Banquetaço em Brasília serve mil pessoas com comida de verdade

Banquetaço em Brasília serve mil pessoas com comida de verdade

Brasília foi uma das 40 cidades em 22 estados que participaram do ato de protesto contra a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA

O ato ocorreu no dia 27 de fevereiro, com representação de 22 estados em manifestações realizadas em 40 cidades no país. No Distrito Federal, o banquetaço ocorreu em Brasília entre os prédios do CONIC e shopping Conjunto Nacional em frente a rodoviária central.

O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA é um espaço legítimo de participação popular, na construção de políticas públicas de Segurança e Soberania Alimentar e Nutricional no país. Essas políticas contribuem para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável. Historicamente, este órgão congrega ativistas, representantes de movimentos sociais e/ou povos e comunidades tradicionais, organizações e entidades implicados no monitoramento, planejamento e articulação intersetorial de ações para o combate à fome e melhoria da qualidade alimentar e nutricional no Brasil, o que quer dizer: uma alimentação que seja socialmente justa, culturalmente referenciada e ambientalmente sustentável.

Tanto a sociedade civil quanto parlamentares do congresso foram o público alvo da ação que se colocou como um instrumento de sensibilização e educação sobre o tema para que tanto a população saiba requerer seu direito por uma alimentação saudável e de qualidade quanto os representantes públicos incluam nas suas pautas de gestão a Segurança Alimentar e Nutricional em suas ações.

Banquetaço Brasília | Resumo do dia

A articulação do ato ocorreu de forma virtual e presencial, o grupo de whatsapp da comissão de Brasília congregou, aproximadamente, 100 pessoas com envolvimento no tema dos mais diversos segmentos da sociedade. As reuniões preparatórias para planejamento e organização da manifestação na cidade, contou com um grupo nuclear de trabalho operando com cerca de 30 pessoas presencialmente. Organizações e entidades ligadas à agroecologia e compostagem urbana; sindicatos; alunos/as e professores/as de graduação da Universidade de Brasília; ativistas de movimentos sociais como o Slow Food Cerrado e o Bem Viver; agricultores/as e coagricultores/as das Comunidades que Sustentam a Agricultura – Rede CSA Brasília, assim como parlamentares de diferentes partidos políticos, nutricionistas, cozinheiros/cozinheiras e donos de restaurantes compuseram esta rede de cores, sabores e afetos em torno do alimento.

Uma equipe de aproximadamente 30 pessoas se envolveram nas preparações que foram distribuídas gratuitamente à população como uma forma de sensibilização sobre a importância do CONSEA para a sociedade, bem como, a relevância de considerar a origem do nosso alimento como um elemento determinante e impulsionador de processos que fortalecem diferentes cadeias de produção de alimentos. A escolha da oferta de comida de verdade produzida com alimentos agroecológicos e regionais do bioma cerrado teve a intenção de mostrar o quanto é possível garantir o acesso à alimentação adequada e saudável de forma, boa, limpa e justa. Se não conseguimos até hoje acabar com a fome no Brasil, pode-se perceber que é uma questão política de agenda de gestão.

O lema da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional: “Comida de verdade, no campo e na cidade” foi evocado nas falas de diferentes representações que participaram do evento. Entende-se por comida de verdade, segundo o documento da conferência realizada em 2017:

“aquela que reconhece o protagonismo das mulheres, respeita os princípios da integralidade, universalidade e equidade. Não mata nem por veneno nem por conflito. É aquela que erradica a fome e promove alimentação saudável, conserva a natureza, promove saúde e a paz entre os povos”

Mais de mil refeições foram entregues aos passantes do local que não só puderam experimentar preparações elaboradas por diferentes voluntários e voluntárias, como também, conheceram melhor a atuação do CONSEA e conceito de comida de verdade por meio de pratos produzidos com alimentos vindos da agricultura familiar, sem agrotóxico, valorizando ingredientes regionais do bioma cerrado como o pequi e o baru. As Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC –, também marcaram presença nas receitas como o coração de bananeira que virou recheio para escondidinhos de mandioca e abóbora.

Cozinheiros como Paulo Mello, Tonico Lichtsztejn, Cristina Roberto apoiaram a ação coordenando as equipes das cozinhas dos restaurantes apoiadores. O laboratório de técnica dietética do curso de Nutrição da Universidade de Brasília também foi utilizado, assim como a cozinha da casa da nutricionista Bruna de Oliveira com a do-supervisão da cozinheira Talitha Ferreira foram os pontos de encontro entre práticas alimentares e técnicas gastronômicas com muito amor, implicação política e compromisso com a causa de SAN.

A participação ativa de produtores e agroextrativistas foi o cerne do ato por meio do trabalho do casal extrativista Dona Ana e Seu Zilas, integrantes do Movimento Slow Food, e, a generosidade e articulação da Rede CSA Brasília que doou a majoritária quantidade de alimentos produzidos de forma agroecológicas e sem o uso de agrotóxicos. Considerando que o conceito de de Segurança Alimentar e Nutricional abrange a cadeia de produção de alimentos da semente ao prato, o movimento de Agricultura Urbana também esteve presente com a presença do jornalista Juarez Martins, também empreendedor social do projeto Horta Linda com a distribuição de mudas de hortaliças.

Além de um ato público com representações políticas e institucionais, música, teatro e poemas compuseram o ambiente de um verdadeiro festejo popular! Cecília, artista, realizou uma performance apresentando as diferentes realidades de vida e morte contidas na forma de produção de alimentos em crítica ao sistema agroalimentar hegemônico no país, mais conhecido como agronegócio. Ainda, Martinha do Coco, cantora renomada na região, embalou o compartilhamento das comidas com muita música, alegria e resistência.

Até o momento, ainda não está definido como a Medida Provisório nº 870 tramitará no congresso nacional, contudo, espera-se que o Banquetaço Nacional sirva como gatilho para o fortalecimento das lutas por comida de verdade para todas as regiões do país. Enquanto a MP não é votada, muito ainda pode ser feito para difundir o tema da alimentação saudável e sustentável entre todos e todas neste vasto e biodiverso Brasil. A rede que se formou para realização deste ato expressa um coletivo na cidade de Brasília que pode ser importante para o tema da SAN/DHAAS no contexto político – histórico nacional.

Banquetaço DF em números

  1. Mais de 1000 refeições distribuídas gratuitamente;
  2. Aproximadamente 1 tonelada de alimentos preparados;
  3. 23 preparações elaboradas;
  4. Resíduos direcionados à compostagem urbana;
  5. 100% dos alimentos doados pela Rede CSA Brasília produzidos de forma agroecológica e sem o uso de agrotóxicos;
  6. 7 cozinhas de preparo
  7. Uma equipe de 30 cozinheiros e cozinheiras;
  8. Mais de 50 pessoas envolvidas na execução da manifestação

Restaurantes apoiadores

  • Hughub
  • Dona Lenha
  • Pinella
  • Bioon
  • Cristina Roberto Buffet
  • Buriti zen
  • Departamento de Nutrição/FS/UnB | OPSAN/UnB

Acompanhe o movimento e as repercussões deste ato nas redes sociais do coletivo Banquetaço (@banquetaco.nacional). As fotos do ato em Brasília estão disponíveis aqui. Está previsto uma reunião de avaliação do Banquetaço para definição de papéis e formulação de uma agenda de atividades no tema. Acompanhe as chamadas pelas redes sociais.

Presidência extingue CONSEA da estrutura da gestão nacional

Presidência extingue CONSEA da estrutura da gestão nacional

Entenda porquê não é bom que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA, instância consultiva da Presidência da República ser removida dos órgãos de assessoramento imediato do governo.

A cada quatro anos, o dia primeiro de janeiro é mais do que comemorar a paz no mundo no Brasil: é o dia em que toma posse a pessoa que foi eleita como representante geral do Brasil. Este ano, não foi diferente e após o término do governo da presidenta Dilma Rousseff, sorrateiramente impeachmada pelo golpe que vivemos em 2016, assumiu este posto de gestor e representante nacional o #elenão. Neste mesmo dia, saiu a edição do Diário Oficial da União – DOU na seção 1 a Medida Provisória Nº 870 que estabelece a organização básica dos órgãos da Presidência da República e dos Ministérios.

A princípio, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA, que até então fazia parte dos órgãos de assessoramento imediato a presidência da república, não fará mais parte desse rol de conselhos para compor a gestão do atual governo brasileiro. A extinção do conselho, parece ser mais que uma hipótese ou especulação. A LEI Nº 11.346, de setembro de 2006 (que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada) já foi atualizada com a retirada do CONSEA da sua constituição, ou seja, legislativamente, não existe nenhum respaldo para a manutenção deste órgão que existe antes mesmo do sistema nacional e possui uma relevância estruturante na operação das políticas públicas de alimentação, nutrição, abastecimento e meio ambiente por meio da produção de alimentos no Brasil.

Esta é uma notícia alarmante compreendendo a importância do Direito Humano à Alimentação Adequada – DHAA e o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional – SAN enquanto estratégia política que incida nas questões pertinentes à manutenção da vida humana, bem como a saúde ambiental por meio da produção, distribuição e consumo de alimentos de maneira mais sustentável e equitativa possível. Por certo, o consumo não é a última parte deste processo onde ainda podem ser integradas reflexões e proposição sobre descarte, redução e/ou tratamento de resíduos orgânicos, especialmente nos grandes centros urbano do país.

O CONSEA existia como órgão de assessoramento imediato à presidência da república desde antes da criação do SISAN em 2006. O CONSEA aparece na Medida Provisória nº 103, de janeiro de 2003 que estabeleceu a organização do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Após a criação do SISAN, descreve-se melhor as atribuições do CONSEA na lei, instituindo como suas responsabilidades:

  1. convocar a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, com periodicidade não superior a 4 (quatro) anos, bem como definir seus parâmetros de composição, organização e funcionamento, por meio de regulamento próprio;
  2. propor ao Poder Executivo Federal, considerando as deliberações da Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, as diretrizes e prioridades da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, incluindo-se requisitos orçamentários para sua consecução;
  3. articular, acompanhar e monitorar, em regime de colaboração com os demais integrantes do Sistema, a implementação e a convergência de ações inerentes à Política e ao Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional;
  4. definir, em regime de colaboração com a Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, os critérios e procedimentos de adesão ao SISAN;
  5. instituir mecanismos permanentes de articulação com órgãos e entidades congêneres de segurança alimentar e nutricional nos Estados, no Distrito Federal e nos Municípios, com a finalidade de promover o diálogo e a convergência das ações que integram o SISAN;
  6. mobilizar e apoiar entidades da sociedade civil na discussão e na implementação de ações públicas de segurança alimentar e nutricional;

Eu bem que tentei, mas não consegui encontrar todas as medidas provisórias de todos os governos desde então. Conduto, fica nítido que o CONSEA desenvolveu seu trabalho de forma excelente com presidentas com expertise no assunto como a Atropóloga Maria Emília, posteriormente, a Nutricionista Elisabetta Recine juntamente com uma comissão de conselheiros e conselheiras dos mais diversos segmentos sociais na defesa do DHAA e saudável procurando abarcar todas as etapas da cadeia de produção de alimentos, assim como o maior número de atores que formam os sistemas alimentares.

A título de contextualização cabe dizer que a segurança alimentar e nutricional no brasil abrange diferentes dimensões no que tange a alimentação da população. A alimentação pode é compreendida como um elemento estruturante na organização social de homens e mulheres no campo e na cidade. Também, reconhece-se que o ato de comer movimenta diferentes setores da sociedade como agronômica, de saúde humana e ambiental, educação, economia, entre outros aspectos que também merecem destaque como a conservação de culturas e modos de produção mais ecológicos e dignificantes para homens e mulheres trabalhadoras dessa imensa e complexa rede que é o sistema agroalimentar atual.

O conceito de Segurança Alimentar e Nutricional, seguindo a lei, consiste:

na realização do direito de todos (e todas) ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciai, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentável. (BRASIL, 2006).

Materializar esse conceito requer muita agenda política e máxima expressão de intersetorialidade para que as ações dessa política sejam efetivas e capilarizadas no território nacional. Particularmente, lamento imensamente essa notícia que expressa a atenção dada a esta atual gestão no que tange ao tema. Alguns Conselhos como o Nacional do Esporte e o Nacional de Cultura (com a adjetivação de especial… o que será que quer dizer esse especial) migraram para o grande Ministério da Cidadania junto das políticas nacionais de assistência e desenvolvimento social, além da política de drogas. Trouxe exemplos aleatórios para apresentar que grande mistério é esse que congrega não somente universos teórico-práticos distintos como o desafio de articular esses espaços transdisciplinares de uma forma pouco sinérgica e articulada.

Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos. Estou alerta quanto ao posicionamento do, talvez, último CONSEA dos próximos 4 anos, como também, iniciar os planejamentos para ações da sociedade civil de maneira mais assertiva e intensa para concretude da garantia do direito humano à alimentação adequada. Precisamos resgatar o divino, o sagrado, o central do alimento em nosso cotidiano, não dá mais para pensar que problemas de alimentação estão presentes apenas entre as camadas menos privilegiadas da população, ou que dilemas como fome, sobrepeso e obesidade infantil, crescente incidência de suicídio entre produtores rurais ou a contaminação e mercantilização dos nossos recursos naturais, especialmente a água, não estão relacionados e revelam quão doente socialmente estamos enquanto grupamentos humanos.

Não mencionar uma instância consultiva da magnitude do CONSEA é no, no mínimo, negligência como inúmeras questões extremamente relevantes na gestão pública. Se ele não existe legalmente em nenhum lugar, como não foi extinto? Será substituído por outra instância? O SISAN permanece com qual operação sem esse agente importante na sua dinâmica de funcionamento. Se não foi extinto? Qual a proposta de transformação? Quais medidas e estratégias pensadas para que o SISAN não prossiga manco.

O CONSEA, uma instância de pluri representação: da sociedade civil, povos ancestrais e originários, famílias rurais e urbanas à organizações que trabalham com a violação do direito à alimentação e setores governamentais. Com congregava essa imensidade de saberes e conhecimentos para apoiar, impulsionar e sensibilizar a todos e todas do destaque merecido que a Segurança Alimentar e Nutricional merece na sociedade e na agenda pública.

Estou aguardando as próximas cenas desse capítulo. Lamentando os sinais que se apresentam depois de tantos avanços que estavam sendo consolidados, também, pelo trabalho do CONSEA.

REFERÊNCIAS:

Edição Especial do Diário Oficial da União, 1 de janeiro de 2019. Disponível em: <http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=01/01/2019&jornal=701&pagina=1&totalArquivos=15> Acessado: 2 jan 2019.

Medida Provisória Nº 870, de 1 de janeiro de 2019. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Mpv/mpv870.htm> Acessado: 2 jan 2019.

LEI Nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11346.htm> Acessado: 02 jan 2019.

Da horta ao prato | Brasília Patrimônio Vivo – Sustentabilidade

Da horta ao prato | Brasília Patrimônio Vivo – Sustentabilidade

Participei de uma matéria especial sobre sustentabilidade para o Correio Brasiliense. <3 A série Brasília, patrimônio vivo: os protagonistas da história da capital é uma parceria entre o Correio Braziliense e o Centro Cultural Banco do Brasil. Elaborada por diferentes jornalistas, esta edição destacou a história de pessoas que tem feito a sua parte para a preservação do meio ambiente e o crescimento sustentável de Brasília. Agradeço à Gabriela Walker pela sensibilidade da escrita da minha história. =)

Sobre a terra, a vida e a mudança necessária

A ciência já atestou: estamos em deficit com o planeta. Se a cultura da exploração dos recursos naturais e do consumo não mudar, sofreremos em demasia. Racionamento de água é só o começo. A série Brasília, patrimônio vivo: os protagonistas da história da capital, parceria entre o Correio Braziliense e o Centro Cultural Banco do Brasil, destacamos pessoas que fazem sua parte para preservar o meio ambiente e contribuir para o crescimento sustentável.

Fazer diferente para fazer a diferença

Sustentabilidade não é um conceito mercadológico. É atitude, consciência e condição para a vida humana se manter por aqui. Há pessoas, em Brasília, contribuindo para isso

CRISTINE GENTIL – Especial para o Correio

13/04/2018. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A. Press. Brasil. Brasília – DF. Cidades. Crise hídrica. Foto aérea feita com drone da Barragem do Descoberto.

Brasília nasceu e logo foi vista como um eldorado, lugar onde as pessoas chegariam para garantir assento entre os ricos. Mais do que oportunidade, muitos enxergaram a facilidade de expandir suas intenções, as boas e as más, infelizmente. Pode-se dizer que, em pelo menos um quesito, a capital de JK foi cruelmente castigada ao longo do tempo. A prática de ocupar, explorar e saquear as terras públicas foi — e ainda é — recorrente.

A ilegalidade gerou e gera prejuízos ao meio ambiente e compromete o futuro de Brasília, do cerrado e do planeta. Como mudar essa realidade? Além da ação do governo e dos demais poderes legalmente constituídos, é possível que cada cidadão faça sua parte. E há um bocado de gente fazendo. Não apenas na difícil missão de controlar invasões e denunciar irregularidades, papel das autoridades e também da imprensa. Mas também nos quintais — os próprios, os dos vizinhos e por aí vai.

Pioneiros e jovens têm resistido, interferido e criado mecanismos para tentar mudar a persistente cultura que induz ao desperdício, ao consumo em excesso, à produção de lixo, ao desgaste da natureza. No nono capítulo da série Brasília, patrimônio vivo: os protagonistas da história da capital, parceria entre o Correio Braziliense e o Centro Cultural Banco do Brasil, vamos mostrar quem são as pessoas que tomam a iniciativa de proteger a natureza, disseminam ideias que ajudam a tornar o mundo de fato sustentável, sensibilizam outras pessoas a mudar de atitude em relação ao planeta, etc.

A elas, devemos o despertar para uma nova consciência, que pode nos devolver a certeza de um futuro mais promissor. Por enquanto, não estamos apenas em alerta. Estamos em perigo.

O que é sustentabilidade?

Termo usado para definir ações e atividades humanas que visam suprir as necessidades dos seres humanos sem comprometer o futuro das próximas gerações. Relaciona-se ao desenvolvimento econômico e material sem agredir o meio ambiente, usando recursos naturais de forma inteligente. Para garantir o desenvolvimento sustentável, deve-se trabalhar para que a exploração dos recursos vegetais de florestas e matas seja controlada, fazendo o replantio sempre que necessário. Além disso, preservar áreas verdes não destinadas à exploração econômica, incentivar cultivo e consumo de orgânicos, usar energias limpas e renováveis, reciclar resíduos sólidos. E mais: promover e adotar ações para o consumo controlado da água e a não poluição de recursos hídricos, entre outras medidas.

Da horta ao prato

Bruna de Oliveira, nutricionista, decidiu ser o mais sustentável possível. Também trabalha para que as panc entrem no cardápio do brasiliense

GABRIELA WALKER – Especial para o Correio

Bruna de Oliveira queria ir à África, em missões humanitárias, para ajudar pessoas carentes, mas a mãe foi clara: ela precisava estudar e se preparar. Seguindo o conselho, Bruna entrou na faculdade de nutrição, mantendo como foco a vontade de encontrar alternativas que pudessem aliviar a fome de populações marginalizadas. Em 2011, na academia, descobriu as plantas alimentícias não convencionais (PANC) e, desde então, se dedica a entender e promover conhecimento sobre esses alimentos saudáveis e acessíveis que, até pouco tempo atrás, ficavam fora das mesas de refeição.

Natural de Porto Alegre, Bruna, hoje com 27 anos, se mudou para Brasília em 2015, pouco depois de concluir a graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Na capital, ela atua como pesquisadora associada do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA), órgão da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Brasília que promove e valoriza a evolução cultural da alimentação.

“A gente respalda e incentiva a segurança alimentar nutricional, que entende uma alimentação saudável como aquela que é socialmente justa e ambientalmente sustentável”, explica.

No projeto Clube do Jardim, promovido pela fundação, a nutricionista trabalha modificando a imagem do paisagismo tradicional e promovendo a aceitação de flores comestíveis e variadas plantas que podem entrar para o cardápio. Bruna defende a educação dos consumidores para uma alimentação saudável e reforça que a cura para crises e problemas de saúde está em refeições equilibradas e conscientes.

“A gente percebe que as pessoas na cidade são analfabetas ecológicas. Não conhecem os princípios da natureza e da ecologia e vivem uma vida totalmente descompassada”, analisa.

Hortas urbanas

Há dois anos e meio em Brasília, a nutricionista ajuda na implantação de hortas comunitárias e na mobilização de pessoas, participa de oficinas, faz mutirões e ensina como plantar e incluir plantas não convencionais no dia a dia. “Quando cheguei à cidade, eu encontrava algumas panc no Ceasa, mas, fora de lá, o circuito de comercialização era muito pequeno”, lembra. Hoje, diferentes iniciativas que produzem orgânicos oferecem panc no menu e vários restaurantes acrescentaram as plantas nos cardápios.

Segundo Bruna, os consumidores brasilienses estão entre os mais sensíveis à responsabilidade social envolvida no processo de alimentação. Existem hoje, no Brasil, cerca de 100 Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA) — 30 delas estão na capital. Essas organizações seguem um modelo de desenvolvimento sustentável que permite ao produtor vender diretamente ao consumidor, sem a necessidade do intermédio de grandes cadeias de distribuição. A prática valoriza o pequeno agricultor e a adoção de preços justos, além de contribuir com a saúde dos trabalhadores agrícolas e dos compradores.

A velocidade em que esse tipo de iniciativa se expande na cidade mostra o crescente interesse dos brasilienses em apoiar uma agricultura saudável, sem agrotóxicos e de qualidade. Bruna é um exemplo de como uma vida sustentável pode ser compatível com a correria da rotina urbana.

 

Além da minha história, você também pode conhecer a trajetória de outras pessoas, suas famílias e/ou projetos que tem feito de Brasília um lugar mais sustentável na versão completa da reportagem disponível neste link.

O mundo precisa de nutricionistas

O mundo precisa de nutricionistas

Este texto foi elaborado em coautoria com minha colega, Tatita Donatti, para o discurso da cerimônia de formatura das egressas na Unisinos em 18 de Julho de 2015. Gratidão memorar essas palavras que seguem ecoando na minha prática profissional. Já nos pediram tantas vezes esse texto e, por acaso, o encontrei na bagunça digital do meus documentos. Resolvi compartilhar em comemoração aos 3 anos dessa comemoração. Se for o caso, que inspire outras colegas também. Espero que apreciem!


 

Como refletir em palavras os múltiplos sentimentos gerados nesse dia? Como falar por 32 pessoas tão diferentes entre si em apenas cinco minutos? Infelizmente, foi este o tempo que nos deram para expressar a caminhada longa de 5, 7, 10 ou até 18 anos de formação. E por falar em Tempo, este é uma dimensão cretina: o que parecerá segundos para nós que estamos aqui em cima será um caminhão de horas para muitos da plateia. Inevitável, esses contrapontos. Bem, hoje nesta cerimônia fazemos um acordo contigo, tempo. Um acordo com as memórias, com o acúmulo de vivências e aprendizagens que nos construíram e deram forma e cor as nossas formações e vidas.

Enfim chegou o dia 18 de Julho! Segunda-feira, temos duas certezas: a primeira é que precisamos de um emprego (e logo!), e a segunda é que, antes de receber um bom dia, as pessoas irão nos pedir uma dieta. Na verdade já pedem, desde que informamos: “passei no vestibular, vou cursar Nutrição!”. Por falar em perguntas, vamos retomar algumas corriqueiras:

“Estou fazendo minha lista de compras, vi uns alimentos novos no Globo Repórter, que tu acha?”; “Vou começar a treinar na academia, qual a melhor marca de Whey?”; Óleo de côco é bom? E Chia? Posso tomar shake?”; “Então… você estuda nutricionismo?”

Apesar dessas e outras perguntas que nos tiram a vontade de viver, temos certeza que esta turma de nutricionistas fará a diferença. Seremos profissionais que se importam com o ser humano e com os fatores que o rodeiam, afinal somos muito mais que quilocalorias por quilo de peso. Somos aquelas que levantam a bandeira de que a Nutrição precisa alçar voos mais altos:

Precisa se articular mais com outros campos de conhecimento; precisa se aventurar a desbravar novos caminhos e realizar novas descobertas. Somos uma turma que reconhece o acúmulo e produção realizados até aqui, sabe o peso de responsabilidade que um jaleco pode trazer. Mas acima de tudo, que quer se aventura a ter outros apetrechos como seu Equipamento de Proteção Individual: microscópios, pipetas e reagentes químicos… entrevistas domiciliares, questionários intermináveis, SPSS… chapéu para proteger do sol, sementes crioulas para começar uma horta.

Os restaurantes seguirão precisando de nós; os hospitais nem se falem. Conquistamos espaços enquanto categoria, destes não recuaremos, exerceremos nosso trabalho com excelência onde quer que estejamos. Nenhum passo atrás, a Nutrição é uma ciência linda em crescente expansão e cabe a nós, com ética e senso político seguir nesses avanços evidenciando a importância que temos e valorizando as articulações que podemos realizar.

Somos bolsistas do PROUNI ou do FIES, somos estudantes, trabalhadoras e estudantes-trabalhadoras que  vivenciam as dificuldades de um sistema falido que insiste em afirmar que seus métodos funcionam. É este sistema que em nome do Kapital impulsiona a utilização de agrotóxicos na produção agrícola e seus monocultivos; que potencializa os vícios de consumo dos ultra-processados; que cega muitos que buscam em cápsulas e dietas milagrosas o perfeito corpo socialmente aceito. Colegas, não se deixem enganar, este sistema traz falsas verdades maquiadas com muito açúcar e gordura trans! Uma maquiagem que produz câncer, diabetes, hipertensão, obesidade e fomes.

Fome de vida, fome de saúde, fome de respeito e acolhimento. A sociedade tem fome… muita fome de comida mas também de algo mais. A humanidade está hipertensa de estresse, violência e medo; Está obesa de intolerância e fragmentação, em tudo isso não nos admiremos que venham os cânceres de preconceito e discriminação. Vivemos tempos de doença e a nossa constatação é: o mundo precisa de  nutricionistas.

Claro, quem deveria conhecer os meandros do alimento? Suas características organolépticas e manejos dietéticos? Quem saberia propor um plano alimentar que respeite as diversidades culturais, os valores simbólicos e os ritos relacionados em uma refeição? Quem reconheceria que sentar a mesa é um ato político, social e cultural? Quem poderia afirmar que alimento é base para o corpo, complemento para a alma? Que é matéria viva que incorpora e deixa-se incorporar mostrando que é na pluralidade e na relação que se preparam os melhores manjares?

O mundo precisa de nutricionistas! Daquelas que digam: “Paaaaaarem! Mastiguem devagar, aproveitem o momento.”; Daquelas que vão te incentivar a procurar um educador físico para fugir do sedentarismo ou a feira do seu bairro para adquirir orgânicos. O mundo precisa de nutricionistas cidadãs que vão passar mais do que dez minutos num leito de hospital e irão ouvir histórias que vão além das respostas sobre a consistência das fezes e consumo diário de alimentos.

Neste dia de imensa alegria, nós visualizamos em cada semblante neste palco a  materialidade de sonhos e conquistas que vem ao encontro do que compartilhamos até aqui. Foram muitas mensalidades, provas, trabalhos, sorteios para ver quem seria a única componente do grupo a apresentar o trabalho, troca de provas e estudos de casos (quando os professores nos devolviam). Alguns graus C’s, só pra dar uma emoção! Cervejas no Rapach, panquecas no Alemão, confraternizações nas aulas, visitas técnicas, algumas polêmicas nas reuniões, afinal, 32 mulheres tentando entrar em acordo, não é uma tarefa fácil.

Sentiremos saudades destes dias. Temos a certeza que este não é o fim, estamos apenas começando!

Onde encontrar alimentos locais na cidade?

Onde encontrar alimentos locais na cidade?

O comemos muda o mundo! Saiba onde encontrar alimentos locais em diferentes cidades no Brasil.

 

Um jargão muito utilizado quando falamos de alimentação e saúde é: ”você é o que você come”, isso porque realmente a qualidade e quantidade dos alimentos que consumimos todos os dias contribui para a manutenção do nosso organismo e bem-estar. Acontece que alimentação não está restrita a essa relação biológica das nossas necessidades.

Alimentação é algo difícil de definir, ela é um processo biológico que faz a nutrição do nosso corpo; é um setor econômico que movimenta parte das relações de trabalho no mundo, como também, um fenômeno social com expressões culturais que dão identidade às refeições das sociedades. Alimentação é uma intensa marca da humanidade na natureza ao mesmo tempo que por meio dela somos marcados. Alimentação está tão arraigado no nosso dia-a-dia que esquecemos de pensar sobre esse ato.

Por isso, eu acredito que o mundo é o que comemos. Conhecer o caminho que acontece da semente ao prato é essencial para buscarmos saúde para nós mesmos e o ambiente. O consumo de alimentos locais é um ato de amor! Mesmo na cidade, nós urbanóides podemos contribuir para os impactos positivos que nosso planeta precisa e merece.

Alimentação local é aquela que utiliza alimentos que foram cultivados perto de onde moramos, e não pense que proximidade é sinônimo de restrição. Principalmente aqui no Brasil, onde todos os 5 biomas (Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Amazônia e Pampa) apresentam uma diversidade de comidas e culturas gigantesca. Cada bioma brasileiro é uma imensidão de cores, sabores e histórias de homens e mulheres que carregam essas paisagens em seus modos de vida e isso também se expressa na alimentação. Já aproveita e põe aí nos comentários a sua região e qual é o prato mais delicinha que você encontra só por aí!

No vídeo IDEIAS PARA MELHORAR O MUNDO: ALIMENTAÇÃO LOCAL, eu falo sobre os benefícios de uma alimentação local. Aqui no texto eu quero apresentar algumas iniciativas lindinhas que trabalham com alimentos da sociobiodiversidade brasileira. Conheça essas iniciativas e descubra quão perto de você podem estar esses alimentos bons, justos e limpos para quem produz e quem consome! <3

Feira do Produtor – CEASA/DF | Foto: Bruna de Oliveira

Feiras Orgânicas: as feiras agroecológicas são espaços onde muitos produtores e produtoras regionais comercializam suas colheitas e produtos beneficiados como geleias, compotas, queijos ou polpa de frutas. Aqui em Brasília existem muitas feiras nas quadras residenciais no plano piloto, tem também a CEASA-DF onde, aos sábados, tem a feira do produtor com vários stands de cooperativas de produção, assentamentos da reforma agrária, etc. Você pode conhecer feiras perto de vocês por meio de uma ferramenta chamada Mapa de Feiras Orgânicas, idealizada pelo Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, com objetivo de tornar os produtos orgânicos mais acessíveis aos consumidores e fomentar uma alimentação saudável em todo Brasil.

Empreendimentos de Economia Solidária: Eu não sei você, mas eu acredito que podemos inovar nas relações de trabalho e considero que os princípios da economia solidária estão muito alinhados às práticas comunitárias de trabalho. Existem associações, cooperativas e centrais de cooperativas empenhadas em potencializar a construção e o fortalecimento de mercados para produtos das mãos de comunidades tradicionais e campesinas.

  • Central do Cerrado: A Central do Cerrado é uma central de cooperativas sem fins lucrativos estabelecida por 35 organizações comunitárias de sete estados brasileiros que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado.
  • COPABASE: Com a missão de organizar e comercializar produtos artesanais e culturais da Região do Vale do Urucuia de maneira sustentável. A COPABASE é uma cooperativa que se dedica a agricultura familiar e a Economia Solidária, com sede em Arinos/MG no Vale do Urucuia. Sua atuação regional estende aos municípios de Arinos, Bonfinópolis de Minas, Buritis, Formoso, Pintópolis, Riachinho, Urucuia e Uruana de Minas.

Movimentos da Sociedade Civil: existem muitas pessoas se juntando para construir realidades mais ecológicas e amorosas por meio do setor de alimentos.

  • Movimento Slow Food Brasil: Esse movimento, que começou na Itália e se espraiou pelo mundo tem dado bons fruto aqui no Brasil também. Por meio do projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos tem ajudado muito nessa rede cidadã agroalimentar, sendo um eixo conector entre quem produz e quem consome. Você sabia que no site desse movimento existem as Fortalezas e Comunidades do Alimento separadas por região? Tem sido muito legal acompanhar as atividades do Slow Food nesse projeto, uma das etapas que aconteceu foi o Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na região Centro-Oeste, você pode saber o que rolou aqui.
  • App Responsa: O Responsa é fruto da parceria entre o Instituto Kairós e a cooperativa de trabalho EITA. Nele, você pode encontrar locais, iniciativas e grupos que adotam e fomentam práticas de responsabilidade na produção e consumo. Há iniciativas da economia solidária, grupos de consumo responsável, iniciativas de agroecologia, centrais de comercialização, pequenos produtores, cooperativas de trabalho, feiras orgânicas, restaurantes com produtos orgânicos, hortas comunitárias em todo o Brasil.

Produtores/as e consumidores/as em seminário sobre alimentação e sociobiodiversidade Slow Food. | Foto: Nzinga Bonne

Muitos desses produtos podem ser encontrados em restaurantes, empórios e lojas com princípios da sustentabilidade e agroecologia. Se você não conhece os alimentos locais da sua região, sugiro começar com o livro Alimentos Regionais Brasileiros, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em 2015. A publicação tem o objetivo de  favorecer o conhecimento acerca das mais variadas espécies de frutas, hortaliças, leguminosas, tubérculos, cereais, ervas, entre outras, existentes no Brasil.

Uma coisa é certa, precisamos fortalecer as redes entre quem produz e quem consome, abraçando os princípios ecológicos e da economia solidária. A sociobiodiversidade alimentar brasileira é formada por mulheres e homens do campo e da cidade, preocupados com o cuidado com o meio ambiente, com todos os seres que compõem a natureza e em como essas relações se estabelecem. E não menos importante, pelo sabor dos nossos pratos!

Estamos cada vez mais conectados com o mundo inteiro e todas as coisas boas que a diversidade global pode nos oferecer. Ao mesmo tempo, estamos cada vez mais desconectados de todas as coisas boas que também existem pertinho da gente. Bora botar em prática o bom e velho “pensar globalmente, agir localmente”. Acho que um ótimo jeito de começar é através da alimentação: uma coisa que todo mundo faz, todos os dias! Comer localmente pode beneficiar o mundo inteiro.

Ah, você pode me mandar um e-mail (contato@crioula.net) contando sobre lugares legais que você sabe que poderiam estar nesta postagem. Compartilho projetos que fazem parte do meu cotidiano, é sempre bom aprender e compartilhar informações! Vamos conversar!

Texto escrito para o site do PorQueNão? – Mídia Interdependente