rotina. Eu sei, parece que estamos falando da mesma coisa, mas não estamos. Genericamente, existe essa compreensão de que um hábito é uma coisa que acontece na nossa rotina e é uma coisa que acontece com frequência. Logo, se eu sou pobre, moro na rua e não tenho acesso a alimentos eu não tenho hábitos alimentares. Isso é um raciocínio lógico, porém incoerente e insuficiente para pensar as questões de justiça social e políticas públicas.

Pensar em hábitos vai para além de pensar frequência. Pierre Bourdieu foi um sociólogo francês que estudou a fundo sobre o conceito de habitus (sim, é com u mesmo). O que é e/ou como se forma um hábito? Para o autor, habitus é o que vincula uma pessoa ao espaço social que ela integra. Habitus é um elo entre uma estrutura estruturada e uma estrutura estruturante. Eu não vou aqui entrar em explicações muito profundas sobre isso porque não sou socióloga, sou uma nutricionista interessada em olhar para a sociedade com lentes que apoiem minhas compreensões. Se escrevo sobre essas aprendizagens e formas pessoais de entender a vida e situações como essa da ração humana é porque acredito que podemos conversar e entender as relações sociais de uma forma fraterna e leve, uma conversa.

Assim, para entender o conceito de habitus precisamos nos aproximar de mais dois conceitos: estrutura estruturada e estrutura estruturante. Bourdieu apresenta como estrutura estruturada as convenções, crenças, regras, dogmas e todo um sistema de comportamento que moldam a sociedade desde antes do nosso nascimento. Nós já nascemos em relações sociais pré estabelecidas. Escolas, faculdades, quartéis, igrejas, organizações sociais, empresas, academias… tudo isso pode ser considerado como estruturas estruturadas.

Uma estrutura estruturante seríamos nós enquanto integrantes destas estruturas sociais que para nos sentirmos pertencente a um lugar reproduzimos, fortalecemos e dessa modo que seguimos consolidando essas estruturas. Dessa forma, quando a gente fala de hábitos alimentares estamos falando das práticas que integram a alimentação de grupamentos humanos. Estamos falando de fluxos que vão da produção ao desperdício, da terra ao prato e, posteriormente, ao lixo. Refletir sobre hábitos alimentares a luz desse autor nos permite ampliar nosso olhar para as estruturas sociais que dão base para construção desses hábitos alimentares.

Não existe pessoa dentro de uma sociedade que não possua hábitos alimentares, nós possuímos hábitos alimentares e estamos inseridos na sociedade de diversas formas. Podemos estar inseridos na média da população, podemos estar num lugar de privilégio, podemos estar inseridos à margem do que é socialmente aceito, do que é medianamente vivido. Todos e todas estamos inseridos/as dentro de sociedade que diferencia os hábitos alimentares conforme o lugar que ocupamos nela.

O conceito de Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) é muito importante ser trazido nessa conversa. O DHAA é um dos consensos internacionais registrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre eles está a alimentação como um direito fundamental para a manutenção da vida humana. Eles são universais, indivisíveis, interdependentes e interrelacionados.

Eu entendo que pobres ou pessoas que estão inseridas na sociedade de uma maneira marginalizada possuem hábitos alimentares, não possuem a garantia do DHAA (e outros também…), eles e elas não possuem o acesso aos alimentos. Isso não significa que uma pessoa em situação de rua não nasceu numa família e que essa família não traz em si uma bagagem cultural, um acúmulo vivencial que dá tom e forma para seus hábitos alimentares.

Dizer que pobres não têm hábitos alimentares é negligenciar o DHAA, é negligenciar que existe sim pessoas que não tem acesso ao um alimento em quantidade e qualidade suficiente, garantia prevista para que ela exerça o seu direito fundamental de vida. Falar de DHAA é falar do direito à vida e de ter dignidade para viver. Todos nós precisamos de alimentos que sejam suficientes para garantir a nossa vida. Pessoas pobres, pessoas com pouco acesso a dinheiro para comprar ou a terra para produzir são pessoas que tem o seu direito à alimentação violado, um direito – como eu já disse – fundamental.

Considerando mais um elemento “equivocado” do projeto que apresenta como “solução para a erradicação da fome” a profusão de um alimento ultraprocessado à população. Concordo com o emprego da expressão ração humana, não só pelo aspecto, mas pela própria natureza desse produto que é destituído de identidade, de acúmulos culturais e construções sociais populares. Todos e todas nós temos heranças socioculturais, todos e todas temos histórias alimentares. Esse projeto se coloca como um mecanismo que destitui de um ser humano parte do que o constitui simplesmente pelo seu não acesso a recursos materiais para comer, vestir e morar.

Essa iniciativa de alimentos para todos é infundada e fracassada desde sua gênese por não considerar as dimensões culturais e simbólicas que todo o ser humano tem. Não somente por isso, mas porque coloca em xeque o que que entendemos por alimentos: eu entendo por alimento uma cápsula? Um suplemento alimentar? Eu restrinjo o alimento a uma massa de nutrientes para dar conta da minha manutenção energética, manutenção fisiológica? Ou eu penso no alimento como base estruturante das nossas histórias, vivências e das nossas culturas sociais?

Respeitar o outro na sua singularidade é não aceitar a afirmação que pessoas pobres não têm hábitos alimentares, é não aceitar que em função de uma vulnerabilidade socioeconômica as pessoas precisam estar agradecidas ou aceitarem qualquer tipo de alimento. Pensar nisso é importantíssimo, pra vida, e especialmente gestores/as públicos/as que executam políticas públicas. É fundamental existir uma gestão pública que perceba as múltiplas dimensões que formam as esculturas sociais de um município, estado ou país. Como os governos se relacionam com as cidadãs e cidadãos dos territórios brasileiros?

Para não acabar esse texto nem pessimista, nem tão reflexiva vou dizer para vocês que São Paulo PULSA de atividades que contribuem para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada! Caberia a gestão municipal olhar para essas iniciativas e identificar como fortalecer os diferentes e numeroso projetos que trabalham com uma alimentação socialmente justa e ambientalmente saudável.

Pessoas de São Paulo são infinitamente mais qualificadas para indicar espaços para serem conhecidos, vou compartilhar alguns que conheço por amigos e que podem ser portas para todo mundo que quiser fortalecer as ações que já existem e contribuem para a segurança alimentar e nutricional da população paulistana. =)

Quebrada Sustentável: ponto de cultura socioambiental Educativo, trabalhando com Permacultura e Agroecologia, co-gerimos o Viveiro Escola União de Vila Nova, subprefeitura de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo.

Cidades Comestíveis: projeto de cidade que visa estimular uma rede colaborativa de compartilhamento de recursos, conhecimentos e trabalho entre pessoas interessadas em cultivar hortas comunitárias e caseiras.

MUDA SP: movimento da sociedade civil, prefeitura de São Paulo e entidades sem fins lucrativos para incentivar a produção de alimentos sem agrotóxicos na metrópole; ocupar os espaços públicos e resgatar o contato com a natureza; difundir a alimentação saudável e sem desperdícios; devolvendo ao cidadão o direito de cultivar e preparar sua própria comida.

Referência base:

BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Lisboa, 1989. Disponível online.

 

Texto publicado no dia 21/10/2017 no site PorQueNão? – Mídia Interdependente

FOMES DO MUNDO

FOMES DO MUNDO

O título desse texto é uma afirmação e uma provocação. Existem mais formas de manifestação da fome do que o senso comum nos ensina. Você já pensou sobre isso?

Se afirmamos que a maioria das pessoas no globo passam fome hoje, você acreditaria? Por um lado você pode concordar, pensando que fome é sinônimo de apetite e/ou vontade de comer, todo mundo tem fome todos os dias. Este é um tipo de fome, a definimos como fome aguda. Ok, até aí, tudo certo. Quando estamos com fome, abrimos a geladeira de casa ou vamos à uma padaria e saciamos nossa vontade.

Precisamos lembrar que não são todas as pessoas que possuem recursos para adquirir seu alimento. Nesse sentido, se uma pessoa fica com fome por muito tempo e/ou não sacia em quantidade suficiente seu apetite e necessidades biológicas de manutenção de vida, essa fome é chamada crônica. Existe ainda uma terceira hipótese com duas situações: eu tenho algum recurso para comprar comida, mas não o suficiente para consumir várias opções, ou; eu tenho recursos para comprar a comida que eu quiser e opto por consumir alimentos que não tomem muito do pouco tempo de uma rotina agitada e estressante em uma metrópole. Essas duas histórias contam com um elemento em comum: uma alimentação não saudável. Hábitos alimentares monótonos e/ou em quantidade insuficiente para suprir necessidades nutricionais de uma pessoa gera o que estudiosos chamam de fome oculta. As fomes oculta e crônica são estados nutricionais que se desdobram na desnutrição, que ainda pode se expressar em subnutrição ou obesidade.

Três fotografias de um mesmo fenômeno, três fotografias que retratam as fomes do mundo. Quem dera que as lutas de combate à fome ocorressem apenas no âmbito da fome aguda! Assim, entramos em um “diálogo perigoso” como diria Josué de Castro, médico profeta que teve a ousadia de marcar a sociedade com seus estudos sobre fome no Brasil. Há 70  anos, em sua obra Geografia da fome, Josué demonstrou a influência dos fatores socioeconômicos sobre os fatores biológicos da nossa população, através da deficiência alimentar e da predominância de interesses privados sob os coletivos.  

A fome não se limita a uma enfermidade biológica, mas sim é uma doença social fruto da má distribuição de alimentos no globo; do sistema agroalimentar super mecanizado e dependente de agroquímicos, e; de uma indústria alimentícia preocupada no excessivo consumo de seus produtos, muitas vezes, não saudáveis. Em suma, a fome é um desdobramento social da forma como a cadeia de produção de alimentos opera hoje, embasada nos princípios do capitalismo corporativista, sistema político econômico que consome nossos dias.

É importante ressaltar que ambos os quadros (obesidade e desnutrição) são graves e evocam múltiplos olhares para o planejamento e execução de estratégias que em uma primeira instância os reduzam e em melhores perspectivas efetive sua devida erradicação. Esse adoecimento generalizado é gerado em decorrência de inúmeros fatores, tais como o ultra processamento de alimentos pela indústria alimentícia, o uso excessivo de agrotóxicos e as monoculturas que massificam e monotonizam a alimentação das pessoas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization) estima que cerca de 805 milhões de pessoas são cronicamente subnutridas entre os anos de 2012 e 2014. É um número expressivo, mas está dentro de uma tendência de redução. Este número é de 100 milhões menos que na última década e 209 milhões menos que na década de 90. Estudiosos apontam que, inversamente proporcional está à prevalência de sobrepeso e obesidade na população mundial e brasileira, cresce a cada década alcançando todas as faixas etárias.

Esses problemas sociais colocados sob o plano de fundo global parecem possuir um peso de impossibilidade em sua resolução. No entanto, ações locais e suas devidas articulações regionais podem ser potentes possibilidades de minimizar os impactos que uma má alimentação geradora de efeitos em sujeitos e seus contextos tanto numa condição abundante de alimentos como também na falta destes. São as potencialidades encontradas no encontro e na convergência de saberes e práticas sustentáveis que nos fortalecem para seguir os passos de tantas pessoas no combate às fomes do mundo.

Referências usadas.

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. The State of Food Insecurity on the World – Strengthening the enabling environment for food security and nutrition. Rome, 2014.

MONTEIRO, C. A. A dimensão da pobreza, da desnutrição e da fome no Brasil. Estudos Avançados. São Paulo, 2003.